Possível candidatura de Lula retarda rompimento do mercado financeiro com Bolsonaro

Bancos comerciais e de investimento queriam nome de centro; agora, avaliam apoio à reeleição desde que alguma reforma seja feita

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Brasília

​A possível candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à sucessão presidencial em 2022 piorou o humor de algumas das principais instituições do mercado financeiro.

Elas agora relutam em romper com Jair Bolsonaro (sem partido) apesar da certeza de que o presidente não irá cumprir a prometida agenda liberal e que trabalha, nos bastidores, para agravar ainda mais o quadro fiscal como forma de viabilizar sua reeleição.

Antes da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, que anulou todas as condenações contra o ex-presidente pela Justiça Federal de Curitiba –devolvendo, assim, os direitos políticos a ele– nesta segunda-feira (8), banqueiros e gestores dos maiores fundos de investimento do país já estavam prestes a romper com o governo.

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Contrariados com as promessas liberais não cumpridas, a intervenção de Bolsonaro na Petrobras e nas estatais, e céticos em relação ao poder do ministro da Economia, Paulo Guedes, representantes das maiores instituições financeiras do país se animavam com a possibilidade de apoio a um nome de centro para a sucessão presidencial.

Esse grupo recebeu a decisão de Fachin como um balde de água fria.

Apoiadores do ex-presidente Lula em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira, dia em que foi retomado julgamento do pedido de suspeição do ex-juiz Sergio Moro - Frederico Brasil/Futura Press/Folhapress

A Folha ouviu dois presidentes dos maiores bancos comerciais, dois gestores de investimentos e dois economistas-chefe de instituições financeiras, sob condição de anonimato.

O clima de frustração entre eles foi unânime. Afirmaram que o setor estava muito perto de um rompimento com Bolsonaro diante do agravamento acelerado dos principais indicadores da saúde financeira do país: inflação, câmbio, juros, endividamento e risco-país.

Um dos bancos operava com dois cenários no início deste ano. No mais otimista, que previa travas de controle fiscal na PEC Emergencial (que prevê contrapartidas na nova rodada de auxílio emergencial), o país conseguiria manter o câmbio na casa de R$ 4,70 e a inflação sob controle.

No modelo mais pessimista, o governo não conseguiria impor rigor fiscal na PEC e o câmbio chegaria a R$ 6 rapidamente com inflação em alta. Nesta terça-feira (9), o dólar fechou a R$ 5,80.

Diante desse cenário político, avaliam que será preciso “dar alguns passos atrás” porque Bolsonaro voltou a ganhar força e pode preservar o apoio do setor caso sinalize com alguma reforma, qualquer que seja.

Sabem que dificilmente reformas mais estruturantes serão realizadas mas, para redobrar a aposta, Bolsonaro “terá de entregar alguma coisa”, ainda que seja um simplificação tributária. Neste caso, querem um compromisso do próprio presidente e da ala ideológica.

Do ponto de vista do controle fiscal, já não basta mais medidas paliativas como o fim do abono salarial ou o congelamento de salário de servidores. Para o mercado, essas medidas já deveriam ter sido tomadas há mais tempo como forma de abrir algum espaço para despesas agora necessárias com a pandemia.

Como ainda não precificaram o "risco Lula" —cálculo do impacto da candidatura nos indicadores econômicos aos quais está atrelada a remuneração dos investimentos—, não têm um "plano B".

Analistas não descartam a possibilidade de Lula adotar um tom mais conciliador e de preocupação com as contas públicas, como na eleição de 2002.

No entanto, resistem ao petista porque não querem a volta das políticas de aumento da intervenção do estado na economia e nas empresas, como a concessão de subsídios diretos a setores ou por meio de créditos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Mas reconhecem que haverá um racha no empresariado. Para eles, setores pouco produtivos e contrários à abertura de mercado, como a indústria, tendem a apoiar Lula mirando a volta das políticas assistencialistas.

Esses banqueiros avaliam que, apesar de Bolsonaro estar mais confiante na aprovação pelo Congresso de uma pauta "mais populista capaz de garantir a reeleição", o setor tem mais chances de alguma reforma com Bolsonaro do que com Lula devido à base de apoio que o presidente arregimentou no Congresso.

Isso não significa que estejam confortáveis com essa possibilidade. O mercado considerou a votação da PEC Emergencial como marco da retirada de apoio ao governo. Caso a PEC fosse aprovada sem as travas fiscais, marcaria a debandada de instituições nacionais, agravando a queda da Bolsa.

Desde que foi submetida ao Senado, esses executivos consultados pela Folha afirmam que vêm monitorando a atuação do Planalto nos bastidores.

Seus emissários detectaram a intenção de Bolsonaro de retirar da PEC gastos sociais para, assim, escaparem da lei do teto —regra fiscal que restringe a correção das despesas de um ano à inflação do ano anterior.

Uma brecha no texto poderia tornar sem efeito o trecho que previa cortes de benefícios tributários, deixando intocados os incentivos existentes hoje na legislação.

Apesar do esforço do Planalto em agradar a base aliada, o Senado preservou dispositivos que garantiram algum controle fiscal.

Esses banqueiros afirmam que, nesta semana, com o texto tramitando na Câmara, Bolsonaro delegou a tarefa de conseguir novas brechas para gastos fora do teto para um deputado da base aliada e a seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Segundo esses executivos, Bolsonaro queria conceder benefícios para setores da economia que o apoiam --como a indústria-- e beneficiar categorias do ajuste, como policiais e outros profissionais da segurança pública. Escapariam, por exemplo, de congelamento salarial.

No entanto, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou nesta terça-feira (9) que a "maioria esmagadora" dos partidos da base apoia o texto como veio do Senado, para acelerar a liberação do auxílio emergencial.

Nas últimas semanas, a B3 perdeu mais de R$ 15 bilhões com estrangeiros que venderam suas ações de empresas nacionais, especialmente Petrobras. Com a alta dos combustíveis, Bolsonaro interveio na petroleira trocando o presidente, que resistia a conter as remarcações com caixa da companhia.

O principal executivo de um banco estrangeiro de investimento ironizou a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o dólar chegaria a R$ 5 se o governo “fizesse muita besteira”.

Na segunda-feira (8), o dólar ficou R$ 0,10 mais caro. A moeda fechou em alta de 1,67%, a R$ 5,7770, maior valor desde 15 de maio de 2020. Nesta terça (9), foi a R$ 5,7920.

Os juros futuros para alguns contratos de dez anos bateram 9%, o que pressiona a alta dos juros que indexam a economia no curto prazo. Na média, o juro para janeiro de 2031 foi de 8,22% para 8,45%. Isso significa que, para financiar sua dívida, o governo está pedindo mais prazo e pagando mais para ter crédito. O juro para janeiro de 2025 foi de 6,95% para 7,27%.

O risco-país medido pelo CDS de cinco anos subiu 9,55% nesta segunda, próximo ao fechamento do mercado, indo a 215,258 pontos, maior nível desde novembro de 2020.

A decisão de Fachin aos olhos do Mercado

A posição de altos executivos do mercado financeiro sobre o quadro eleitoral que se anuncia para 2022

​LULA

  • A maioria recusa a volta de uma política populista implementada pelo PT marcada pela maior participação do estado na economia e nas empresas por meio de subsídios e empréstimos com dinheiro público num momento de aperto fiscal severo e aumento da dívida pública
  • Banqueiros consideram que parte do empresariado avesso à política da livre concorrência poderia abrir dissidência e apoiar a candidatura. Nesse time, estariam principalmente setores da indústria que temem a abertura comercial

BOLSONARO

  • Altos executivos do setor financeiro avaliam que o presidente estava a um passo do rompimento com o setor diante de suas sucessivas tentativas de minar as metas fiscais e recusa em levar adiante a promessa de campanha de implementar a agenda liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes
  • Com a decisão do ministro do STF Edson Fachin, a avaliação é a de que Bolsonaro pode sustentar o apoio do setor caso acene com medidas reformistas, quaisquer que sejam. Não querem saber, porém, de “acessórios fiscais”, como o fim do abono salarial ou o congelamento de salários de servidores, por exemplo
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