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Volkswagen pede desculpas por brincadeira com 'Voltswagen'

Informação foi tratada como autêntica pela imprensa, por companhias rivais e por analistas

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Peter Campbell
Londres | Financial Times

A Volkswagen se viu forçada a pedir desculpas por enganar os consumidores ao divulgar uma aparente brincadeira de 1º de abril em março.

A companha havia anunciado no começo da semana que mudaria o nome de sua subsidiária nos Estados Unidos para “Voltswagen”, em um esforço para promover sua nova linha de veículos elétricos que está chegando ao mercado.

A informação foi tratada como autêntica por diversos veículos de mídia internacionais [inclusive a Folha], por membros de conselhos de companhias rivais e mesmo por analistas da corretora Wedbush, que escreveram que a mudança de nome “sublinha o compromisso claro da VW para com sua marca de veículos elétricos e seus esforços maciços no ramo nos próximos anos”.

Logo da Volkswagen na sede da empresa, na Alemanha - Ronny Hartmann - 26.mar.2021/AFP

Os ADRs (recibos de ações negociados nos EUA) da Volkswagen negociados nas Bolsas americanas subiram 16% na segunda (29) e na terça-feira (30), e caíram 5% depois que a empresa admitiu a brincadeira nesta quarta (31).

“A Volkswagen of America desenvolveu e implementou uma campanha de marketing a fim de chamar a atenção —de um jeito brincalhão— para a ofensiva elétrica da empresa, e para o lançamento do ID.4 nos Estados Unidos”, anunciou a montadora.

"A intenção era criar ‘awareness’ [conhecimento sobre a marca] quanto a uma questão importante para a empresa e o setor no país. Lamentamos que o anúncio possa ter incomodado algumas pessoas”.

Volkswagen passa a se chamar Voltswagen nos Estados Unidos
Divulgação do logo "Voltswagen", desmentido pela empresa - Divulgação

A Volkswagen declarou que valorizar o preço de suas ações “não era e não é o motivo de sua campanha”. A SEC (Securities and Exchange Commission), agência federal que regulamenta os mercados de valores mobiliários dos Estados Unidos, se recusou a comentar sobre se investigaria ou não o assunto.

Foi uma escolha incomum de estratégia para uma empresa que passou os últimos cinco anos tentando limpar a reputação por desonestidade empresarial que adquiriu com o caso dieselgate, que envolveu não só a venda de milhões de veículos que trapaceavam nos testes de poluição mas esforços da empresa para encobrir seus delitos, ao ser questionada pelas autoridades regulatórias.

Na semana passada, o grupo anunciou que processaria seu ex-presidente executivo Martin Winterkorn e o ex-presidente da divisão Audi Rupert Stadler em busca de indenizações pelo incidente.

A brincadeira com os carros elétricos gerou comentários imediatos sobre o escândalo dos poluentes.

“Voltswagen foi a melhor brincadeira de 1º de abril desde que a Volkswagen nos disse que o diesel não poluía”, tuitou a conta Whole Mars Blog, que fala em veículos elétricos e promove frequentemente a Tesla, uma pioneira dos carros elétricos.

A confusão desta semana começou na segunda-feira, quando a companhia parecia ter divulgado um novo nome por engano. Nas horas que se seguiram a isso, e no dia seguinte, a Volkswagen parece ter feito tudo que podia para confirmar a validade da mudança de marca.

A página oficial da unidade americana da montadora no Twitter incorporou a mudança de nome para “Voltswagen”, e um informe para a imprensa sobre o assunto citava o presidente-executivo regional Scott Keogh, que declarou que “a mudança de nome é um aceno em direção ao nosso passado como o carro do povo e uma declaração de nossa firme crença em que nosso futuro está em sermos o carro elétrico do povo”.

Diversos veículos de imprensa, entre os quais Associated Press, USA Today e CNBC, mencionaram confirmações por fontes internas da empresa de que a mudança era genuína.

Na quarta-feira, Lauren Easton, porta-voz da Associated Press, disse que a agência de notícias “recebeu confirmações repetidas da Volkswagen de que sua subsidiária americana planejava mudar de nome, e noticiou essa informação, que agora sabemos ser falsa”.

Ela acrescentou que “essa e qualquer outra divulgação deliberada de informações falsas prejudica o jornalismo acurado e o bem público”.

Chrissy Terrell, porta-voz do jornal USA Today, disse que a Volkswagen “usou esse falso anúncio de forma a manipular repórteres respeitados, de veículos noticiosos de confiança, a fim de dirigir atenção à sua campanha de marketing”.

O informe à imprensa foi retirado da página de mídia da montadora na madrugada de terça para quarta-feira, e o nome de sua unidade americana voltou ao normal.

Embora o comando da empresa na Alemanha tenha aprovado a brincadeira antes do Dia da Mentira, a equipe de marketing da companhia nos Estados Unidos foi responsável por veicular a notícia antes da data, disseram pessoas informadas sobre a situação.

O analista automotivo Chris McNally, da Evercore, escreveu que é preciso rir. "Só Wolfsburg [a sede da Volkswagen] seria capaz de fazer uma piada tão ruim e errar a data por dois dias”.

A brincadeira tinha por objetivo aumentar a publicidade para o mais recente modelo elétrico da Volkswagen, o ID.4, que tem papel central em suas ambições no mercado elétrico depois do lançamento conturbado do ID.3, o modelo anterior.

A Volkswagen detém uma fatia de mercado de apenas 4% nos Estados Unidos, bem distante das participações de quase 20% que controla nos mercados da Europa e da China.

Em 2003, a empresa mudou o nome de sua sede em Wolfsburg para Golfsburg, para celebrar o lançamento de um novo modelo Golf.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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