Comércio reabre em SP com movimento nas ruas e shoppings, mas vendas em baixa

Na chamada fase de transição, lojas podem funcionar das 11h às 19h

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São Paulo

O paulistano matou a saudade de loja e compareceu aos principais centros de comércio neste domingo (18), primeiro dia da fase de transição anunciada na sexta (16) pelo governo de São Paulo. As vendas, porém, ficaram bem abaixo das registradas em um domingo normal, segundo o relato de lojistas.

A reportagem visitou a rua 25 de Março, centro popular de compras da capital, a Oscar Freire, conhecida por abrigar lojas de grifes e artigos de luxo, e o Shopping Cidade São Paulo, na avenida Paulista.

A partir deste domingo, está permitida a abertura para o setor de comércio, das 11h às 19h, além de cultos religiosos. No próximo sábado (24), reabrirão as lojas de serviços, como restaurantes, salões de beleza, academias e atividades culturais, além de parques.

A reabertura ocorre em um dos piores momentos da pandemia no país. São Paulo enfrenta um crescimento rápido de novos casos e registrou média móvel de 797 novas mortes na sexta-feira (16).

Movimento no Shopping Cidade São Paulo, na avenida Paulista
Movimento no Shopping Cidade São Paulo, na avenida Paulista, neste domingo (18) - Ronny Santos/ Folhapress

Não havia pessoas sem máscara nos estabelecimentos comerciais visitados pela Folha. No shopping, a reportagem presenciou um segurança informando um visitante que comia no estabelecimento de que não era permitido ficar sem máscara nos corredores.

Tito Blessa Júnior, presidente da Ablos (Associação Brasileira dos Lojistas Satélites), diz que a média de vendas foi de 40% de um domingo normal. "Temos alguns 'ofensores' para esse resultado ruim: restaurantes e praças de alimentação sem funcionamento, idem para cinemas. Tudo isso contribui para uma redução de fluxo além dos 25% máximos permitidos", afirma.

Havia bastante movimento nas ruas, especialmente na 25 de Março, onde foram vistas diversas pessoas sem máscara.

Ondamar Antônio Ferreira, 49, gerente da loja matriz dos Armarinhos Fernando, viu uma fila se formar em frente à sua loja às 12h. Por se enquadrar na categoria de comércio essencial, eles não pararam, mas muitos dos consumidores estavam ali atraídos pelo anúncio da reabertura —não sabiam que a loja estava em funcionamento antes.

Mesmo assim, o movimento foi quase 70% menor em relação a domingos normais, antes da pandemia. A loja não investiu no ecommerce durante 2020.

Ele deposita todas as suas esperanças na vacinação. "O método de distanciamento social, cuidados sanitários que adotamos aqui na loja, ainda não é o suficiente para que a gente possa evitar essa grande tragédia que está acontecendo. O método que a gente sabe que vai dar certo é a vacina", afirma o gerente, que, apesar da queda de vendas, não precisou demitir durante a pandemia.

Foi a única loja com filas que a reportagem encontrou. Por volta das 13h, o movimento já havia esfriado.

Lá estavam Silvana Beatriz da Silva e Thiago Pereira, que compravam brinquedos para a filha. Sem a escola, eles têm feito o papel dos colegas da menina de 3 anos, mas a criatividade para novas brincadeiras está cada vez mais escassa.

Donos de uma empresa de manutenção de condomínio, têm conseguido ficar em casa, mas não sem a sobrecarga de trabalho com os cuidados da criança. Para a filha, tampouco está sendo fácil.

"Ela acaba se estressando, e a gente não é fã de celular, de ficar só na televisão, a gente quer outro tipo de recreação", afirma Thiago. Silvana diz que, sem a escola, ela sai da rotina: dorme tarde por não gastar tanta energia e acaba acordando tarde. "A gente tenta distrair da melhor forma possível, mas não tem outras crianças", diz Silvana

Eles escolheram a rua pelos preços, mas não sabiam que a loja estava aberta antes deste domingo. O casal viu a renda cair pela metade e, ao contrário dos lojistas, não vê perspecitvas de melhora para este ano com o ritmo da vacinação.

"Ainda estão na faixa de 60 anos, até chegar a pessoas de 30, 20, como a gente vai trabalhar?", pergunta Silvana.

Casal Silvana Beatriz da Silva e Thiago Pereira escolhem brinquedos para a filha de 3 anos, que não está indo para a escola por causa da pandemia - Ronny Santos/Folhapress

A suspensão do funcionamento das lojas prejudicou também toda a atividade informal do entorno da região.

Edson Araújo, 42, conhece a rua inteira, já que é dessa habilidade que depende seu trabalho: ele é puxador, o trabalhador que leva os transeuntes a loja que vende o que procuram. Ele ganha dinheiro com uma porcentagem da venda daquele cliente.

"Eu costumo falar que a 25 de março é a terra em que Deus andou. Aqui você se vira, ganha dinheiro", afirma Araújo. Mesmo lá, ele quase não conseguiu pagar o seu aluguel no ano passado. A sua renda chegou a cair 70% com o esvaziamento da rua.

Na Oscar Freire, Bruna Biazzi, 30, que mantém a loja Bendog, de acessórios para cachorros, na Galeria Oscar, contara sete clientes até as 16h40. O número é 40% inferior ao de um domingo normal.

Apesar de as vendas terem ficado aquém das expectativas, ela diz ter visto a movimentação próxima de um domingo normal. "Eu acho que as pessoas estavam com vontade de ir para a rua", afirma.

Bruna Biazzi, da Bendog, reabre a sua loja na rua Oscar Freire - Ronny Santos/Folhapress

Ela montou a loja física há um ano e meio, e o período turbulento que enfrentou a calejou para redirecionar o seu negócio para o ecommerce, com perfis ativos nas redes sociais e uma loja online.

Quando a reportagem abordou Biazzi, ela acompanhava na calçada uma cliente que havia feito compras para o seu cachorro, que a acompanhava.

"A gente estava com a expectativa bem alta, tanto de rever os clientes quanto ver o movimento da rua", afirma. Durante o fechamento, ela seguiu no atendimento virtual com entregas para todo Brasil e no atendimento via WhatsApp para clientes da região, o que garantiu que ela seguisse com suas nove funcionárias diretas.

O Shopping Cidade São Paulo tinha diversas lojas vazias. Apesar disso, os corredores e escadas rolantes estavam com movimento no início da tarde. A praça de alimentação ainda não pode funcionar.

Juliane Gouveia, gerente da Biscoitê, um quiosque de biscoitos, não teve a mesma sorte de Biazzi. Ela se emocionou ao contar sobre a demissão de duas pessoas na sua loja, onde está há dois anos, em meio às diversas perdas que as pessoas têm enfrentado nesta pandemia.

"Foi doído ver pessoas com quem a gente trabalhava terem que voltar para a cidade em que moravam por não conseguirem se manter", afirma. Na Páscoa deste ano, melhor época para a loja, ela contou ter tido uma boa surpresa com o delivery. "A gente trabalhava mais com venda presencial", afirma.

Na chamada fase de transição, a abertura dos estabelecimentos deve acontecer com até 25% da capacidade. Permanecem o toque de restrição, das 20h às 5h, teletrabalho para atividades administrativas e escalonamento de entrada e saída de atividade de comércio, serviços e indústrias.

Colaborou Bruna Narcizo

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