Descrição de chapéu Financial Times

Investidores de Wall Street observam apreensivos 'tempestade' em formação

Plano de Biden de aumentar impostos corporativos pode derrubar lucros, advertem analistas

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Aziza Kasumov Colby Smith
Nova York

Os investidores em ações dos Estados Unidos estão tentando avaliar a força de uma "tempestade" que se forma no horizonte enquanto o presidente Joe Biden pressiona por aumentos de impostos que reverteriam parcialmente a bonança histórica concedida à América corporativa por seu antecessor.

As ações atingiram novos picos nesta semana, enquanto administradores de fundos descartavam riscos que vão de aumentos nos custos dos empréstimos a valorizações elevadas e uma nova onda de coronavírus que atinge partes dos Estados Unidos e outras importantes economias globais.

Mas a proposta de Biden de aumentar os impostos corporativos de 21% para 28% e instituir um novo imposto mínimo global representa uma nova ameaça que alguns analistas advertem que poderá descarrilar o aumento constante das ações americanas.

O presidente americano, Joe Biden, logo após falar sobre o pacote de estímulo financeiro - Kevin Lamarque - 15.mar.2021/Reuters

"Todo mundo está como que num piquenique neste momento, e você pode ver o potencial de uma tempestade se aproximando", disse Ann Miletti, diretora de ativos na Wells Fargo Asset Management.

"Mas você está tentando avaliar a direção da tempestade e se ela vai ou não atingi-lo em 2021 ou 2022, ou se ela simplesmente não o atingirá."

Tobias Levkovich, estrategista-chefe de equity no Citigroup, acrescentou que "a comunidade de investimentos está animada demais" e deixando de mostrar "qualquer preocupação pelos aumentos de impostos plausíveis propostos pelo governo Biden".

Os cortes fiscais do governo Trump, aprovados pelo Congresso nos últimos dias de 2017, forneceram um reforço poderoso aos balanços corporativos ao reduzir o imposto federal oficial de 35%.

A alíquota de impostos paga pelas companhias médias americanas, que incluem taxas federais, estaduais e locais, caiu de 40% para 27% em 2018 e se mantiveram nesse nível desde então, segundo a firma de contabilidade KPMG.

Os titãs da América corporativa, que estão incluídos no índice S&P 500 de ações de grande porte, pagam ainda menos impostos em média porque muitos têm extensas operações internacionais que lhes permitem gozar de regimes fiscais mais favoráveis no exterior.

A alíquota fiscal das S&P 500 ficou em aproximadamente 17,5% no terceiro trimestre de 2020, enquanto a do setor tecnológico, que tem uma base fiscal particularmente amorfa por causa de suas operações físicas relativamente pequenas, foi de apenas 14,8%, segundo Howard Silverblatt, do S&P Dow Jones Indices.

As reduções de impostos aprovadas em 2017 levantaram os lucros por ação das companhias do S&P 500 em 10% no ano seguinte, segundo análises em junho de 2020 pelo Goldman Sachs.

"Desde 1990, as reduções efetivas de impostos representaram 2 pontos percentuais do aumento de 4 pontos nas margens de lucro líquido e 24% do crescimento total de lucros do S&P 500", comentou o banco de Nova York na época.

Hoje, os bancos de investimentos estão fornecendo aos clientes resmas de pesquisas sobre as potenciais implicações de um novo regime fiscal.

O Goldman estima que se o plano fiscal de Biden for aprovado em sua forma atual poderá cortar até 9% dos ganhos da S&P 500 por ação no próximo ano. Um aumento na alíquota de impostos corporativos de apenas 4 pontos percentuais —comparado com os 7 propostos por Biden— poderia derrubar o lucro por ação da S&P 500 em 3%, comparado com o que analistas já calcularam para o índice neste ano, disse Levkovich, do Citi.

"Nós vemos impostos mais altos como um dos maiores riscos que pairam no segundo semestre e em 2022", disse Emily Roland, codiretora de estratégia de investimentos na John Hancock Investment Management.

Ela acrescentou que o impacto poderá ser substancial o suficiente para conter os planos de recontratação das empresas. "O risco é que conforme as alíquotas de impostos sobem as companhias podem não recontratar totalmente com base no impacto sobre as margens", disse ela.

Até agora, qualquer efeito sobre os preços das ações foi abafado, com as S&P 500 tendo diversas altas recordes só na última semana. Analistas dizem que isso é porque Wall Street está em modo de esperar para ver que aumento Biden conseguirá arrancar com uma maioria muito rala no Senado.

O senador democrata Joe Manchin já rejeitou um imposto corporativo de 28%, pedindo um máximo de 25%.

Apesar desses potenciais contratempos, a mera força da recuperação econômica, juntamente com o enorme apoio fiscal e monetário dado pelos formuladores de políticas, abafou qualquer alarme sobre a fase recorde do mercado de ações.

Os ganhos das companhias do S&P 500 no primeiro trimestre, que começarão a ser anunciados nas próximas semanas, deverão ter subido quase um quarto comparados com o mesmo período do ano passado, como mostram dados do FactSet.

Isso gerou uma complacência que Andrew Simmon, gerente sênior de portfólio no Morgan Stanley Investment Management, advertiu que poderá se mostrar perigoso.

A volatilidade esperada das ações dos EUA —medida pelo índice Vix— caiu acentuadamente, com a sonda de medo de Wall Street hoje pairando abaixo de sua antiga média de 20. Em pleno turbilhão no mercado causado pelo coronavírus em março, ela chegou a 85.

"Quando a luz verde está piscando clara para investir e chegam más notícias inesperadas, o mercado não suporta", disse Simmon. "O maior risco é que os investidores parecem pensar que a costa está limpa."

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves​

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