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Pandemia desperta país para o conceito de capitalismo das partes interessadas

Stakeholder capitalism levanta questões sobre como a geração de valor de uma empresa vai além do retorno acionário

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São Paulo

O conceito de stakeholder capitalism (capitalismo das partes interessadas, na tradução literal) é antigo, mas só agora tem ganhado espaço nas discussões corporativas e mexido com a cabeça de executivos brasileiros.

O assunto é abrangente e se refere à avaliação de como companhias conseguem impactar e gerar valor não apenas para seus investidores e acionistas mas também para todas as partes que possam sentir o reflexo direto ou indireto de seu sucesso —ou fracasso.

Estão inclusos nessa lista os funcionários, fornecedores, as comunidades locais, o governo, ONGs, os reguladores, os consumidores e os concorrentes, entre outros.

Protesto do movimento Black Lives Matter em Seattle, Washington, nos Estados Unidos
Protesto do movimento Black Lives Matter em Seattle, Washington, nos Estados Unidos - Lindsey Wasson - 27.out.2020/Reuters

De acordo com os conceitos do stakeholder capitalism, é a partir dessa análise que as empresas precisam atuar, promover seus produtos ou até mesmo se posicionar em casos específicos ou de gerenciamento de crise.

Segundo Guilherme Athia, fundador do Stakeholder Relations, só agora o Brasil tem despertado para o assunto —e parte do motivo pode ser a pandemia de coronavírus.

“Se antes do coronavírus vivíamos em uma sociedade conectada, com a doença viramos uma sociedade hiperconectada. As perguntas e as demandas por retorno e geração de valor se ampliaram ainda mais diante desse cenário e, para alguns, isso acabou se tornando um grande impulsionador do stakeholder capitalism”, afirmou.

Um exemplo da magnitude que os temas passaram a tomar é o movimento Black Lives Matter que, em 2020, atingiu proporções mundiais depois da morte de George Floyd —homem negro que foi assassinado por um policial branco nos EUA, que ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem.

O episódio não apenas trouxe uma onda de manifestações e protestos contra o racismo pelo mundo, mas também cobrou —direta ou indiretamente— um posicionamento mais firme das empresas sobre suas políticas de inclusão racial.

Apesar de seguir os mesmos passos iniciais do ESG (ou ASG, melhores práticas ambientais, sociais e de governança) –que já prega que as atitudes e respostas das empresas devem ir além do que gera retorno e valor para os acionistas—, o stakeholder capitalism é mais amplo e ainda incipiente no mercado brasileiro.

O assunto foi um dos temas principais tratados no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no ano passado. Na época, um manifesto foi divulgado tendo, entre os principais pontos, a adoção do stakeholder capitalism como uma nova forma —melhor e mais abrangente— de capitalismo.

“O assunto tem ganhado espaço não apenas pelo advento da tecnologia mas pelas transformações que a sociedade tem enfrentado. Temos visto demandas muito diferentes da sociedade em relação às empresas, e isso gera desafios para as agendas de negócio”, afirmou o coordenador acadêmico da ESPM, Marcelo Zorovich.

Um exemplo importante de transformação da sociedade é o chamado “efeito Greta Thunberg”, uma ativista social adolescente que inspirou milhares de jovens ao redor do mundo a demandarem posicionamentos mais firmes de governos e empresas sobre questões ambientais.

No mundo corporativo também existem casos de referência para o stakeholder capitalism. Um dos mais citados é o episódio da Johnson & Johnson, na década de 1980, de envenenamento do Tylenol, que matou sete pessoas.

Segundo Zorovich, o então presidente da companhia na época, James Burke, teve uma postura voltada para o capitalismo das partes interessadas.

“Primeiro ele precisou olhar para seus funcionários, já que havia uma questão de potencial envenenamento. Ele também envolveu o governo e seus concorrentes em uma coalizão, uma vez que se tratava de um caso de saúde pública e até global. Por fim, dialogou com os seus distribuidores e com a mídia da forma mais transparente possível”, afirmou

“A ideia é olhar e se perguntar quais são as partes afetadas pelo ocorrido e como eu posso conversar com elas para tomar a postura correta em relação à situação e não fazer algo que seja apenas para inglês ver.”

Um caso mais recente é o da Bia, inteligência artificial do Bradesco. O banco privado mostrou, pela primeira vez, uma mudança nas respostas da Bia em seu aplicativo —que passaram a ser mais duras e contundentes para perguntas ou comentários machistas ou de assédio.

“As organizações estão mais eficientes e automatizadas, e as companhias precisam ser mais responsáveis. Esse é um recado importante para passar para o Brasil. As coisas estão mudando rapidamente no mundo e a convergência entre Stakeholders e empresas tem se acelerado”, disse Athia.

Segundo o empresário, a Europa já tem avançado rapidamente em um projeto voltado para o tema, e o assunto também tem se ampliado nos Estados Unidos e na Austrália.

Athia também foi responsável por promover o Fórum Stakeholder, que aconteceu no início desse mês e contou com 15 painéis, mais de 700 pessoas ativas diariamente e 1989 inscritos.

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