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Para cartunistas políticos, a ironia é que o Facebook não reconhece ironia

Quando o Facebook começou a moderar mais ativamente o discurso político, passou a enfrentar problemas para reconhecer sátiras

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Mike Isaac
The New York Times

Desde 2013, Matt Bors ganha a vida como cartunista na internet. Seu site, The Nib, posta cartuns desenhados por ele e outros desenhistas de inclinações esquerdistas, que frequentemente zombam de movimentos políticos direitistas e conservadores, com comentários profundamente irônicos.

Um cartum publicado em dezembro tomava por alvo os Proud Boys, uma organização extremista de direita. Em tom claramente irônico, Bors intitulou o desenho “Boys Will Be Boys” (crianças são sempre crianças, em tradução livre), e mostrava uma cena de recrutamento em que novos integrantes da organização eram treinados para esfaquear pessoas e “gritar ofensas raciais contra adolescentes”, tudo isso em forma de videogame.

Dias mais tarde, o Facebook mandou uma mensagem a Bors dizendo que o cartum tinha sido removido da página dele na rede social por “advogar a violência”, e que ele estava em risco de exclusão caso praticasse novas violações das regras de conteúdo.

Logo do Facebook com letras brancas sobre fundo azul
Para cartunistas políticos, o Facebook não reconhece ironia - Lionel Bonaventure - 23.fev.2021/AFP

Não era a primeira vez que o Facebook o havia repreendido. No ano passado, a companhia removeu temporariamente outro cartum do The Nib –uma crítica irônica à resposta do ex-presidente Donald Trump à pandemia; o significado verdadeiro do desenho envolvia apoiar o uso de máscaras em público – por “espalhar desinformações” sobre o coronavírus. O Instagram, controlado pelo Facebook, removeu um de seus sardônicos cartuns contra a violência, em 2019, segundo o site de fotografia por o desenho promover a violência.

Os problemas que Bors enfrentou resultavam de duas forças opostas no Facebook. Nos últimos anos, a empresa se tornou mais proativa na restrição de certas formas de discurso político, reprimindo mensagens sobre organizações extremistas e radicais e apelos à violência. Em janeiro, o Facebook excluiu Trump do site depois de ele incitar a multidão que veio a invadir a sede do Congresso dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, dizem pesquisadores sobre desinformação, o Facebook encontrou problemas para identificar o conteúdo político mais sutil e ágil: a sátira. Embora sátira e ironia sejam comuns na fala cotidiana, os sistemas de inteligência artificial da empresa – e mesmo seus moderadores humanos – às vezes têm dificuldade para distingui-las. Isso acontece porque essa forma de discurso depende de nuanças, implicações, exageros e paródias, para expor seus argumentos.

Isso significa que o Facebook às vezes compreende incorretamente a intenção dos cartuns políticos, o que resulta em remoção de conteúdo. A empresa admite que alguns dos cartuns que removeu – entre os quis os desenhos de Bors – tinham sido excluídos por engano, e mais tarde autorizou seu retorno.

“Se as companhias de mídia social vão assumir a responsabilidade de enfim regulamentar a incitação, as teorias da conspiração e a retórica hostil, terão de se educar mais sobre a sátira”, disse Bors, 37.

Emerson Brooking, pesquisador residente do Atlantic Council que estuda plataformas digitais, disse que o Facebook “não tem uma boa resposta à sátira porque não existe uma boa resposta”. A sátira expõe os limites de uma política de moderação de conteúdo, e pode significar que uma companhia de mídia social precise se envolver de forma mais direta na identificação desse tipo de conteúdo, ele acrescentou.

Muitos dos cartunistas políticos cujos comentários foram removidos pelo Facebook eram de esquerda, em um sinal de que a rede social também reprime vozes progressistas. Os conservadores costumam acusar o Facebook e outras plataformas de internet de suprimir apenas as opiniões de direita.

Em declaração, o Facebook não mencionou dificuldades para reconhecer conteúdo satírico. Em lugar disso, a companhia afirmou que abria espaço ao conteúdo satírico – mas apenas em certa medida. Mensagens sobre organizações que promovem o ódio e conteúdo extremista, disse o Facebook, só são permitidas se forem neutras ou críticas com relação a esse conteúdo, porque o risco de causar danos reais é considerado grande demais, de outro modo.

As dificuldades que o Facebook enfrenta para moderar conteúdo em sua rede social básica, no Instagram, no Messenger e no WhatsApp, são bem documentadas. Depois que os russos manipularam a plataforma antes da eleição presidencial de 2016, usando-a para difundir conteúdo inflamatório, a companhia recrutou milhares de moderadores terceirizados, a fim de impedir que isso voltasse a acontecer. O grupo também desenvolveu algoritmos sofisticados a fim de esquadrinhar conteúdo.

O Facebook também criou um procedimento que autorizava apenas compradores identificados a adquirir anúncios políticos, e adotou regras contra o discurso hostil a fim de limitar o número de mensagens que contivessem conteúdo antissemita ou de defesa da supremacia branca.

No ano passado, o Facebook anunciou que bloqueou mais de 2,2 milhões de anúncios políticos cujos responsáveis não haviam se identificado e que eram direcionados a usuários dos Estados Unidos. Também adotou medidas repressivas contra o grupo QAnon, que difunde teorias de conspiração, e contra os Proud Boys, removeu desinformação sobre vacinas e anexou alertas a mais de 150 milhões de itens de conteúdo vistos nos Estados Unidos e que haviam sido considerados como factualmente incorretos por moderadores terceirizados.

Mas a sátira continuou a ser um ponto cego. Em 2019 e 2020, o Facebook só lidava com sites de desinformação da extrema direita que classificavam conteúdo como “sátira” a fim de proteger sua presença na plataforma, disse Brooking. Por exemplo, o site The Babylon Bee, de inclinações direitistas, frequentemente difundia desinformação disfarçada em sátira.

“Acho que em determinado momento, o Facebook se cansou dessa dança e adotou uma postura mais agressiva”, disse Brooking.

Os cartuns políticos que aparecem em países de fala não inglesa e contêm humor sociopolítico e ironias específicas quanto a certas regiões também são complicados para o Facebook, disseram pesquisadores que estudam a desinformação.

Isso causou dificuldades para muitos cartunistas políticos. Um deles é Ed Hall, do norte da Flórida, cujo trabalho independente aparece regularmente em jornais da América do Norte e Europa.

Quando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou em 2019 que impediria que duas deputadas federais americanas – críticas do tratamento de Israel aos palestinos – visitassem seu país, Hall desenhou um cartaz afixado a uma cerca de arame farpado no qual se lia, em alemão, “os judeus não são bem vindos”. Ele acrescentou uma linha de texto referente a Netanyahu: “Ei, Bibi, você esqueceu alguma coisa?”

Hall disse que sua intenção era fazer uma analogia entre a Alemanha nazista e a maneira pela qual Netanyahu estava tratando as deputadas americanas. O Facebook removeu o cartum pouco depois de ele ser postado, afirmando que representava uma violação de suas regras sobre retórica hostil.

“Se algoritmos tomem esse tipo de decisão com base apenas nas palavras que apareçam em um feed, isso não será um catalisador para decisões justas ou ponderadas, no que tange à liberdade de expressão”, disse Hall.

Adam Zyglis, cartunista político cujo trabalho para o jornal Buffalo News tem distribuição nacional nos Estados Unidos, também se viu apanhado na mira do Facebook.

Depois da invasão do Congresso em janeiro, Zyglis desenhou um cartum com o rosto de Trump no corpo de uma porca, e diversos “partidários” de Trump em forma de leitõezinhos, com bonés MAGA e carregando bandeiras confederadas. O cartum era uma condenação da retórica violenta e as mensagens de ódio com que Trump havia alimentado seus seguidores, disse Zyglis.

O Facebook removeu o cartum por promover a violência. Zyglis acredita que isso tenha acontecido porque uma das faixas carregadas pelos seguidores, no desenho, incluía o lema “enforque Mike Pence”, que partidários de Trump entoaram com relação ao seu vice-presidente durante o tumulto. Outro dos porquinhos carregava uma corda com laço para enforcamento, mais um adereço usado pelos invasores reais do Congresso.

“Aqueles que dizem a verdade aos poderosos são apanhados na rede criada para impedir que a retórica hostil passe”, disse Zyglis.

Para Bors, que vive em Ontário, no Canadá, a questão com o Facebook é existencial. Embora sua principal fonte de renda sejam assinaturas para o The Nib e vendas de livros em seu site pessoal, a maior parte de seu tráfego e leitores novos vem do Facebook e do Instagram.

As remoções, que resultam em punições cujo acúmulo pode resultar na remoção de sua página no Facebook, têm a capacidade de desordenar tudo isso. Se ele sofrer novas sanções e sua página for removida, Bors estima que pode perder até 60% de seus leitores.

“Remover alguém da mídia social pode encerrar sua carreira, hoje em dia, e por isso é preciso um processo que separe a incitação à violência de uma sátira às organizações responsáveis por essa incitação”, ele disse.

Bors disse que também foi alvo de reação dos Proud Boys. Um grupo deles recentemente se organizou no chat de mensagens Telegram para enviar ao Facebook queixas sobre seus cartuns críticos, por violação das normas comunitárias da rede social, ele disse.

“Você acorda e descobre que seu site pode ser fechado porque nacionalistas brancos se irritaram com seus quadrinhos”, ele disse.

O Facebook às vezes reconhece seus erros e os corrige, depois que Bors reclama. Mas esse atrito constante, e o risco de expulsão do site, são frustrantes e o fazem questionar seu trabalho, ele diz.

“Às vezes me apanho questionando se uma determinada ideia vale a pena ou se ela pode resultar na nossa exclusão”, ele disse. ‘O problema com isso é que se torna difícil encontrar os limites, quando você começa a pensar desse jeito. Isso pode afetar meu trabalho em longo prazo”.

Tradução de Paulo Migliacci

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