Pioneira Sicredi levou recursos ao Brasil profundo

Cooperativa criada em 1902 foi a primeira a chegar aos lugares ainda desprovidos de instituições financeiras

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Bruno Blecher
São Paulo

Em 1902, quando foi inaugurada em Nova Petrópolis (RS) a primeira cooperativa de crédito da América Latina, o Brasil enfrentava pandemias nas grandes cidades e uma grave crise econômica provocada pela queda dos preços internacionais do café.

A febre amarela avançava pelo interior do Estado de São Paulo enquanto a peste bubônica se espalhava pelo litoral e a capital. Para controlar os surtos, o Instituto Serumtherapico (atual Butantan) foi criado em 1901 e iniciou a produção do soro necessário.

É neste cenário que o fazendeiro Rodrigues Alves, paulista de Guaratinguetá, toma posse em 15 de novembro como o quinto presidente da República do Brasil, com uma agenda repleta de desafios.

Na pacata Nova Petrópolis, centenas de “alemães” vindos de várias partes da Europa (pomeranos, saxões, boêmios, franco-germânicos, holandeses e até americanos fugidos da Guerra de Secessão) buscam começar no campo uma nova vida.

Entre eles está o padre suíço Theodor Amstad, que trouxe os valores do cooperativismo dos jesuítas ingleses: a solidariedade e a responsabilidade que cada indivíduo deve ter com a comunidade.

Amstad, que chegou ao Brasil em 1855, percebeu que na sua região, além da falta de acesso à educação e saúde, os colonos enfrentavam a exclusão financeira. Para ir ao banco, os moradores precisavam viajar cerca de 90 quilômetros em estrada de chão e nem sempre eram aceitos.

Para atender às necessidades financeiras das famílias de Nova Petrópolis, o padre criou em 28 de dezembro de 1902 uma cooperativa de crédito, a primeira do país, que logo se tornou uma referência na região financiando a construção de casas e a compra de terras para os cooperados.

Passados 118 anos, o Sicredi (Sistema de Crédito Cooperativo) tem mais de 5 milhões de associados e está presente em 24 estados com mais de 2.000 agências. “Somos cooperativas de crédito e temos um banco”, diz Manfred Dasenbrock, presidente do Sicredi-PAR.

“Quando me perguntam qual é o segredo do Sicredi ter se transformado em uma das poucas empresas centenárias do Brasil, faço uma analogia com o futebol. Dificilmente, você vê um time ser extinto, falir. Podem passar por crises, cair para a segunda divisão, ficar mal das pernas, mas sobrevivem”, diz Manfred.

“Uma organização como a nossa é movida pela paixão desde 1902. Passamos por crises, Guerra Mundial, ditaduras, mas sobrevivemos. Por quê? Porque a cooperativa traz sentido às pessoas.”

O cooperativismo de crédito surgiu no país para ajudar agricultores imigrantes que não tinham acesso a bancos e condições de financiar sua produção. O padre Amstad aplicou o que aprendeu na Europa. Ele percorreu a região Sul reunindo pessoas de diversos perfis e localidades.

Segundo dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro de 2020, há 5.314 cooperativas no país —das quais 827 são de crédito, com 10,7 milhões de associados e 71.740 empregados. O volume financeiro, de acordo com o Banco Central, corresponde a R$ 90,9 bilhões em saldo de depósitos. Elas representam 3,6% do Sistema Financeiro Nacional.

O Sicredi reúne hoje 116 cooperativas de crédito em 1.187 municípios, sendo que em 204 deles é a única instituição financeira atuante.

As cooperativas, seja qual for a área de atuação, trazem um círculo virtuoso: o dinheiro captado numa região é reinvestido localmente, o que promove o desenvolvimento.

Pesquisa realizada pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) aponta que a atividade de uma cooperativa de crédito incrementa o PIB (Produto Interno Bruto) per capita dos municípios em 5,6%, cria 6,2% mais vagas de trabalho formal e aumenta o número de estabelecimentos comerciais em 15,7%, favorecendo o empreendedorismo.

Outra marca do cooperativismo de crédito, segundo Manfred, é o relacionamento. Não há clientes, mas associados que participam da gestão, com direito a voto e inclusive às sobras, com participação nos resultados.

“A colaboração sempre foi a principal moeda do cooperativismo. Somado a isso, o modelo de negócio disruptivo das cooperativas, que são formadas por sociedades de pessoas, e não de capital”, diz o presidente do Sicredi.

Manfred, 64, natural de Rolante (RS), é filho de imigrantes europeus e trabalhou com os pais na agricultura em Medianeira (PR), onde a família se instalou em 1964.

Seu pai foi soldado alemão e, ao final da guerra, prisioneiro das tropas aliadas. Sua mãe é ucraniana. Os dois chegaram ao Brasil na década de 50 do século passado para trabalhar na agricultura.

Em 1978, Manfred se formou técnico agrícola e depois em administração de empresas, associando-se nos anos 1980 a uma cooperativa de crédito.

Em 1995, o executivo foi eleito vice-presidente da Cooperativa Singular e, em 2006, da central que congregava as cooperativas do Paraná.

Em 2008, assumiu a presidência da holding Sicredi.

O cooperativismo de crédito sempre enfrentou uma certa má vontade dos órgãos econômicos do governo e do Banco Central. Tanto que só em 1998, o Sicredi começou a ter o seu próprio talão de cheque, que antes era do Banco do Brasil.

“Esse talão de cheque criou uma identidade para nós”, diz Manfred. “O governo não conhecia a causa. Na época tinha muitos ‘não pode isso’, ‘não pode aquilo’. Agora tudo pode, dentro das regras do Banco Central, claro”, diz.

Manfred cita um dado que mostra a capacidade de as cooperativas de crédito prover serviços financeiros em regiões mais isoladas e rurais. “Isto é muito importante neste momento em que os bancos tradicionais, inclusive o Banco do Brasil, fecham agências no interior do país.

“Enquanto os bancos têm, em média, um limite mínimo de 8 mil habitantes para viabilizar a chegada de uma agência a determinado município, uma cooperativa como as do Sicredi consegue operar em cidades a partir de 2,3 mil habitantes”, diz o presidente do Sicredi.

Mas quais são as diferenças entre o Sicredi e um banco convencional?

“Primeiro, no Sicredi, além de todos os serviços de um banco convencional, você conhece o presidente da cooperativa, tem o número do WhatsApp dele e ele te presta contas”, diz Manfred.

“A cooperativa de Ponta Grossa, que atua na região de Curitiba, uma vez por ano chama os associados para jantar no Madalosso, restaurante tradicional da cidade, para prestar as contas do ano e muitas vezes anuncia que você tem um crédito a receber”, explica o executivo.

Um exemplo disso é o agricultor gaúcho Everton Dallegrave, 28, que está ligado ao Sicredi desde bebê.

“Quando nasci, meu pai se associou à uma cooperativa de crédito em Caxias do Sul”, conta. Produtor de pêssego e bergamota, como os gaúchos chamam a mexerica, abriu sua primeira conta aos 15 anos.

“Nunca fui correntista de um banco. Recebo no Sicredi um atendimento completo. O gerente vem visitar a nossa propriedade”, diz.

Everton conta com Pronaf (crédito rural), seguro, cartão de crédito e paga todas as suas contas via Pix. Ele diz que tem contato direto com o presidente e está financiando também a construção de um novo galpão para processamento. “O Sicredi é parceiro dos meus negócios”, diz.

Raio-x

Atual líder da empresa 
Natural de Rolante (RS), o administrador Manfred Dasenbrock é presidente do Sicredi-PAR desde 2008

Contexto histórico
O Brasil enfrentava pandemias nas grandes cidades e uma grave crise econômica provocada pela queda dos preços internacionais do café no início do século 20. Colonos tinham dificuldade de obter crédito

Visão de negócio
Ser parceiro de iniciativas e promover serviços financeiros mesmo em regiões mais isoladas

Receita de longevidade
A proximidade e a transparência no relacionamento com os associados. “Além de todos os serviços de um banco, você conhece o presidente da cooperativa, tem o número do WhatsApp dele”, diz Manfred Dasenbrock, presidente do Sicredi-PAR


Um dos pilares da longevidade de um negócio é a qualidade de suas esquipes, que vão passando o bastão geração após geração; as reportagens deste caderno são de autoria de jornalistas que simbolizam esse tipo de legado.

Bruno Blecher

É jornalista especializado em agronegócio e meio ambiente. Foi repórter do jornal O Estado de S. Paulo, editor do caderno Agrofolha, da Folha, coordenador de jornalismo do Canal Rural, comentarista de agronegócio da rádio CBN e diretor de redação da Globo Rural. Atualmente é sócio-proprietário da agência Fato Relevante

Erramos: o texto foi alterado

O nome do quinto presidente brasileiro é Rodrigues Alves, e não Rodrigo Alves. O texto foi corrigido.
 

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