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Por que trabalhadores da Amazon se aliaram à companhia contra o sindicato?

Benefícios e agressiva campanha antissindical da empresa ajudaram a gerar votos no Alabama

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Karen Weise Noam Scheiber
Seattle e Chicago | The New York Times

Quando Graham Brooks recebeu sua cédula de votação no início de fevereiro perguntando se queria formar um sindicato no armazém da Amazon onde ele trabalha, no Alabama, não hesitou. Marcou o quadrado NÃO e enviou o voto.

Após quase seis anos de trabalho em jornais próximos, Brooks, 29, ganha cerca de US$ 1,55 a mais por hora na Amazon e está otimista de que conseguirá melhorar.

"Eu pessoalmente não via necessidade de um sindicato", disse ele. "Se estivesse sendo tratado de modo diferente, poderia ter votado de outro modo."

Brooks é um dos quase 1.800 empregados que deram à Amazon uma vitória arrasadora na batalha mais dura que a empresa já teve para manter os sindicatos fora de seus depósitos. O resultado —anunciado na semana passada, com 738 trabalhadores votando pela formação do sindicato— aplicou um golpe esmagador nos trabalhistas e democratas, quando parecia haver condições para que fizessem avanços.

Carro em uma estrada em primeiro plano e fábrica da Amazon ao fundo
Depósito da Amazon em Bessemer, no estado do Alabama (EUA) ORG XMIT: XNYT50 - Lynsey Weatherspoon - 16.abr.21/The New York Times

Para alguns funcionários do armazém, como Brooks, o salário mínimo de US$ 15 por hora é mais do que eles ganhavam em empregos anteriores e fornece um incentivo poderoso para se aliarem à companhia. O seguro-saúde da Amazon, que vale a partir do primeiro dia de emprego, também incentiva a lealdade, segundo os trabalhadores.

Carla Johnson, 44, disse que soube que tinha câncer no cérebro poucos meses antes de começar a trabalhar no ano passado no armazém, que fica em Bessemer, no Alabama. O seguro-saúde da Amazon cobriu seu tratamento.

"Eu pude gozar dos benefícios no primeiro dia, e isso pode ter feito a diferença entre vida e morte", disse Johnson em um evento para a imprensa que a Amazon organizou depois da votação.

Patricia Rivera, que trabalhou no armazém de Bessemer de setembro até janeiro, disse que muitos de seus colegas na faixa dos 20 anos ou menos foram contra o sindicato porque se sentiram pressionados pela campanha da firma e achavam que os salários e benefícios eram sólidos.

"Para alguém mais jovem, é o máximo de dinheiro que já ganhou", disse Rivera, que teria votado a favor do sindicato se tivesse ficado. "Eu dou crédito a eles. Eles o inscrevem e você tem seguro de imediato."

Rivera saiu da Amazon porque achou que não foi remunerada adequadamente pelo tempo que teve de ficar afastada em quarentena, depois de ser exposta à Covid-19 no trabalho, disse ela.

Em um comunicado depois da votação, a Amazon disse: "Não somos perfeitos, mas nos orgulhamos de nosso time e do que oferecemos, e continuaremos trabalhando para melhorar a cada dia".

Outros funcionários disseram em entrevistas que eles ou seus colegas não confiavam nos sindicatos nem na mensagem antissindical da Amazon de que os trabalhadores podiam mudar a empresa por dentro.

Muitas vezes, ao explicar sua posição, eles repetiram os argumentos que a Amazon expôs em reuniões obrigatórias, nas quais ressaltou o salário, levantou dúvidas sobre o que um sindicato podia garantir e disse que os benefícios poderiam ser reduzidos se os trabalhadores se sindicalizassem.

Quando um representante do sindicato lhe telefonou para falar da votação, disse Johnson, ele não conseguiu responder a uma pergunta sobre o que o sindicato prometia entregar.

"Ele desligou", disse ela. "Se você tenta me vender alguma coisa, deve ser capaz de vender aquele produto."

Danny Eafford, 59, disse que aproveitou todas as oportunidades para dizer a seus colegas de trabalho no armazém que era totalmente contra o sindicato, afirmando que não iria melhorar a situação deles. Ele disse que havia falado a colegas sobre como um sindicato o abandonou quando ele perdeu o emprego nos correios, anos atrás.

Seu emprego, que envolve encomendar papelão, fita adesiva e outros suprimentos, não o tornava elegível para votar. Mas quando a companhia ofereceu broches "Vote não", ele alegremente colocou um em seu colete de segurança.

"O trabalho do sindicato não é cuidar de você; é cuidar de todos", ele contou que havia dito aos colegas. "Se você está procurando ajuda individual, não será lá."

J.C. Thompson, 43, disse acreditar no compromisso da direção de melhorar o local de trabalho nos próximos cem dias, promessa feita durante a campanha da empresa. Ele havia aderido a outros trabalhadores contra o sindicato, pressionando a Amazon a treinar melhor os empregados e educar os gerentes em técnicas antipreconceito.

"Vamos fazer tudo o que for possível para tratar desses problemas", disse Thompson. Ele apareceu com Johnson no evento da Amazon.

O pastor George Matthews, dos Ministérios Interfé Nova Vida, disse que vários membros de sua congregação trabalham no armazém, a poucos quilômetros de distância, e manifestaram gratidão pelo emprego. Mas ele ainda ficou surpreso e decepcionado porque um número maior não votou a favor do sindicato, mesmo no sul tradicionalmente antissindical, já que descreviam como o trabalho era duro.

Falando com os congregados, Matthews disse que passou a acreditar que os trabalhadores estavam assustados demais para pressionar por mais e arriscar o que tinham conquistado.

Com as reuniões obrigatórias e mensagens constantes, a Amazon usou suas vantagens para fazer uma campanha mais bem sucedida que a do sindicato, disse Alex Colvin, reitor da Escola de Relações do Trabalho e Industriais da Universidade Cornell.

"Sabemos que campanhas modificam posições", disse ele.

Stuart Appelbaum, presidente do sindicato dos trabalhadores no varejo que liderou a iniciativa sindical, citou vários fatores para explicar a derrota além dos esforços da Amazon.

Ele apontou o alto índice de rotatividade entre os empregados, estimando que até 25% dos trabalhadores da Amazon que seriam elegíveis a votar no início de janeiro tinham saído no fim da votação no final de março —potencialmente mais que toda a margem de vitória da companhia.

Appelbaum supôs que as pessoas que tinham saído seriam mais inclinadas a apoiar o sindicato porque geralmente estavam menos satisfeitas com o emprego.

Brooks disse que na sexta-feira anterior viu oito ou dez rostos novos na área onde ele trabalha. Muitos dos trabalhadores no depósito têm queixas da Amazon, querendo menos horas de trabalho ou um monitoramento menos rígido de sua produção.

Brooks e outros disseram que queriam que seu turno de dez horas tivesse uma pausa maior que 30 minutos, porque no enorme depósito eles passam quase a metade do intervalo caminhando para o refeitório e de volta.

O comparecimento na votação foi baixo, cerca da metade dos trabalhadores aptos a votar, sugerindo que nem a Amazon nem o sindicato tinham apoio avassalador.

Jeff Bezos, executivo-chefe da Amazon, disse na quinta-feira em sua carta anual aos investidores que o resultado em Bessemer não lhe trouxe "satisfação".

"Para mim está claro que precisamos de uma visão melhor de como gerar valor para os empregados —uma visão para o sucesso deles", escreveu Bezos.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

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