Reabertura de bares e restaurantes tem equipe reduzida e estoque contido

Empresários contam com ajuda de amigos e refinanciam imóvel para manter estabelecimento aberto

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São Paulo

​O céu azul e sem nuvens aliado a uma temperatura agradável marcaram o primeiro dia de reabertura de bares e restaurantes em São Paulo neste sábado (24).

Nas ruas de maior movimento em diferentes bairros da região central da capital paulista, o cenário era parecido: música alta e um público animado preenchiam os espaços disponibilizados pelas casas –que, pela regra estadual, estão limitadas a 25% da ocupação e só podem abrir das 11h às 19h.

Além disso, para abrir, bares precisam servir comida, ou seja, funcionar como restaurante.

Embora gerentes, garçons e atendentes trabalhassem a todo vapor para atender com o máximo permitido de capacidade, no backstage a preocupação sobre os próximos dias ainda pairava no ar.

Paulistanos aproveitam reabertura de bares e restaurantes em São Paulo; movimento nos bares de esquina das ruas Fidalga e Aspicuelta, na Vila Madalena, zona oeste da capital
Paulistanos aproveitam reabertura de bares e restaurantes em São Paulo; movimento nos bares de esquina das ruas Fidalga e Aspicuelta, na Vila Madalena, zona oeste da capital - Eduardo Anizelli/Folhapress

“Com 25% da ocupação é praticamente impossível dizer que foi um dia bom. Diminuí a equipe em 50% para o trabalho de hoje [sabado], e eu diria que conseguimos 20% ou menos do faturamento que tínhamos no [período] pré-pandemia. Vamos ver como será daqui para frente”, afirmou Alex Oliveira, 39, gerente do Quitandinha, bar localizado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.

Para alguns, essa nova fase do plano de combate à Covid-19 do estado de São Paulo é derradeira. Sem mais nenhum funcionário fixo da antiga equipe e diante do receio de um novo fechamento, Raphael Capeleto, 32, sócio-proprietário do bar Nossa Praia, também na Vila Madalena, chamou amigos e familiares para ajudar no atendimento.

“Além de mim, do meu irmão e da minha namorada, chamei dois amigos que estão sem trabalho para virem como freelancers por enquanto. Não tenho como contratar alguém sem saber se eu vou fechar de novo daqui uma semana. Já estou endividado demais”, afirmou.

Capeleto, que já fechou as portas de outro bar na mesma rua por causa da pandemia, disse que está há seis meses com o aluguel atrasado e tenta equilibrar contas como de água e luz e os impostos.

“O dinheiro que eu peguei ontem [sexta, 23] para comprar o mínimo que eu precisava para trabalhar veio emprestado de amigos e da minha namorada. E entre pagar o funcionário pelo dia de hoje e comprar, outra vez, o mínimo para trabalhar amanhã [domingo, 25], eu já não tenho dinheiro para mais nada”, completou, afirmando que abrirá as portas apenas aos sábados e domingos para poupar gastos em dias da semana, de baixo movimento.

A dificuldade do segmento de bares e restaurantes vem desde o ano passado: entre estoques perecíveis perdidos, funcionários demitidos e tombos significativos no faturamento –mesmo com o delivery–, mais de 30% dos estabelecimentos do setor já fecharam as portas permanentemente.

Além disso, segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), apesar de a abertura gradual ter sido bem recepcionada pelos empresários, a previsão para este primeiro final de semana é de faturamento inferior ao registrado pelo delivery e não deve ultrapassar 25% da receita observada em períodos pré-pandêmicos.

A associação também estima que pelo menos 20% dos bares e restaurantes da capital vão preferir não funcionar nesta fase, dado o limite de ocupação de 25%.

“Manter a casa viva, mesmo que fechada, é muito caro”, afirmou Humberto Munhoz, 39, dono do bar O Pasquim, também localizado na Vila Madalena.

“Tudo o que você puder imaginar a gente fez: pegamos vários créditos de banco, refinanciamos o apartamento, vendemos o carro, negociamos o aluguel mês a mês. Qualquer dono de bar ou restaurante que não faliu é porque está alavancado”, disse.

Mesmo na Vila Madalena, referência de boêmia e entretenimento, espaços escuros espalhados pela rua indicam uma quantidade significativa de locais fechados —por opção ou necessidade. Placas de aluguel ou venda também preenchem o cenário.

Bares tradicionais da famosa esquina entre a rua Fidalga e a rua Aspicuelta, como Filial e Genésio, já frequentados por nomes como Milton Nascimento, Paulinho da Viola e João Bosco, não existem mais. Também fechou as portas o bar do Betinho, deixando órfãos da sua feijoada. A Mercearia São Pedro, ou "Merça" para os mais chegados, e o Empanadas Bar estão apenas no delivery.

Entre os funcionários, a preocupação não era diferente. Segundo a recepcionista de um bar na região dos Jardins (zona oeste), que preferiu não se identificar, o movimento do primeiro dia de reabertura foi aquém do esperado pela equipe, que ansiava por casa cheia e filas de espera.

O gerente de outro bar, perto do Masp (Museu de Arte de São Paulo), que também preferiu não se identificar, afirmou que sequer houve um grande preparo para a reabertura e que, calejados pelos diversos avanços e retrocessos do plano paulista, as esperanças eram baixas para o movimento do dia.

Parte da frustração era pelas poucas horas de trabalho. Outro gerente de um bar da Vila Madalena que preferiu não se identificar afirmou que apesar de o estabelecimento ter alcançado os 25% de capacidade máxima, o maior movimento da região começa tarde e o faturamento só chega nas duas ou três horas finais.

Segundo Capeleto, os consumidores só começaram a aparecer no Nossa Praia a partir das 16h. “A maioria veio depois do almoço e, por ser o primeiro dia, vieram de uma só vez. É preciso que haja um período maior de flexibilização [de horário] para termos um giro de pessoas e evitarmos qualquer tipo de aglomeração”, afirmou.

Às 18h30 do primeiro dia de reabertura, meia hora antes do limite para o encerramento das atividades, a maioria dos bares da Vila Madalena já havia fechado o caixa, à espera de que os últimos clientes terminassem suas refeições e pagassem a conta.

Vários fiscais da prefeitura, caracterizados pelo colete laranja, também já se posicionavam nas esquinas movimentadas, esperando pelas 19h.

“É complexo. Eu tenho que fechar às 19h porque se às 19h01 tiver alguém consumindo dentro do estabelecimento, o fiscal me multa. Então, o que eu faço? Começo a colocar o pessoal para fora. Só que quem sai está entre amigos, conversando, e muitos param na calçada e aglomeram. E eu não tenho como expulsar o cara da calçada, que é pública”, disse Munhoz.

Segundo o empresário, é preciso maior consciência por parte do governo em relação à flexibilização de horário. “O vírus não tem horário e esse limite atrapalha muito o movimento que faz eu pagar o aluguel e o salário das pessoas”, disse.

“Além disso, é preciso entender que o entretenimento é inevitável, vide as inúmeras festas clandestinas que vimos acontecer no último ano. E já que vai acontecer de qualquer jeito, que aconteça em um bar ou restaurante que segue os protocolos sanitários e de segurança que, aliás, é a maioria. Somos parte da solução”, defendeu o dono do bar O Pasquim.

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