Vendas do comércio sobem 0,6% com volta às aulas em fevereiro, diz IBGE

Resultado não reverte dois meses anteriores de queda e setor já vê impactos de maior isolamento

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Rio de Janeiro

Após dois meses consecutivos de queda, as vendas do comércio varejista brasileiro voltaram a crescer em fevereiro. A alta, de 0,6%, porém, não é suficiente para compensar o recuo acumulado de 6,3% na virada do ano como reflexo do fim do auxílio emergencial.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o desempenho em fevereiro foi ajudado pela volta às aulas, que levaram o segmento de livros, jornais, revistas e papelaria a um avanço de 15,4%, o maior crescimento entre as atividades pesquisadas pelo instituto.

O gerente da pesquisa do IBGE, Cristiano Santos, avalia, porém, que o resultado do mês não sinaliza recuperação do setor, mas um ajuste em relação ao mau desempenho dos dois meses anteriores. "Taxa de 0,6% é muito próximo do que chamamos de estabilidade", disse.

Na comparação com fevereiro de 2020, último mês antes do início da pandemia do novo coronavírus, as vendas do varejo brasileiro caíram 3,8%. No acumulado do primeiro bimestre, as vendas do comércio apresentam queda de 2,1%.

"Em fevereiro, temos a volta do orçamento mensal das famílias a uma maior normalidade [após os gastos com pagamentos de impostos como IPVA e IPTU em janeiro] e o retorno dos alunos às escolas, aquecendo as compras de material escolar", explicou Santos.

"Assim, mesmo com o cancelamento do carnaval, que impacta, por exemplo, em menores vendas de bebidas alcoólicas nos supermercados, tivemos uma variação positiva esse mês”, completou.

Quatro das oito atividades pesquisadas pelo IBGE tiveram alta em fevereiro, na comparação com o mês anterior. As vendas de móveis e eletrodomésticos subiram 9,3%; de tecidos, vestuário e calçados avançaram 7,8%; e de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, 0,8%.

Dezenove das 27 unidades da federação tiveram taxas positivas frente a janeiro, com destaque para Amazonas (14,2%), Rondônia (11,5%) e Piauí (8,3%). Por outro lado, Acre (-12,9%), Tocantins (-4,4%) e Distrito Federal (-2,1%) tiveram as maiores quedas.

O comércio varejista ampliado, que inclui as atividades de veículos, motos, partes e peças e de material de construção, teve crescimento de 4,1%, também depois de dois meses de queda.

“Material de construção é uma atividade que tem crescido muito, tanto porque as pessoas, estando mais tempo dentro de casa, acabam vendo necessidade de fazer melhorias em suas residências, quanto pelo fato de que grandes obras também vêm sendo retomadas pelas construtoras”, disse o gerente do IBGE.

Impulsionado pelas vendas em supermercados e pelo auxílio emergencial, o comércio teve rápida recuperação após os primeiros meses da pandemia. Em setembro, o setor já havia recuperado todas as perdas de março e abril e em outubro, as vendas atingiram o maior patamar da série histórica.

Com a redução do auxílio no fim do ano e, depois, sua extinção no início de 2021, o cenário foi revertido. Em dezembro, o varejo brasileiro teve o pior desempenho da série histórica da pesquisa, com queda de 6,1% nas vendas.

"A recuperação se deu muito por conta do auxílio emergencial e também pela substituição da renda das famílias, que estava indo para serviços e passou a ir para o comércio", comentou Santos. "Por exemplo, ao invés de consumir num restaurante, passamos a comprar alimento para consumir em casa."

Os dados divulgados nesta terça (13) reforçam que setores essenciais e aqueles mais beneficiados pela mudança na cesta de consumo do brasileiro durante a pandemia foram menos impactados pelo fechamento de lojas e pela perda do poder aquisitivo da população.

Na comparação com fevereiro de 2020, cinco atividades registram alta: produtos farmacêuticos e de perfumaria, outros artigos de higiene e de uso pessoal, supermercados, materiais de construção e móveis e eletrodomésticos,

Os três primeiros são essenciais e os dois últimos tiveram aumento da demanda com reformas e renovação de equipamentos provocadas pela adoção de home office e do ensino à distância.

Já atividades que têm maior dependência da circulação de pessoas nas ruas, como o varejo de vestuário, de automóveis, combustíveis ou materiais de escritório, ainda não conseguiram recuperar as perdas do momento inicial da pandemia.

Segundo o IBGE, o setor já vem sentindo efeitos da piora da crise sanitária em suas vendas. Em fevereiro, 13,8% das empresas pesquisadas relataram impacto do isolamento social no faturamento, alta de 4,7 pontos percentuais em relação ao mês anterior e maior percentual desde setembro.

É o segundo aumento nesse indicador após sete meses consecutivos de queda, segundo o IBGE. "A partir de janeiro, a gente começa a ter medidas restritivas, como em Manaus. E no início de fevereiro houve também em São Paulo", diz Santos.

Os efeitos da pandemia devem se agravar em março, após o aumento das medidas restritivas para enfrentar a explosão de casos de Covid-19 pelo país. Dados preliminares, com índices de vendas de empresas de pagamentos, já mostram essa tendência.

O índice da Getnet, por exemplo, registra queda de 5,6% na comparação mensal e de 17,8% em relação o mesmo período de 2020, no maior recuo anual desde os 22,5% registrados em abril do ano passado.

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