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Banco Central prepara relatório prevendo moeda digital até 2022

Diretoria colegiada da instituição, porém, quer entender detalhes da implantação antes de decidir levar ou não adiante o projeto

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Brasília

Investir em criptoativos, como são chamados os bitcoins e outras criptomoedas, pode parecer abstrato para quem não tem familiaridade com tecnologia. A expectativa é que o lançamento de uma moeda digital oficial, emitida pelo Banco Central, dê credibilidade a essas modalidades, segundo especialistas.

O argumento é que o contato com o dinheiro virtual pode levar a um maior interesse de investidores comuns e deve impulsionar aplicações em ativos digitais.

A autoridade monetária vem desenhando um projeto de moeda digital desde agosto do ano passado. Recentemente, o presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, afirmou que os estudos na área avançaram bastante.

Presidente Jair Bolsonaro e presidente do BC, Roberto Campos Neto, que pretende lançar uma moeda digital no Brasil em breve
Presidente Jair Bolsonaro e presidente do BC, Roberto Campos Neto, que pretende lançar uma moeda digital no Brasil em breve - Raul Spinassé - 24.fev.21/Folhapress

O BC trabalha na produção de um relatório detalhado, já com alternativas para a implementação do dinheiro virtual até 2022.

No ano passado, a ideia era que o documento com impactos, benefícios e custos do novo modelo monetário fosse produzido em seis meses, mas, de acordo com o BC, ainda não ficou pronto.

Com o relatório em mãos, a diretoria colegiada do BC tomará a decisão de levar ou não adiante o projeto.

O dinheiro virtual do governo seria apenas uma nova forma de representação da moeda já emitida pela autoridade monetária, ou seja, faria parte da base monetária do país.

Embora tenham em comum a inovação, as criptomoedas que existem hoje no mercado (como bitcoins) e as moedas digitais emitidas pelo governo de um país têm propostas distintas.

A principal diferença é que a emitida pelo BC seria semelhante ao papel-moeda, assegurada e gerida pelo Estado, enquanto as outras não têm garantias reais. Além disso, o dinheiro digital também não teria efeito especulativo.

Para Tasso Lago, especialista em criptomoedas e fundador da consultoria Financial Move, a moeda digital emitida pela autoridade monetária deve acelerar a familiarização do investidor a esse tipo de aplicação, mas, segundo ele, é um movimento que já está em curso.

"Estamos vendo o mercado se abrindo para criptoativos. Antes, as pessoas tinham medo, o que é normal, era desconhecido. Agora não dá mais para ignorar esse mercado, tem muita gente investindo e grandes instituições à frente. Os investidores já se questionam: se é golpe, como está na Bolsa?"

De acordo com Lago, o dinheiro virtual oficial dará uma espécie de chancela aos criptoativos, que ganharão cada vez mais credibilidade.

"Se o BC cria a própria moeda digital, é uma chancela de que aquilo é bom e seguro. Uma das vantagens é ser rastreável. Com isso, podemos ter maior controle do dinheiro. Com a tecnologia empregada hoje, uma transação pode ser mapeada anos depois de ocorrida", afirma.

"Outro fator [que dá credibilidade] é que o mercado se profissionalizou e os agentes questionáveis estão sendo expulsos. A própria CVM [Comissão de Valores Mobiliários] olha para esses ativos com mais critério", diz Lago.

O professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas) e pesquisador do tema Alan De Genaro diz que uma das vantagens do dinheiro virtual é colocar o consumidor no centro das decisões.

"Isso é bom para as criptomoedas porque o consumidor pode usar a experiência com wallets [carteiras] digitais para aumentar seus investimentos, pois já sabe como funciona e como usar. O cliente vira o centro das decisões. Vejo também como um grande potencial de inclusão financeira", diz.

Inicialmente, como mostrou a Folha, o BC planeja distribuir a moeda digital por meio do sistema financeiro, mas ainda não divulgou detalhes de como seria a logística.

O procedimento, segundo informado no ano passado, seria semelhante ao que é feito hoje com o papel-moeda, só que por meio virtual.

Na prática, parte do dinheiro que já seria emitido pela autoridade monetária de forma física seria substituída pelo exemplar virtual. Dessa forma, a pessoa teria de ser bancarizada para ter acesso à moeda digital.

Para Genaro, no entanto, o modelo pode evoluir para que no futuro os consumidores tenham esse tipo de recurso fora das instituições financeiras.

"Muitas pessoas ainda não têm acesso a conta em banco, mas têm um smartphone. Logo, com a existência de uma moeda digital, essas pessoas poderiam tê-la em suas wallets e pagariam suas contas sem precisar de uma instituição financeira", diz.

Nenhum país do mundo tem dinheiro virtual oficial. A emissão de moeda digital pelo governo, chamada de CBDC (Central Bank Digital Currency), está em fase final de implementação na China.

No início deste ano, Pequim distribuiu para a população recursos virtuais, baixados pelo celular, para que as pessoas testem o novo recurso.

Caso o Brasil avance rapidamente no projeto, pode ser um dos pioneiros. A CBDC funcionaria como um complemento ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos brasileiro.

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