Descrição de chapéu Financial Times Ásia

Com tensões geopolíticas, subsídios voltam a estar na moda de Washington a Nova Déli

Covid-19 reforçou a moda da política industrial, e produção nacional de vacinas é vista, cada vez mais, como um interesse vital de cada país

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Gideon Rachman
Financial Times

Ideias velhas são como roupas velhas —basta esperar o bastante que elas voltam a estar em moda. Trinta anos atrás, “política industrial” era uma ideia que estava tão em moda quanto o chapéu-coco. Mas agora governos de todo o mundo, de Washington a Pequim, Nova Déli e Londres, estão redescobrindo as alegrias dos subsídios e tecendo elogios à autossuficiência econômica e ao investimento “estratégico”.

A importância desse desdobramento vai bem além da economia. A adoção internacional do livre mercado e da globalização, na década de 1990, surgiu de mãos dadas com o relaxamento das tensões geopolíticas. A guerra fria tinha acabado, e governos competiam para atrair investimentos, e não para dominar territórios.

Agora, o ressurgimento da rivalidade geopolítica colocou a intervenção estatal na economia de novo na moda. Com o declínio da confiança entre os Estados Unidos e a China, os dois países passaram a ver qualquer dependência do outro quanto a commodities vitais —sejam semicondutores, sejam minerais de terras raras— como uma perigosa vulnerabilidade. Produção nacional e garantia dos suprimentos passaram a ser as novas palavras de ordem.

Biden comenta a economia dos EUA em coletiva na Casa Branca, em Washington - Kevin Lamarque - 10.mai.2021/Reuters

Com a intensificação da disputa econômica e industrial, os Estados Unidos proibiram a exportação de tecnologias cruciais para a China, e estão pressionando para repatriar cadeias de suprimento. De sua parte, a China adotou uma política econômica de “circulação dupla” que enfatiza a demanda interna e a obtenção de “grandes avanços em tecnologias chave”. O governo de Xi Jinping também está apertando o controle do Estado sobre o setor de tecnologia.

A lógica de uma corrida armamentista está se estabelecendo, e cada lado justifica seus avanços rumo ao protecionismo como resposta às ações do outro lado. Em Washington, a Lei de Competição Estratégica EUA-China, que está tramitando no Congresso, acusa a China de seguir “políticas econômicas mercantilistas ditadas pelo Estado” e de conduzir espionagem industrial. O anúncio em 2015, por Pequim, da estratégia industrial “Made in China 2025” é muitas vezes mencionado como o ponto de inflexão. Já em Pequim o argumento é o de que os Estados Unidos, em declínio, se voltaram contra a globalização em um esforço para bloquear a ascensão da China. O presidente Xi declarou que a reação contra a globalização, no Ocidente, significa que a China precisa se tornar mais autossuficiente.

A nova ênfase em estratégia industrial não fica confinada aos Estados Unidos e China. Na Índia, o governo de Narendra Modi está promovendo uma política chamada “Atmanirbhar Bharat” (Índia autossuficiente), que encoraja a produção nacional de commodities essenciais. A União Europeia publicou um estudo oficial sobre estratégia industrial, no ano passado, no qual ela era vista como parte de um avanço rumo à autonomia estratégica e a uma dependência menor com relação a outros países. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, apelou que a Europa detenha “maestria e propriedade das tecnologias chave”.

E mesmo o governo conservador do Reino Unido está abandonando a economia laissez-faire defendida por Margaret Thatcher quando foi primeira-ministra, e busca proteger setores estratégicos. O governo está estudando se deve bloquear a venda da Arm, uma fabricante britânica de chips, para a Nvidia, uma companhia americana. O governo britânico também adquiriu uma participação acionária controladora na OneWeb, uma operadora de satélites deficitária.

A Covid-19 reforçou a moda da política industrial. A produção nacional de vacinas é vista cada vez mais como um interesse vital de cada país. Ainda que lastimem o “nacionalismo nas vacinas” em outros países, muitos governos agiram para restringir as exportações de vacinas e reforçar os produtores nacionais. As lições quanto a resiliência nacional aprendidas com a pandemia agora podem ser aplicadas a outras áreas, da energia ao abastecimento de alimentos.

Nos Estados Unidos, os argumentos de segurança nacional em favor de uma política industrial se misturam à reação negativa mais ampla contra a globalização e o livre comércio. A retórica de Joe Biden é francamente protecionista. O presidente proclamou ao Congresso que “todos os investimentos no plano para promover o emprego nos Estados Unidos serão orientados por um princípio: compre produtos americanos”.

Em artigo publicado no ano passadio, Jake Sullivan, assessor de segurança nacional de Biden, instou o aparato de segurança nacional a “avançar para além da filosofia econômica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos”, e aceitar que “a política industrial é profundamente americana”. Os Estados Unidos, ele argumentou, continuarão a perder terreno para a China em tecnologias essenciais, como a telefonia 5G e os painéis solares, “se Washington continuar a depender tão pesadamente do setor privado para a pesquisa e desenvolvimento”.

Muitos desses argumentos parecerão sensatos aos eleitores. Protecionismo e intervenção estatal muitas vezes causam essa impressão. Mas os economistas defensores do livre mercado estão indignados. Swaminathan Aiyar, um proeminente comentarista indiano, lastima o retorno de ideias fracassadas do passado, argumentando que “autossuficiência foi o que Nehru e Indira Gandhi tentaram nas décadas de 1960 e 1970. Foi um horrível e terrível fiasco”. Adam Posen, presidente do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington, recentemente lamentou “a retirada econômica derrotista dos Estados Unidos”, argumentando que políticas cujo objetivo seja proteger setores ou regiões em geral terminam em dispendiosos fracassos.

À medida que crescem as tensões entre os Estados Unidos, a China e outras grandes potências, é compreensível que esses países estudem as implicações de segurança das tecnologias chave. Mas as afirmações dos políticos de que a política industrial criará empregos mais bem pagos e uma economia mais produtiva merecem ser tratadas com profundo ceticismo. Às vezes, ideias saem de moda por bons motivos.

Tradução de Paulo Migliacci

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