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Sanna Marin

Novas tecnologias, sozinhas, não vão resolver crise climática

Precisamos de políticas adequadas, com regulação e incentivos financeiros

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Sanna Marin

Primeira-ministra da Finlândia

A mudança climática e a perda de biodiversidade são os desafios mais prementes de nossa era, por isso todos os líderes responsáveis precisam apresentar políticas de longo prazo para enfrentá-los efetivamente.

Precisamos de estratégias claras baseadas em metas alcançáveis, e devemos ser ousados para mobilizar todos os meios à nossa disposição. Em particular, qualquer estratégia climática verossímil deve levar em conta a inovação tecnológica.

Com o objetivo de se tornar climaticamente neutra até 2035 e negativa em carbono (remover mais carbono da atmosfera do que emite) pouco depois, a Finlândia tem metas climáticas das mais ambiciosas do mundo.

Meu país pretende ser um líder entre as economias avançadas, não apenas em termos de redução de emissões, mas também ao promover uma economia circular enfocada na sustentabilidade e na eliminação do lixo. O plano é duplicar nossa eficácia de recursos e a taxa de circularidade (a porcentagem de todos os materiais que são reaproveitados na economia) até 2035.

A primeira-ministra de Finlândia, Sanna Marin, durante entrevista na Cúpula da União Europeia na Bélgica - Zhang Cheng - 13.dez.19/Xinhua

Esses são os principais parâmetros no caminho para nos tornarmos o primeiro país a se libertar dos combustíveis fósseis. Mas alcançar as metas climáticas não é possível sem melhores métodos para preservar nossos valiosos recursos naturais.

A descoberta científica, novas tecnologias e a inovação terão um papel central em qualquer solução em longo prazo. Mas, em primeiro lugar, todos os líderes nacionais devem examinar mais de perto como eles pretendem afastar seus países dos combustíveis fósseis.

O foco deveria ser em aumentar o uso de combustíveis e fontes energéticas que não comprometem a biodiversidade.

Devemos encorajar a adoção de combustíveis que cumpram rígidos critérios de sustentabilidade e reduzam as emissões durante seu ciclo de vida. Por exemplo, os subprodutos de combustíveis de biomassa podem ser usados para produtos de alta qualidade sustentáveis e biodegradáveis, como tecidos e materiais de construção, assim protegendo a biodiversidade ao reduzir a demanda por recursos colhidos em nossas florestas.

E tecnologias de conversão "Power-to-X" abrem a porta para diversos processos que transformam eletricidade em calor, hidrogênio ou combustíveis sintéticos.

Com mais investimento e inovação, essas tecnologias podem permitir que nos afastemos de carvão, petróleo e gás natural, ao possibilitar a produção de combustíveis sintéticos das emissões capturadas de dióxido de carbono.

Aqui podemos começar com os gases industriais gerados pela indústria de base biológica, fornos de cimento e incineradores de lixo sólido. Mas, em breve, novas tecnologias poderão ser desenvolvidas para aproveitar fontes menos concentradas de carbono, como coletando ar de exaustores de escritórios ou mesmo na captura direta do ar (DAC, na sigla em inglês).

Experimentos já estão em curso. Usando hidrogênio produzido por eletrólise, as emissões de CO2 de indústrias e DAC poderão se tornar uma fonte de combustíveis sintéticos líquidos e gasosos para transporte rodoviário, marítimo e aéreo neutro em carbono.

Esses métodos produzem metanol sintético como produto intermediário, que pode, então, ser convertido em gasolina, querosene e diesel. Embora pareça estranho, não estamos longe de podermos criar combustíveis de puro ar.

Essas novas tecnologias e processos podem começar com um preço elevado. Mas, como vimos com os painéis solares e as células de combustível, os custos de uma tecnologia tendem a cair assim que seu uso começa a aumentar.

Além disso, os mercados de outras tecnologias amigas do clima estão se desenvolvendo rapidamente, embora variem em profundidade e escala, dependendo do nível de apoio do governo (através de medidas como acoplar regulamentos para combustíveis e preços do carbono).

Por exemplo, novas tecnologias promissoras baseadas em hidrogênio exigirão um aumento enorme da produção de eletricidade livre de combustíveis fósseis para atingir escala. Mas essa necessidade pode ser cumprida expandindo-se o uso de energia solar e eólica, que já são as opções menos caras para geração de energia em muitas partes do mundo.

Novas tecnologias permitirão uma grande mudança em direção ao transporte com combustível sustentável em muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Elas não apenas nos permitirão reduzir as emissões globais de CO2, como também posicionarão muitas indústrias para se tornarem negativas em carbono no futuro.

Mas a tecnologia não resolverá a crise climática para nós. Também precisamos criar um ambiente de políticas adequado. Um componente chave na transição verde será o apreçamento mais alto do carbono, o que exige coordenação e apoio em nível internacional.

Concordar com critérios sustentáveis para mecanismos de mercado do carbono seria um importante passo à frente. E os governos devem fazer mais para apoiar mudanças estruturais através de quadros regulatórios e incentivos financeiros.

A transição global para longe dos combustíveis fósseis exigirá uma mudança transformacional em produção de energia e processos industriais. E, mesmo assim, haverá necessidade de muito mais trabalho para desenvolver uma economia verde genuinamente circular. Diferentes países terão necessidades e vantagens diferentes. Mas as melhores soluções serão aquelas que puderem ser adotadas igualmente em países industrializados e em desenvolvimento.

A conclusão é que as emissões globais têm de alcançar o pico em breve se quisermos atingir nossas metas de redução de emissões e evitar futuros desastres climáticos. Um conjunto completo de novas tecnologias promissoras precisará ser desenvolvido, otimizado e mobilizado globalmente se quisermos criar uma economia mundial circular e totalmente neutra em relação ao clima.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

Este texto faz parte da série de artigos de opinião exclusivos, assinados por jovens líderes globais selecionados pelo Fórum Econômico Mundial, com propostas concretas e pioneiras para uma nova agenda para o desenvolvimento até 2030. O projeto é promovido pelo Fórum Econômico Mundial, com curadoria de Rodrigo Tavares, e tem a Folha como parceira exclusiva no Brasil.

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