Produtora Brasil Paralelo vive crescimento meteórico e quer ser 'Netflix da direita'

De viés conservador, empresa aumentou faturamento em 335% no ano passado e entra no ramo do entretenimento

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São Paulo

Criada há apenas cinco anos por um trio de estudantes universitários de Porto Alegre, a produtora de vídeos conservadora Brasil Paralelo acaba de alugar seu segundo andar inteiro em uma torre empresarial na avenida Paulista.

Parte da equipe da produtora de vídeos Brasil Paralelo, em São Paulo, que faz filmes e documentários de viés conservador - Divulgação

É preciso espaço para acomodar uma equipe de 100 funcionários, que em breve chegará a 150. No ano passado, a empresa faturou R$ 30 milhões, crescimento de 335% sobre 2019, já descontada a inflação.

Atualmente com 200 mil assinantes que pagam para ter acesso a seu conteúdo de documentários e cursos de viés direitista, estabeleceu como meta chegar a 1 milhão até o final de 2022.

Poucas empresas aproveitaram tanto o novo ambiente político dos anos Bolsonaro para crescer como a Brasil Paralelo, embora seus sócios rejeitem que sejam alinhados ao governo federal.

“Temos visões conservadoras que nem sempre coincidem com as do governo Bolsonaro, embora para alguns assuntos a narrativa seja parecida”, diz Henrique Viana, 30, diretor-executivo e um dos sócios-fundadores da empresa.

O que parece não ter limites é a ambição de crescimento da empresa. “Queremos ser a empresa de mídia mais influente no ecossistema cultural brasileiro”, afirma Viana.

O que começou como uma operação quase caseira de produção de documentários de cunho histórico e político agora prepara a expansão para outras áreas.

Estão nos planos imediatos da Brasil Paralelo tornar-se uma espécie de Netflix da direita, com a entrada no ramo do entretenimento –a empresa é citada pelos sócios como modelo de adaptação às novas formas de comunicação, ao lado da Disney.

A produtora negocia a compra dos direitos de filmes estrangeiros de grandes estúdios, novos e antigos, que pretende exibir em sua plataforma e usar como base para a criação de conteúdo extra. Tudo, obviamente, passando pelo crivo ideológico da empresa, sem espaço para Bruna Surfistinha e congêneres.

Um filme como Coração Valente, por exemplo, fala de liberdade e patriotismo, é um exemplo de produção que podemos exibir e depois servir de base para pequenos documentários nossos”, afirma Viana, em referência ao sucesso de Mel Gibson de 1995, sobre a luta pela independência da Escócia.

Também há planos de entrar no mercado corporativo, oferecendo pacotes com conteúdo específico para empresas.

A Brasil Paralelo recentemente criou o posto de diretor de Relações Institucionais, ocupado por Renato Dias, que veio do site Ranking dos Políticos.

Sua função é fazer o meio de campo com entidades, autoridades políticas e regulatórias, imprensa e, sobretudo, as chamadas “big techs”.

A produtora recentemente desenvolveu sua própria plataforma de streaming, mas ainda depende muito de sites como o YouTube, uma vez que parte de sua produção é aberta a não assinantes.

Uma preocupação constante é de que tenha seu conteúdo restrito ou derrubado por veicular teses conservadoras, embora isso até agora não tenha ocorrido. Um recente documentário sobre a pandemia, por exemplo, criticava as restrições a atividades econômicas.

“A ideia é termos um bom diálogo com empresas como o YouTube, tanto para melhorar nossa performance como para identificar potenciais problemas, evitando que nosso conteúdo fique restrito ou seja retirado do ar”, afirma Dias.

Desde que a produtora surgiu, em 2016, já foram produzidos 50 documentários, de temas como história do Brasil, campanhas presidenciais, golpe de 1964, pandemia, funcionamento do Supremo Tribunal Federal e crise na Argentina.

Todos apresentam uma roupagem conservadora, que muitos historiadores poderiam chamar de “revisionista”.

Em um de seus maiores hits, o filme “1964: o Brasil entre Armas e Livros”, que teve mais de 8,5 milhões de visualizações, o golpe militar é apresentado como uma reação a uma suposta influência comunista no governo de João Goulart, tese que praticamente todos os acadêmicos consideram exagerada.

Já “Pátria Educadora” joga nosso atraso educacional na conta da influência esquerdista sobre as escolas, inspirada pelas ideias do educador Paulo Freire.

As produções saem do forno em escala industrial, ao ritmo de uma a cada dois meses. Os documentários em geral têm de 1h30 a 2h de duração, muitas vezes divididos em episódios.

Um aspecto que a Brasil Paralelo sempre faz questão de apresentar é que não recebe financiamento público. Sua receita vem de assinantes que pagam de R$ 10 mensais pelo Plano Patriota a R$ 49 pelo Núcleo de Formação, que oferece cursos e debates.

Uma política agressiva de marketing fez o número de assinantes multiplicar-se por 15 em 2020, na comparação com o ano anterior.

Montagem com personagens do impeachment em vídeo da produtora Brasil Paralelo
Montagem com personagens da política brasileira em vídeo da produtora Brasil Paralelo - Reprodução

Há também vídeos e cursos sobre música, literatura e a Escola da Família, “um plano para pais e mães que desejam construir um legado de valor para a próxima geração”.

No final do ano passado, mostrando o novo foco em entretenimento, a empresa produziu um especial de Natal, com apresentações musicais.

As primeiras produções tinham uma vinculação grande com o bolsonarismo, com a participação, por exemplo, do filósofo Olavo de Carvalho em depoimentos.

Em suas últimas produções, a Brasil Paralelo tem buscado se descolar um pouco de figuras ligadas ao governo, para tentar se estabelecer como uma empresa conservadora, independentemente da conjuntura política.

Esse distanciamento é colocado à prova, contudo, pelas próprias obras que a produtora apresenta. Seu próximo grande lançamento, por exemplo, é “Cortina de Fumaça”, que apresentará uma visão crítica sobre a atuação de ambientalistas, ONGs e potência estrangeiras nas áreas de meio ambiente e povos indígenas.

Um dos depoimentos de maior impacto foi dado pela ministra Damares Alves (Direitos Humanos) sobre o infanticídio em aldeias indígenas, uma de suas principais causas.

A carteira de assinantes, por enquanto, garante a viabilidade e o crescimento da empresa, diz Viana. Segundo ele, já houve propostas de investimentos de fundos, até o momento recusadas.

Um IPO (oferta inicial de ações) é algo que pode ser cogitado futuramente, numa nova etapa de expansão. “Evidentemente, queremos ser um unicórnio [empresa de valor de mercado de US$ 1 bilhão], mas não há pressa”, afirma.

Para 2021, a previsão é de faturar ao menos R$ 60 milhões, o que representaria dobrar a receita com relação a 2020. Indicador muito valorizado pelo mercado, o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) é de 40%.

O crescimento acelerado, diz o diretor-executivo, vem não apenas dos novos hábitos gerados pela pandemia, em que as pessoas consomem mais produtos digitais ao ficarem em casa.

“O momento de instabilidade política também pesou muito. A Brasil Paralelo tem a causa de mudar o Brasil. E as pessoas se engajaram mais, ficaram mais preocupadas”, afirma o sócio.

Da mesma forma que a Brasil Paralelo surfou na onda conservadora, a pergunta óbvia é se toda essa a euforia vai se transformar em ressaca caso Bolsonaro seja derrotado no ano que vem, como indicam hoje as pesquisas.

A empresa diz que seu planejamento não mudará caso esse cenário se confirme, confiante de que a massa consumidora de conservadores veio para ficar.

“Este mercado existe, com certeza. O que precisa é aumentar a oferta. Nosso público quer entender melhor o resgate dos valores cristãos e da família”, declara Viana.

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