Descrição de chapéu The New York Times

Spencer Silver, um dos inventores dos bilhetes Post-it, morre aos 80

Ele criou o adesivo que deixa pequenas notas coladas em superfícies e que se tornou um dos produtos mais presentes em escritórios

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Richard Sandomir
The New York Times

Spencer Silver, um químico e pesquisador da 3M que criou sem querer o adesivo não muito grudento que permite que os bilhetes Post-it sejam removidos de superfícies com a mesma facilidade com que são colados, morreu no sábado (8) em sua casa em St. Paul, Minnesota (norte dos EUA). Ele tinha 80 anos.

Sua mulher, Linda, disse que ele morreu depois de uma crise de taquicardia ventricular, em que o coração bate mais rápido que o normal. Silver teve um transplante de coração 27 anos atrás.

Desde seu lançamento em 1980, os bilhetes Post-it se tornaram um produto onipresente em escritórios, primeiro na forma dos pequenos blocos amarelos —bilhões dos quais são vendidos anualmente— e mais tarde também em diferentes cores e tamanhos, alguns com adesivos mais pegajosos. Atualmente há mais de 3.000 produtos com a marca Post-it em todo o mundo.

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Silver, criador do adesivo que possibilita ao Post-it ser removido de superfícies com a mesma facilidade com que é colado - Divulgação/3M/Via New York Times

Silver trabalhou no laboratório central de pesquisas da 3M desenvolvendo adesivos. Em 1968, ele tentava criar um tão forte que pudesse ser usado na construção de aviões.

Ele falhou nesse objetivo. Mas durante suas experiências inventou algo totalmente diferente: um adesivo que colava em superfícies, mas podia ser facilmente retirado e reutilizado.

Foi uma solução para um problema que parecia inexistente, mas Silver teve a certeza de que era uma inovação.

"Senti que meu adesivo era tão evidentemente único que comecei a dar seminários em toda a 3M na esperança de produzir uma centelha entre os desenvolvedores de produtos", disse ele ao Financial Times em 2010.

Silver promoveu seu adesivo durante vários anos na 3M, companhia conhecida como um local de trabalho inovador, de forma tão assídua que ele ficou conhecido como "Sr. Insistente".

Ele patenteou o adesivo (tecnicamente chamado de microesferas de copolímero acrilato) em 1972. Mas se passaram mais dois anos antes que alguém na 3M desse atenção séria a ele: Art Fry, um engenheiro químico no laboratório da divisão de fitas, que buscava desenvolver novos produtos

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Spencer Silver, à esquerda, e seu colega, Art Fry, à direita - Divulgação/3M/Via New York Times

Fry tinha ouvido falar no adesivo de Silver por um colega quando estava no segundo buraco do campo de golfe da empresa em Lake Elmo, em Minnesota, e decidiu que iria a um seminário de Silver.

"Nós não nos conhecíamos muito bem", disse Fry por telefone. "Tínhamos nos cruzado em coisas como o clube de ciclismo. A 3M sempre inventava maneiras de misturar pessoas de diversas divisões."

Ele não pensou imediatamente em uma aplicação para o adesivo até que um dia, ensaiando no coro da igreja, percebeu que tinha um problema que a invenção de Silver poderia resolver: as tiras de papel que Fry usava para marcar as canções em seu hinário caíam o tempo todo. Então ele usou uma amostra do adesivo de Silver para criar um marcador de página que ficasse fixo, mas não rasgasse as páginas ao ser retirado.

Fry testou um marcador semelhante com alguns colegas de trabalho, com resultados positivos. Mas ele precisava de mais provas de que era um produto que a 3M quisesse produzir. Então enviou um relatório a seu supervisor com um bilhete na capa escrito em um pedaço do marcador de livro; o supervisor respondeu no mesmo pedaço de papel, com o adesivo em parte do outro lado, e o devolveu.

"Foi um momento 'eureca', mexeu com a cabeça", disse Fry ao Financial Times. "Ainda posso sentir o entusiasmo."

Em 1993, Fry recebeu uma patente do Post-it, ou, tecnicamente, "um material em folha adesiva sensível a pressão e reposicionável".

Spencer Ferguson Silver 3º nasceu em 6 de fevereiro de 1941 em San Antonio, no Texas. Seu pai, Spencer Jr., era contador e sua mãe, Bernice (Wendt) Silver, secretária.

Silver era um adolescente em 1957 quando a União Soviética lançou o Sputnik, primeiro satélite artificial em órbita da Terra.

"Seu professor de ciência disse à classe: 'Todos vocês vão ser engenheiros'", contou sua mulher em entrevista por telefone.

Silver não escolheu engenharia ou astrofísica. Ele se formou pela Universidade Estadual do Arizona em química em 1962. Obteve o doutorado em química orgânica pela Universidade do Colorado em Boulder quatro anos depois. Lá, conheceu Linda Martin, estudante de graduação que trabalhava em meio período no departamento de química. Eles se casaram em 1965.

Pouco depois ele entrou para a 3M como químico sênior, trabalhando em adesivos sensíveis a pressão. Durante seus 30 anos na companhia, chegou ao cargo de cientista corporativo. Embora tenha trabalhado em outros projetos envolvendo copolímeros em bloco e imunodiagnósticos, nenhum fez tanto sucesso quanto as Post-it Notes.

A combinação do adesivo de Silver com os bilhetes adesivos feitos a mão por Fry foi um sucesso entre as secretárias da 3M. Mas os executivos da companhia não tinham tanta certeza.

Um lançamento de teste em 1977 de Press 'n Peel, como o produto foi chamado, em quatro cidades —Denver (Colorado), Tulsa (Oklahoma), Tampa (Flórida) e Richmond (Virgínia)— fracassou entre os consumidores, que ficaram em dúvida sobre os quadrados de papel reposicionáveis. Mas no ano seguinte a 3M teve maior sucesso quando inundou os escritórios de Boise (Idaho) com amostras grátis; 90% dos que as receberam disseram que comprariam o produto.

Dois anos depois, a 3M lançou as Post-it Notes em todo o país. E nunca parou de vendê-las.

"As Post-it Notes decolaram tão depressa", disse Silver à CNN em 2013, "que eu acho que deixei muita gente engasgada em marketing e vendas."

"Sempre foi um produto que fazia a própria publicidade", acrescentou ele, porque os clientes colavam os bilhetes em documentos que enviavam a outros, despertando a curiosidade do destinatário. "Eles olhavam para aquilo, o descolavam e brincavam com ele, então saíam e compravam um bloquinho."

Silver e Fry foram admitidos no Saguão da Fama dos Inventores Nacionais em 2010. Silver recebeu o prêmio de invenção criativa da Sociedade Americana de Química em 1998.

Silver pintava no tempo livre durante seus anos na 3M. Ele praticou sua arte mais seriamente na aposentadoria, usando acrílico, óleo e pastel sobre tela para criar obras abstratas.

Além de sua mulher, uma programadora de computador que usou bilhetes Post-it para marcar e anotar bugs nas impressões de programas, Silver deixa uma filha, Jennifer Silver, e dois netos. Outra filha, Allison Anderson, morreu em 2017.

Os bilhetes Post-it tiveram uma participação especial no filme de 1997 "Romy e Michele". Quando suas ex-colegas lhe perguntam o que andou fazendo, Michele (interpretada por Lisa Kudrow) finge ser um grande sucesso, dez anos depois do colégio, e diz: "Ora, hum, eu inventei o Post-it", e então assume o papel de Silver.

"Eu inventei uma cola especial", diz ela, e segue com um blablablá explicando o processo químico que envolve "termofixar sua resina", misturá-la com "um epóxido" e adicionar "um derivado de glicose complexo durante o processo de emulsificação".

Tudo foi um besteirol criado por Fry quando os cineastas pediram ajuda técnica à 3M.

"Eu escrevi um monte de coisas que não tinham nada a ver com o Post-it, e eles as usaram", disse Fry à revista Vice em 2017. "Parece mais com algo que você usaria para consertar a cadeira da sala de jantar do que o adesivo necessário para o Post-it."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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