Transição energética: recomendações internacionais avançam mais do que decisões nacionais

As questões ambientais, climáticas e tecnológicas influenciam na transição da matriz energética, mas não a determinam

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William Nozaki

Coordenador técnico do Ineep e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

O setor de energia tem um papel fundamental no enfrentamento dos desafios climáticos e ambientais do século XXI. No entanto, apesar dos esforços governamentais e empresariais para combater o aquecimento global, as emissões de CO2 da energia e da indústria aumentaram 60% desde a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 1992.

Diante desse cenário, a AIE (Agência Internacional de Energia) divulgou o seu relatório para a descarbonização da economia estabelecendo como meta alcançar emissões líquidas zero de dióxido de carbono até 2050. Em favor das recomendações pesam: um ambiente internacional mais sensível às questões relacionadas à saúde e ao meio-ambiente; o pacote de investimentos e créditos fiscais federais dos EUA no chamado Green New Deal; e o fato de que, em 2020, se registrou o maior crescimento na geração de energia renovável em duas décadas.

Esse conjunto de elementos mostra que a agenda da transição energética ganhou impulso internacional. Entretanto, uma transformação profunda como a proposta pelo relatório da AIE não pode desconsiderar incertezas geopolíticas e políticas, riscos empresariais e financeiros envolvidos nesse processo, além da articulação entre energias fósseis e renováveis.

Do ponto de vista do financiamento, o papel das majors petroleiras é fundamental nessa dinâmica. Embora os hidrocarbonetos sejam responsáveis por parte relevante das emissões de gases do efeito estufa, a indústria de petróleo é uma das que mais investe em fontes de energia limpa, além de ser grande produtora de gás, fundamental para a transição energética dado seu menor potencial poluente.

As incertezas sobre a transição energética ainda são muitas e dependem também de como irão se transformar os padrões de produção, circulação e consumo na economia de mercado pós-Covid-19. Além disso, ainda não está claro como a máquina de segurança, defesa e guerra dos países —ainda profundamente dependente do petróleo— vai se relacionar com esse processo.

Nesse cenário, o mais provável é que tal mudança seja informada por outros dois fatores: diminuição da oferta de petróleo, resultado da crescente pressão dos fundos financeiros sobre as petrolíferas para que elas tenham mais rendimentos para os acionistas e menos investimentos de risco; e pela capacidade das grandes operadoras de petróleo assumirem o papel de protagonistas na produção de outras formas de energia.

Em outras palavras: as questões ambientais, climáticas e tecnológicas influenciam na transição da matriz energética, mas não a determinam. Seus determinantes são políticos e econômicos, para ser mais preciso são geopolíticos (o longo prazo da segurança energética) e financeiros (o curto prazo dos ganhos acionários), e dependerão muito mais de estratégias nacionais e empresariais do que das recomendações de organismos internacionais.

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