Farm é questionada em redes sociais após usar nome de funcionária morta em iniciativa de marketing

Marca anunciou que doaria à família comissões póstumas da vendedora Kathlen Romeu, baleada na terça (8); após protestos, empresa pediu desculpas e retirou mensagem do ar

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Sheyla Santos Paola Ferreira Rosa
Brasília

A Farm foi alvo de críticas nas redes sociais nesta quarta (9) após anunciar uma ação de marketing envolvendo o nome de Kathlen Romeu, 24, funcionária da loja que foi morta na véspera, baleada durante um tiroteio na comunidade do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro. Kathlen estava grávida.

No post publicado no perfil do Instagram da marca, a empresa afirma que doará para a família da jovem a comissão que Kathlen receberia pelas vendas. A mensagem é acompanhada por uma imagem com a frase "#JustiçaporKathlen".

“A partir de hoje, toda a venda feita no código de Kathlen —E957— terá sua comissão revertida em apoio para sua família. reforçando que nós também vamos apoiá-la de forma independente e paralela”, diz a empresa na postagem.

A Farm também afirma que fará uma homenagem póstuma na fachada da loja em Ipanema, na zona sul do Rio, onde Kathlen trabalhava, e que está disponibilizando suporte psicológico "a todos que necessitem" por meio da área de recursos humanos.

O post da empresa gerou uma avalanche de críticas no Twitter e no Instagram. Até as 16h30 desta quarta, havia mais de 96 mil tuítes sobre a marca, e o tema chegou a ser o mais comentado no Twitter.

Para críticos da ação, a Farm passou do limite ao utilizar o nome de uma funcionária assassinada para impulsionar vendas.

"Imagina uma marca bilionária usar a morte de uma funcionária grávida pra ganhar dinheiro? É isso que tá rolando por aqui. PELO AMOR DE DEUS", escreveu a influenciadora Nath Finanças, que produz conteúdos sobre educação financeira. "Ajudar no enterro? Não... Vamos lucrar com a morte alheia."

Kathlen Romeu, jovem grávida trabalhava na loja Farm e foi baleada na zona norte do Rio - @eukathlenromeu no instagram

O fotógrafo Wendy Andrade disse que a empresa estaria "colocando uma funcionária para trabalhar depois de morta".


​"A Farm é patética", escreveu a cantora Malía. "Ces deviam boicotar a farm. Há tempos a propósito", twitou Winnie Bueno, criadora do projeto literário Winnieteca

"Imagina só comprar roupinha com código da mina que foi assassinada junto com o seu filho, num contexto de violência contra a população favelada e preta —nem black mirror imaginou um roteiro com tamanha crueldade", postou a influenciadora Andreza Delgado, uma das criadoras do evento nerd Perifacon.

"O capitalismo transforma tudo em mercadoria. E sem escrúpulos, já sabíamos. Reduz a matança policial de uma jovem mulher negra a um cupom de descontos. Descreve a obscenidade como 'solidariedade'”, postou a antropóloga Debora Diniz.

Depois da repercussão negativa, a Farm retirou o post do ar e publicou um pedido de desculpas.

"A Farm vem a público se desculpar pela ação que envolveu o uso do código de vendedora de Kathlen Romeu nesse momento tão difícil. Com vocês, entendemos a gravidade do que representou esse ato, por isso, retiramos o código E957 do ar. Continuaremos dando o apoio e suporte à família, como fizemos desde o primeiro momento em que recebemos a notícia", afirmou a empresa em nova mensagem nas redes sociais.

As circunstâncias da morte de Kathlen geraram forte comoção. Na terça-feira (8), diversos artistas lamentaram a morte da jovem negra. O cantor Emicida fez uma crítica ao racismo estrutural.

"Esse lugar precisa de muito pra um dia sonhar em ser um país. #JusticaPorKathleenRomeu"

A atriz Taís Araújo publicou que gostaria de narrar a negritude para "além da morte e da violência", mas disse que é difícil falar sobre beleza quando "vidas de jovens pretos estão sendo constantemente interrompidas".

"Que Deus conforte os corações da família de Kathlen Romeo, uma designer de interiores de 24 anos, grávida de 14 semanas, morta com um tiro na cabeça durante uma operação policial no Complexo do Lins, no Rio de Janeiro", disse a atriz em uma rede social.

A última postagem da jovem trazia uma série de fotos com a legenda "Mamãe 2021" seguida de corações.

A marca Farm faz parte do Grupo Soma, que também é dono de marcas como Animale, Maria Filó, Cris Barros, ByNV, OFF Premium, Foxton e Fábula. Em abril, o conglomerado assinou um acordo para incorporar a Cia Hering, avaliada em cerca de R$ 5,3 bilhões com a operação.

Posicionamento da marca Farm

"A FARM vem a público se desculpar pela ação que envolveu o uso do código de vendedora de Kathlen Romeu nesse momento tão difícil.

Entendemos a gravidade do que representou esse ato, por isso, retiramos de uso o código E957.

Reverteremos integralmente 100% das vendas geradas através do código no dia de hoje para sua família. E reforçamos que vamos continuar dando todo o apoio necessário de maneira independente, como fizemos desde o primeiro momento em que recebemos a notícia.

Olhamos hoje pra FARM com a consciência da nossa função social na redução das desigualdades e seguiremos acelerando todos os nossos programas de inclusão e equidade. Agora o momento é de luto e acolhimento."

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.