Governo vai buscar soluções para produtores de café após perdas com geadas, diz ministra

Tereza Cristina, da Agricultura, visitou áreas afetadas em Minas Gerais nesta sexta

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São Paulo, Nova York, Londres e Bogotá | Reuters

O governo federal vai buscar soluções para auxiliar os produtores de café que tiveram perdas em suas lavouras devido à forte geada ocorrida nesta semana, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, após visita nesta sexta-feira (23) a áreas afetadas em Minas Gerais.

Segundo comunicado do ministério, Tereza Cristina participou de uma reunião de emergência como representante do governo junto a produtores rurais, em Alfenas, no estado de Minas Gerais. Ela disse que recebeu com preocupação os relatos sobre a geada.

"Viemos aqui para ver, ouvir e achar soluções em conjunto, sentarmos à mesa para identificarmos uma solução, que não será única", afirmou a ministra, também em nome do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

"A geada pegou pontos diferentes e, por isso, vamos trabalhar em uma solução conjunta com o estado de Minas Gerais, prefeitos e cooperativas", acrescentou, lembrando que grande parte dos produtores é formada pela agricultura familiar.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, em visita para avaliar os danos causados pela geada no sul de Minas nesta semana - Ascom/Ministério da Agricultura

Foi solicitado aos cafeicultores dados detalhados das perdas para um levantamento que será realizado pelas equipes técnicas de órgãos estaduais e pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Também de acordo com o comunicado do ministério, a secretária de Agricultura de Minas Gerais, Ana Maria Valentin, disse que o que governo estadual pode fazer neste primeiro momento é um laudo completo do problema.

Acompanharam a ministra na reunião o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Marcos Montes, e o diretor de Comercialização e Abastecimento da pasta, Silvio Farnese. O presidente da Emater, Otávio Maia; o presidente do Sebrae, Carlos Melles, além de prefeitos, vereadores, produtores de café e representantes do setor também participaram do encontro.

O ministério ainda ressaltou que o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) disponibilizou uma plataforma de monitoramento de geadas no Brasil, que traz um mapa de possíveis ocorrências de frio excessivo baseado em dados registrados pelas Estações Meteorológicas Automáticas.

Antes e depois de cafezal atingido por geada em Minas Gerais - Produtores rurais/Sistema Faemg

Possível atraso na entregas

As geadas que afetaram áreas cafeeiras do Brasil nesta semana geraram o temor de que produtores decidam pelo "default" (espécie de calote) nas entregas do café recém-colhido, que foi vendido a tradings de commodities há meses por preços que equivalem à metade dos valores atuais.

Uma onda de frio incomum, com temperaturas caindo para níveis congelantes em questões de minutos na manhã do dia 20 de julho, atingiu o coração do cinturão de café do Brasil, danificando lavouras e afetando as perspectivas para as safras do próximo ano.

Agora, é possível que produtores pensem duas vezes antes de cumprir suas obrigações contratuais na atual safra, disseram operadores e analistas, na esteira de uma disparada dos contratos futuros do arábica negociados na ICE.

"Esses agricultores venderam café por apenas R$ 500 (por saca)", disse Judy Ganes, analista de soft commodities nos Estados Unidos, acrescentando que a produção de café do Brasil já havia sido reduzida pela pior seca em 90 anos.

Antes das geadas, alguns produtores tentaram renegociar preços com tradings.

"O mercado já falava de "defaults" quando os preços estavam US$ 0,40 mais baixos", disse um operador de café no mercado europeu, que acrescentou que a alta recente "tornou o risco dez vezes mais provável."

Os preços do café arábica subiram 10% nesta quinta-feira (22), para US$ 1,95 por libra-peso, maior patamar em seis anos e meio.

Um corretor que trabalha com grandes tradings internacionais que obtêm café em Minas Gerais, maior estado produtor da commodity no Brasil, disse que o mercado físico está paralisado, mas acrescentou que "até agora, não recebemos qualquer notificação formal de produtores dizendo que não vão entregar."

Airton Gonçalves, que possui quase 400 mil pés de café em Patrocínio, também em Minas Gerais, disse que entregou 1.500 sacas à trading europeia Sucafina nesta semana, um dia antes da geada de 20 de julho. Ele havia concordado, há alguns meses, em vender este café por uma média de R$ 640 por saca.

Corretores disseram ter tomado conhecimento na quinta-feira de que houve ofertas de saca por R$ 1.050 em Minas Gerais.

Segundo Epamig, cerca de 30% das lavouras foram atingidas pela geada no sul de Minas - Reprodução/EPTV

Recuperação pode levar anos

Estimativas sobre possíveis perdas para a safra do ano que vem variavam nesta quinta-feira, com o mercado digerindo os danos. Projeções iniciais de perdas de 1 milhão a 2 milhões de sacas rapidamente aumentaram.

A exportadora de café Guaxupé disse esperar um corte de 4,5 milhões de sacas em estimativas iniciais de quase 70 milhões de sacas para a safra 2022.

Para o analista Judy Ganes, que viajou ao Brasil três vezes neste ano para avaliar a seca e as geadas, ainda é cedo demais para especular.

"Há muitas imagens aéreas circulando. Mas ninguém sabe se essas árvores terão de ser podadas, o que resultará em produção zero no ano que vem, ou se precisarão ser retiradas, o que significaria produção zero por dois ou três anos", disse ela.

Eduardo Carvalhaes, veterano corretor de café em Santos, em São Paulo, afirmou que viveiros de café também foram atingidos pelas geadas, o que vai dificultar o replantio por parte dos produtores.

Airton Gonçalves, que acredita que terá de remover cerca de 80 mil árvores queimadas, não tem certeza se conseguirá encontrar mudas.

"Pode ser que eu tenha de plantar milho nessa área no ano que vem, enquanto espero os pés chegarem ao mercado."

Nayara Figueiredo , Marcelo Teixeira , Maytaal Angel e Julia Symms Cobb
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