Sinais de Bolsonaro e Lula sobre teto de gastos trazem preocupações, diz ex-secretário do Tesouro

Carlos Kawall afirma que país pode crescer acima da média dos últimos anos se mantiver equilíbrio entre despesas e receitas

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São Paulo

Carlos Kawall, diretor da ASA Investments e ex-secretário de Tesouro Nacional no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirma que as eleições de 2022 podem ter dois candidatos polarizados em termos políticos, mas com visões econômicas mais próximas, tanto de respeito às regras fiscais como a favor de políticas de aumento de gastos.

Em entrevista à Folha, ele afirma que o mercado financeiro já trabalha com o cenário Lula versus Jair Bolsonaro (sem partido) como o mais provável, mas diz que não está claro qual versão desses candidatos vai se apresentar ao eleitor no próximo ano.

Carlos Kawall, 60, diretor do ASA Investments e ex-secretário de Tesouro Nacional no governo Lula
Carlos Kawall, 60, diretor do ASA Investments e ex-secretário de Tesouro Nacional no governo Lula - Divulgação

Carlos Kawall, 60

É diretor da ASA Investiments. Formado pela FEA-USP, foi secrestário do Tesouro Nacional no governo Lula e economista-chefe do Citibank e do Banco Safra​

Por que tem sido tão desafiador fazer projeções macroeconômicas nessa pandemia? A gente tenta comparar uma crise que foi muito abrupta e inesperada com padrões que você teve em momentos anteriores. Foi ficando ao longo do tempo mais claro que ela tinha características diferentes. Você tem normalmente uma queda grande do investimento e da compra de bens duráveis. O setor de serviços tem um comportamento mais resiliente.

A pandemia muda isso de cabeça para baixo. Tem repercussões na questão fiscal, porque você concentra a demanda no setor de bens que, normalmente, é mais tributado. A arrecadação do ICMS está espetacular, a situação de estados e municípios está melhor do que antes da crise. Isso tem efeitos também do ponto de vista da inflação. Os serviços pesam mais nos núcleos e normalmente são mais difíceis de cair. Têm inércia maior.

Isso tudo surpreendeu. Aí fica a discussão que os bancos centrais estão tendo, se isso é temporário ou permanente.

Em sua avaliação, é um desarranjo momentâneo? A gente está vendo uma combinação de desemprego elevado com inflação elevada. Os países estão tendo, em geral, surpresa inflacionária por causa desse desarranjo e, não obstante, têm desemprego. A normalização dos preços industriais vai ocorrer antes de os serviços acelerarem? Ou eles vão acelerar juntos?

O sr. têm uma resposta? A gente tem 6% de IPCA neste ano e 3,6% no ano que vem. A [previsão para a] Selic, depois do último Copom, a gente subiu de 6,5% para 7% e prevê uma alta de 100 [pontos base, ou 1 ponto percentual] na reunião de agosto e talvez também em setembro. O Banco Central fez um discurso mais duro. A gente pegou um pouco desse problema global das cadeias de produtos industriais.

Tem algum alívio agora do dólar mais fraco. Isso tem um componente global e um componente Brasil. O real perdeu mais valor do que as outras moedas emergentes. Isso teve muito a ver com riscos ligados ao próprio Brasil, riscos ligados à pandemia e, principalmente, problemas em relação à incerteza fiscal. O governo deu muitos sinais no início do ano de que queria mais liberdade para gastar.

O sr. tem uma percepção de que o Brasil se tornou um país mais arriscado e precisava de um juro mais alto para colocar dinheiro aqui? A gente teve uma situação de muita incerteza. O que é que melhorou no segundo trimestre? Passou aquela briga do Orçamento, e o teto foi mantido.

O principal fundamento que a gente precisa respeitar no Brasil é o fiscal. Quando você pelo menos mantém o arcabouço fiscal, aí as coisas começam a funcionar. Aí a gente passou a aproveitar o lado benigno do cenário internacional, o preço de commodities subindo, a exportação crescendo e uma situação de contas externas favorável.

Se você reduz o risco fiscal e tem uma situação de contas externas melhor, isso começa a favorecer o cenário, mas faltava aquilo que eu acho que seja o fundamental, o crescimento. E aí a gente começou a ver que os dados de crescimento eram melhores do que se imaginava, mesmo com uma segunda onda.

Hoje a gente prevê PIB de 5,4% neste ano e 2% no ano que vem. Claro, com inflação mais alta. E aí vamos ter mais juros. Mas dentro de um contexto em que a expectativa de inflação do ano que vem vai entrar em queda.

Como é que vocês colocam a questão eleitoral nesse cenário? Ela atrapalha? Parece que nem precisaremos esperar convenções partidárias. A gente já sabe que o cenário-base de todo o mundo é a polarização. O mercado está muito claramente com esse cenário na cabeça, mas não é nada trivial entender quais serão os termos do debate eleitoral.

Eu trabalhei no governo Lula como secretário do Tesouro no primeiro mandato. Na época em que você respeitava o tripé macroeconômico. Era uma política econômica que tinha o viés que ele queria dar no social, mas a parte macroeconômica era intocada. O que aconteceu depois, especialmente no governo Dilma, é que se abandonou esse marco e a gente viu no que deu. Então qual vai ser a postura do Lula?

Outra dúvida: qual vai ser a postura do presidente Bolsonaro? É o Bolsonaro do início do mandato, apoiando o Paulo Guedes, ou esse que a gente viu recentemente querendo fazer uma política populista, de excesso de gastos?

Será que a campanha vai ir dentro de uma coisa, por exemplo, um candidato fala, “eu quero manter o teto de gastos, reduzir o tamanho do Estado, quero privatizar”, e o outro fala, “não, eu quero ampliar gastos, manter o papel do Estado, não vou privatizar, [mas] vou tributar os mais ricos, vou aumentar a base de receita”.

Ok. Totalmente civilizado. Exatamente os termos que a gente viu nas eleições americanas. Superpolarizada, extremamente complexa do lado político, mas do ponto de vista do funcionamento da economia não houve nenhum abalo.

O presidente Lula já falou que vai acabar com o teto de gastos. O presidente Bolsonaro deu sinais de que também queria fazer uns puxadinhos no teto. Se for uma eleição nesses termos, isso é ruim.

Podemos ter terceira via? O posicionamento das duas candidaturas em relação aos fundamentos fiscais será fundamental. A eleição está muito longe, o presidente está se desgastando muito com a questão da pandemia, mas tem uma base fiel. Se houver uma terceira via, um candidato de centro competitivo, aí o cenário é completamente diferente. Não dá agora para ter como cenário-base nem um extremo de superdeterioração, nem uma coisa superpositiva.

Quais os outros riscos para o cenário de crescimento? Racionamento, vacinação? Vamos ficar abaixo da média mundial? Perante o global a gente não está mal. Poderia estar melhor, se tivesse começado a vacinar antes, com vacinas de melhor qualidade, aquelas que o governo não quis comprar. A vacinação é um ponto.

A questão da energia também preocupa. Ninguém está pondo ainda o impacto de menos crescimento por causa da crise de energia. Por enquanto, não há ideia de falta de disponibilidade.

Se a gente garantir a manutenção do arcabouço fiscal, vai ter juros baixos. Hoje a gente está falando em 7% como teto. Do ponto de vista de crédito isso é completamente diferente, basta ver o que está acontecendo no setor habitacional. Se a gente fizer o básico, tem como crescer 2%, 3% nos próximos anos. O problema é que nos últimos anos o país nem sequer cresceu 2% ou 3%. E tentativas que a gente já viu de querer crescer mais do que isso também não funcionaram. Foram artificiais. Aí entra toda a questão de reformas, que eu acho que estão no caminho correto.

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