Descrição de chapéu Financial Times mudança climática

Vinho tinto teve alta no teor alcoólico com mudanças climáticas

Safras robustas e maduras se tornaram a norma, mas existem sinais de reação

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Judith Evans Patrick Mathurin Chris Campbell
Londres | Financial Times

Quer venha da loja de bebidas da esquina ou do mais venerável “terroir”, a taça de vinho tinto que você tem nas mãos está se tornando mais forte.

Os críticos vêm apontando a tendência há muito tempo, mas agora dados do mercado de vinhos finos Liv-ex confirmam que o teor alcoólico de milhares de safras vem subindo ao longo dos últimos 30 anos.

No período, o teor alcoólico médio subiu em média de pouco menos de 14% para muito mais em vinhos das regiões da Califórnia, Piemonte, Toscana, Rhône, e Rioja. O vinho tinto de Rioja viu uma alta de teor alcoólico de 13,1% em 1995 para 14,5% em 2018.

A mudança do clima vem propelindo essa alteração, disse Tom Gearing, presidente-executivo da Cult Wines, uma empresa de investimento em vinhos finos. “A característica fundamental vem sendo a mudança no clima. As uvas produzem um teor de açúcar maior quando o clima é mais quente, e isso conduz a um teor alcoólico mais elevado”.

Eventos climáticos extremos podem deixar suas marcas em safras específicas. Uma severa onda de calor na Austrália do Sul em 2005, por exemplo, levou a uma alta no teor alcoólico.

Mas outro propulsor são as preferências dos consumidores e a adaptação das vinícolas a essas preferências, disse Anthony Maxwell, diretor da Liv-ex.

Muitos dos consumidores da década de 1990 favoreciam “claretes ao estilo antigo”, com teor alcoólico mais baixo, ele disse, “mas então surgiram como influência os vinhos do Novo Mundo, e eles eram mais maduros e continham um pouco mais de açúcar. Em seguida, tivemos um novo empurrão com o ‘efeito Robert Parker’”.

“Aquele crítico de vinho [Parker] tinha poder e influência fenomenais. E tendia a gostar de vinhos mais maduros e concentrados”, disse Maxwell.

Parker escrevia o Wine Advocate, um boletim informativo sobre vinho publicado nos Estados Unidos, e ganhou fama ao se tornar uma das primeiras pessoas a elogiar a controversa safra 1982 dos tintos de Bordeaux, um ano bem quente, ensolarado e seco.

Seu ranking de classificação de 100 pontos foi amplamente adotado, levando críticos a cunhar o termo “parkerização”, à medida que as vinícolas passaram a adaptar seus produtos de forma a obter mais pontos no ranking de Parker —ainda que o enófilo americano mesmo tenha sempre rejeitado essa ideia. Ainda assim, na era Parker, vinhos maduros e robustos se tornaram a norma.

A Liv-ex compilou dados sobre 17 mil vinhos, cujos teores alcoólicos rotulados foram registrados como parte de um processo de geração de códigos de mercadorias para exportação.

A alta no teor alcoólico entre os vinhos de Bordeaux foi tanto firme quanto pronunciada, com avanço de mais de um ponto percentual entre a década de 1990 e a de 2010, para chegar a 14%.

“Em Bordeaux, naquela época, provavelmente houve um esforço para tentar produzir vinhos mais maduros”, disse Maxwell.

“Isso, combinado ao aquecimento global, levou algumas das vinícolas da região sul de Bordeaux a sentir a influência da cidade”, ele disse. A cidade de Bordeaux em si gera calor, elevando a temperatura das vinhas próximas.

Os produtores de vinho podem afetar a maturidade de suas uvas manipulando o momento da colheita, a cobertura das vinhas ou a proporção de “colheita verde”, ou seja, remoção de uvas de uma vinha.

A chaptalização, que acrescenta açúcar antes da fermentação, eleva o teor alcoólico, e o fermento de cultura pode permitir uma conversão mais eficiente de açúcar em álcool.

Embora os dados da Liv-ex reflitam vinhos finos, especialistas dizem que a tendência é semelhante no mercado de massa.

O grupo australiano Accolade Wines, que produz marcas como Hardys e Banrock Station, disse que o teor alcoólico no mercado “cresceu marginalmente nas últimas décadas”. Nigel Sneyd, diretor mundial de vinho e qualidade da Accolade, acrescentou que “isso é uma tendência mundial”.

Os vinhos do Loire e de Rioja também demonstram alta substancial do teor alcoólico, de acordo com a Liv-ex, e os tintos da Califórnia, Piemonte e Toscana se tornaram significativamente mais fortes nas décadas de 1990 e 2000, mas seu teor alcoólico depois disso se nivelou ou veio a cair.

O teor alcoólico é em geral muito mais constante nos vinhos brancos do que nos tintos. “No caso dos vinhos brancos, as uvas tendem a ser colhidas mais cedo, e são cultivadas em climas um pouquinho mais frios. O teor alcoólico é menor por sua própria natureza”, disse Maxwell.

Da mesma forma, os produtores de champanhe colhem as uvas cedo para manter a acidez, e isso conserva o teor alcoólico relativamente baixo.

Sneyd disse que era improvável que o teor alcoólico continuasse crescendo. “Um teor alcoólico maior traz um desequilíbrio de palato, e por isso um teor significativamente mais alto que o atual requereria o uso de tecnologia para compensar o fato”, ele disse.

Também existe uma espécie de reação de mercado quanto à tendência aos tintos mais encorpados, que já dura algumas décadas.

Maxwell vincula a estabilização do teor alcoólico dos tintos de certas regiões —como a de Saint-Émilion em Bordeaux— à aposentadoria de Parker, que deixou o posto de editor-chefe de seu boletim em 2012 e se aposentou completamente em 2019.

“Houve um movimento de que ‘talvez não desejemos vinhos assim, cada vez mais maduros, e vamos voltar a colher mais cedo’”, disse Maxwell. “Há uma questão de saúde, também. Hoje as pessoas prestam mais atenção ao teor alcoólico”. A Accolade diz que os consumidores cada vez mais buscam vinhos de baixo teor alcoólico, ou sem álcool.

E em algumas regiões, especialmente nos climas europeus mais variáveis, o foco mudou para mitigar os efeitos da mudança do clima, usando métodos como uma fermentação mais fria e lenta, disse Gearing.

“Muitos produtores de vinho agora adotam práticas para controlar o teor alcoólico e garantir que não seja alto demais”, ele disse.

Tradução de Paulo Migliacci

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