Descrição de chapéu juros copom

Estrangeiro piora visão para o real com escalada de risco político e inflação

Goldman Sachs diz que volatilidade da moeda tende a aumentar em 2022; analistas elevam projeções do dólar

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José de Castro
São Paulo | Reuters

O recrudescimento da crise político-institucional e seus potenciais efeitos fiscais têm deprimido ainda mais a visão do estrangeiro sobre a taxa de câmbio brasileira, em meio a uma ampla expectativa de volatilidade adicional apesar da possibilidade de juros mais altos.

O gosto das posições em real ficou mais amargo no começo da semana passada, na esteira da escalada da contenda política após o presidente Jair Bolsonaro atacar ministros do STF e ameaçar descumprir ordens judiciais ao discursar a apoiadores no 7 de Setembro.

A reação dos mercados no dia 8 foi péssima, o que acionou o botão de alerta no governo. No dia seguinte, o chefe do Executivo divulgou carta à nação na qual disse que nunca teve "intenção de agredir quaisquer dos Poderes".

Cédulas de R$ 50 - Gabriel Cabral - 21.ago.2019/Folhapress

No mesmo dia 9 o mercado consumiu parte do prêmio de risco acumulado. Mas a sensação de insegurança não apenas se manteve, mas foi a patamares mais elevados, com temores de "aventuras fiscais" por parte do governo.

Dados da CFTC (agência dos EUA) que incluíram movimentações semanais até dia 7 mostraram que especuladores venderam contratos de real na Bolsa Mercantil de Chicago no ritmo mais forte em sete meses, com o saldo indo ao patamar mais baixo desde 1º de junho.

"Qualquer ameaça ao teto de gastos ou a potencial criação de brechas provavelmente pressionariam os ativos locais. A tensão política dificulta a cooperação entre os Poderes e também pode reduzir o ritmo de avanço das reformas", disseram Roberto Secemski, Juan Prada e Sebastian Vargas, do Barclays, em relatório.

Para eles, já nos três meses finais de 2021 a divisa brasileira poderá ficar sob pressão devido à incerteza tripartite fiscal, política e econômica. Com esse pano de fundo, os profissionais avaliam que o dólar pode voltar a operar perto do topo de seu recente intervalo de oscilação.

Os picos mais recentes do dólar foram de cerca de R$ 5,32 e R$ 5,42 (considerando taxas de fechamento). A cotação no mercado à vista estava em torno de R$ 5,25 no começo da tarde desta quarta-feira. De acordo com dados da Refinitiv, o real há tempos é a moeda emergente com maior volatilidade implícita.

"O cenário político dominará o sentimento a partir do segundo trimestre de 2022, antes das eleições de outubro. Esperamos um aumento significativo na incerteza, juntamente com fraqueza do real no terceiro trimestre de 2022", disseram.

O Bank of America elevou a projeção para o dólar ao fim deste ano a R$ 5,10, de R$ 5, devido à escalada do risco em Brasília.

Além dos já conhecidos receios político-fiscais, profissionais do banco pontuaram que até o fim do ano pode haver fluxos de saída de capital do país devido à sazonal remessa de lucros e dividendos de empresas e à compra de dólares decorrente do ajuste do setor bancário ao "overhedge" —proteção adicional carregada pelos bancos que deixou de ser interessante após mudança regulatória pelo BC.

Na véspera, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que a instituição provavelmente terá que atuar no câmbio por causa de demanda associada ao "overhedge".

Em relatório, Gabriel Tenorio e Claudio Irigoyen, do BofA, citaram que a compilação proprietária de movimentos de fluxos pelo BofA mostrou investidores conhecidos como "real money" (fundos de pensão, por exemplo, com alocações mais de longo prazo) reduzindo exposição à moeda brasileira, indicativo de piora de perspectiva em caráter estrutural.

O BofA estima que o dólar fechará o primeiro trimestre de 2022 em R$ 5,10, indo a R$ 5,20 no encerramento de junho.

Juro alto ameniza, mas não compensa pressão

A postura mais ressabiada dos estrangeiros com o câmbio ocorre a despeito de o Banco Central estar em pleno ciclo de aperto monetário que, pelos preços de mercado, pode terminar com a Selic próxima de dois dígitos.

O retorno oferecido por contratos a termo de taxa de câmbio de um ano superou 8% (de menos de 2,4% no começo de 2021), nas máximas em mais de quatro anos. A moeda brasileira, contudo, ainda patina na preferência de investidores internacionais.

O Goldman Sachs, por exemplo, excluiu o real de uma lista de moedas que podem se beneficiar de maneira mais decisiva de rendimentos mais atrativos. Rublo russo, rupia indiana e peso mexicano são favoritos.

"Ficamos menos construtivos com o real. Seu elevado beta cíclico deve se mostrar menos favorável em uma recuperação (econômica) mais contida, e a volatilidade tende a aumentar à medida que nos encaminhamos para um ano eleitoral", disseram estrategistas do banco em nota.

No documento, eles passaram a ver dólar mais alto em três meses (R$ 5,10), seis meses (R$ 5,00) e 12 meses (R$ 4,95). Antes, as projeções estavam em R$ 4,70, R$ 4,65 e R$ 4,60, respectivamente.

A disparada da inflação —em meio a uma crise hídrica que tem feito bancos como o JPMorgan cortar projeções para a economia brasileira em 2022— é outra dor de cabeça para o investidor estrangeiro que mira o real.

"A elevada inflação continua sendo um obstáculo para o 'carry' (retorno em taxa de juros oferecido pelos investimentos na moeda brasileira), conforme os juros reais seguem em patamares muito baixos", disseram estrategistas do Morgan Stanley, no qual citam que o real é a terceira moeda mais cara no universo emergente.

O banco disse que o real continua sendo a moeda preferida para venda dentro de seu portfólio de divisas emergentes.

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