Governo critica BC por ritmo gradual de alta de juros

Equipe econômica é alvo de alertas do BC pelo risco fiscal, mas vê "pequeno cochilo" da autoridade monetária

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Brasília

O ritmo gradual adotado pelo Banco Central para elevar a taxa básica de juros, a Selic, tem sido alvo de críticas no Ministério da Economia diante da escalada da inflação, que acumula alta de 11,30% em 12 meses —o maior patamar desde outubro de 2003 (13,98%).

A inflação tem sido vista dentro da própria ala política do governo como um fator negativo para a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) à reeleição neste ano.

Enquanto o governo é alvo constante de alertas da autoridade monetária pelos riscos do lado fiscal, um integrante da equipe econômica ouvido pela Folha ressalta que o BC passou boa parte de 2021 com juros reais negativos (taxa nominal abaixo da variação da inflação), o que acaba estimulando o aquecimento da economia e abre caminho para aceleração dos preços.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em cerimônia no Palácio do Planalto - Adriano Machado - 09.dez.2021/Reuters

Na avaliação dessa fonte, houve um "pequeno cochilo" do Banco Central, que teria sido mais eficaz se tivesse optado por um choque mais duro nos juros para conter a alta da inflação.

Enquanto isso, a autoridade monetária tem buscado jogar os holofotes sobre o fiscal, o que tem incomodado a equipe econômica.

A Selic permaneceu na mínima histórica de 2% ao ano entre agosto de 2020 e março de 2021, após o Copom (Comitê de Política Monetária) ter cortado a taxa de juros para reanimar a economia em resposta à crise provocada pela pandemia da Covid-19.

No ano passado, o BC iniciou o ciclo de aperto monetário, mas em ritmo gradual, com elevações de 0,75 ponto porcentual. Esse ritmo foi subindo à medida que a inflação foi dando sinais de que resistia à tentativa de controle pela autoridade monetária.

Mesmo assim, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou variação de 10,06% em 2021, estourando a meta de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo.

Neste ano, o mercado já prevê novo estouro da meta, o que levará o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a escrever uma carta com suas justificativas para o descumprimento.

Na avaliação da fonte da equipe econômica, o BC está demasiadamente preocupado em comunicar sua estratégia ao mercado para não causar surpresas bruscas, mas a estratégia pode acabar comprometendo sua agilidade em cumprir sua missão de garantir a estabilidade do poder de compra da moeda.

Esse importante interlocutor do governo avalia que o controle de preços demandava uma alta agressiva nos juros, da mínima de 2% para algo já próximo dos dois dígitos. Segundo a fonte, a dose mais drástica sinalizaria compromisso do BC com o combate à inflação, ainda que provocasse alguma turbulência no curto prazo.

A atuação corrente da autoridade monetária, porém, é avaliada como uma estratégia de "avisar antes para não machucar ninguém".

A fonte reconhece que a alta menor dos juros contribuiu para aliviar a trajetória da dívida pública brasileira, que fechou 2021 em 80,3% do PIB (Produto Interno Bruto), após uma elevação considerável para bancar os programas de combate à pandemia. No entanto, a avaliação é que isso acabou sendo ruim para a inflação.

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