Idosa trabalhou 72 anos sem salário em casa no Rio

Aos 86 anos de idade, mulher foi resgatada de condição análoga a escravidão

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Mariana Moreira
Rio de Janeiro

No início da tarde desta sexta-feira (13), Maria (nome fictício usado para preservar a identidade) estava sentada em uma cadeira no corredor de dormitórios da Central de Recepção de Idosos Pastor Carlos Portela, instalação de triagem e acolhimento da prefeitura, na Ilha do Governador, na zona norte do Rio de Janeiro.

Ela está na ala de acolhimento desde 15 de março, quando foi resgatada de situação análoga à escravidão após uma denúncia anônima. Maria trabalhou na mesma casa durante 72 anos sem receber qualquer salário ou os direitos trabalhistas –férias, 13º salário, FGTS, Pis.

Chegou à central de acolhimento com os documentos de identidade e CPF, além do cartão de ônibus para idosos e um cartão do banco Bradesco.

detalhe de mão de idosa negra com blusa vermelha
Idosa de 84 anos em abrigo, no Rio; ela foi resgatada de condições análogas à escravidão após 72 anos trabalhando como empregada doméstica para três gerações de uma mesma família - Reprodução Globonews

Maria nasceu em Vassouras (RJ), em 12 de outubro de 1936, na região do centro-sul do estado conhecida como Vale do Café, polo da produção cafeeira no Brasil, onde havia cerca de 250 fazendas ligadas à colheita do grão ao longo do século 19.

Na casa onde viveu a maior parte da vida, no bairro do Cachambi, Maria dormia em um sofá estreito pouco confortável. Devagar e com muitas pausas, mas sempre consciente, dona Maria relata, misturando datas e eventos, um pouco da relação que mantinha com a família que vivia.

"Eles eram muito bons comigo, eu comia pizza, participava das festas. Fui até madrinha de um casamento na Candelária. Eles viajam muito para fora, traziam presentes", conta Maria, com o semblante calmo e olhos atentos ao redor, se referindo à "família".

Cristiane Lessa, assistente social e diretora da Central de Idosos Pastor Carlos Portela, explica que a função da instituição é cuidar do pós-resgate e oferecer atendimento médico e psicológico para os pacientes.

"Ela veio para essa família aos 12 anos, a família que explorava ela também é de Vassouras. O trabalho que ela fez aqui foi transgeracional. Ela deu suporte para uma mãe, para os filhos e para os netos dessa família em troca de alimentação e moradia. Ela não tem noção do que viveu. Ela não conseguia se ver em uma situação de exploração e fazia todo o serviço doméstico como uma ‘mãe preta’", diz Cristiane.

De acordo com a diretora do local, a família deu entrada em uma aposentadoria para dona Maria, mas não existem registros de que ela tenha acesso aos valores depositados pelo INSS.

mulher negra de costas sentada com blusa vermelha e parede azul ao fundo
Idosa chegou aos 12 à casa de uma família do Rio, onde trabalhou por sete décadas sem receber salário - Reprodução Globonews

Quando chegou à central, Maria se mostrou insegura, e estava amedrontada e arredia. Agora, já está adaptada à rotina de cuidados e atividades do local, conta Cristiane.

"Fizemos o atendimento emergencial com instalações para dormir e alimentação. É um processo levá-la a todos os atendimentos que precisa. Aos poucos, estamos ressignificando a vida dela", diz a assistente social.

Apesar de conversar muito e estar aberta a receber visitas, ela permanece alheia à situação de exploração e privação pela qual passou a maior parte da vida.

Além de consultas médicas regulares e atendimento psicológico, a rotina no abrigo temporário inclui atividades ocupacionais em oficinas de desenho, caminhadas e horário de lazer, onde dona Maria assiste a programas de televisão na companhia de outros 49 idosos que também vivem, por enquanto, na central.

A investigação, conduzida pela procuradora Tayse de Alencar Macario da Silva, do Ministério Público do Trabalho da 1ª Região, no Rio, busca rastrear parentes de dona Maria, cuja família é constituída por 11 irmãos.

Maria deve permanecer na central por tempo indeterminado até que a investigação seja concluída.

"Tem tudo para dar certo. A gente consegue fazer uma reinserção aos poucos, porque é uma construção. Mas tudo ainda precisa ser amadurecido, porque precisamos trabalhar essa reinserção com um vínculo familiar que de fato possa acolhê-la. Vamos reconstruir aos poucos", disse a diretora da unidade da prefeitura.

A reportagem não conseguiu localizar a família suspeita de manter a idosa em condições análogas à escravidão. O Ministério Público do Trabalho enviou a nota abaixo sobre o caso e não informou o nome do advogado que defende os acusados.

O Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro informa que o procedimento está em tramitação e não falará sobre o caso para não prejudicar a investigação.

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