Empresas veem oportunidade de lucro em falhas de companhias aéreas

Startups ajudam turista a entrar com processo por atraso de voo em troca de fatia da indenização

Homem de camiseta azul e homem de camiseta preta atrás de mesa branca
Gabriel Motta, 32, e Alexandre de Almeida, 32, sócios da Não Voei, na sede da startup em Belo Horizonte - Alexandre Rezende/Folhapress
Carolina Muniz
São Paulo

Empresas que ajudam viajantes a pedir indenizações por prejuízos causados por companhias aéreas —como extravio de bagagem, atraso ou cancelamento de voo— têm nascido e ganhado força nos últimos dois anos.

A explicação está no potencial desse mercado. Em 2017, 8,9% dos voos programados foram cancelados, e 7,1% das viagens realizadas sofreram atraso de pelo menos 30 minutos, segundo os últimos dados compilados pela Anac (Agência Nacional de Avião Civil).

Essas empresas miram, então, em passageiros que foram lesados, mas não iriam atrás de seus direitos por acharem que teriam trabalho e gastos sem garantia de sucesso.

O diferencial desses serviços é eliminar o risco para o consumidor: ele não paga nada se, ao final do processo, não ganhar a indenização —nem honorários do advogado nem custos processuais. Ao mesmo tempo, isso impõe desafios à sustentação do negócio.

Criada em abril de 2017, a Quick Brasil busca o passageiro que não quer esperar pelo dinheiro: deposita R$ 1.000 na conta do cliente logo de cara, em um período de até uma semana depois de o caso ser aceito pela plataforma.

Só têm direito ao reembolso viajantes que chegaram com um atraso superior a quatro horas no destino, por responsabilidade da companhia aérea —pode ser qualquer uma que tenha escritório no Brasil. 

Por exemplo, o voo pode ter atrasado só uma hora, mas, se isso fez a pessoa perder uma conexão e chegar mais de quatro horas depois do previsto, o caso é atendido pela empresa.

Homem de camisa clara; céu azul com uma nuvem ao fundo
Thiago Naves, fundador da Quick Brasil, em Belo Horizonte - Alexandre Rezende/Folhapress

Primeiro, o passageiro preenche as informações do voo no site, que checa sua elegibilidade. Em seguida, coloca seus dados pessoais e faz o upload dos documentos da viagem.

O cliente assina, digitalmente, um termo no qual cede à Quick Brasil o direito de receber um ressarcimento da companhia aérea. A partir daí, a empresa assume todos os riscos de conseguir a indenização. Em geral, tenta um acordo direto com a companhia antes de ir à Justiça. Se ganhar, embolsa tudo sozinha.

Segundo o advogado Thiago Naves, 37, cofundador da Quick Brasil, o risco de perderem dinheiro existe, mas é calculado. “A gente pode não conseguir um acordo, mas isso vai acontecer poucas vezes diante de um universo bem maior de realizações.” Um cuidado tomado pela empresa, por exemplo, foi não aceitar muitos casos no mesmo dia. 

A chegada à quantia de R$ 1.000 levou em consideração o risco envolvido na operação, o intervalo de tempo até conseguir a indenização e a média de pagamento (R$ 2.000, segundo Naves).

O maior desafio do negócio é ter de pagar os consumidores meses antes de receber. Só agora a empresa está alcançando o ponto em que os valores recebidos nos acordos bancam os novos pedidos.

A startup também oferece R$ 100 aos clientes que indicarem uma pessoa com um caso válido, o que lhe garante um crescimento de 10% ao mês. A Quick Brasil já atendeu mais de 2.000 pessoas e investiu em torno de R$ 2 milhões.

Outras empresas apostam num modelo no qual cobram uma porcentagem da indenização, só se ela for efetivada. O valor é dividido com advogados parceiros, que dão andamento aos processos. 

É o caso dos sites Não Voei, Indenizar e Voe Tranquilo, que também atendem viajantes com danos por extravio de bagagem.

As startups calculam valores maiores de compensação (em média, R$ 5.000, pagos num período entre três e oito meses). As quantias podem variar de acordo com a situação —se o passageiro perdeu um dia de férias, um compromisso importante ou uma diária de hotel, por exemplo.

Fundada em março de 2017, a Indenizar cobra de 20% a 30% do valor do ressarcimento. Segundo um dos sócios, o publicitário Matheus Faria, 32, a empresa tem sucesso em 95% dos casos.

A Não Voei, fundada em junho daquele ano, exige 30%. A empresa fez um investimento inicial de R$ 250 mil e já atendeu mais de 2.000 pessoas. 

“O grande desafio do nosso negócio é ter um fluxo de caixa que propicie o pagamento da operação, já que a gente só recebe depois de quatro ou cinco meses”, diz o sócio Gabriel Motta, 32, publicitário.

Lançada em 28 de dezembro, a Voe Tranquilo ainda deve demorar para receber as suas primeiras receitas. Até agora, 200 pessoas se inscreveram na plataforma e dez já tiveram seus casos aprovados. 

“Esse é um dos principais complicadores: trabalhar muito tempo sem nenhuma entrada. Mas, com a experiência que os nossos advogados parceiros têm nesse assunto, sabemos que o índice de sucesso é muito alto”, afirma Roberto Lifschitz, 40, diretor-executivo da Voe Tranquilo.

A empresa cobra 30% da indenização, cujo valor é destinado ao advogado responsável. O profissional remunera a empresa de acordo com os serviços prestados por ela na intermediação com o cliente.

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