Descrição de chapéu The New York Times

Startups começam a rejeitar modelo de crescimento acelerado

Movimento questiona estrutura do venture capital e busca alternativas para seus negócios

Da esq.: Mara Zepeda, Aniyia Williams, Astrid Scholz e Jennifer Brandel do movimento Zebras Unite, que encoraja diversidade no venture capital
Da esq.: Mara Zepeda, Aniyia Williams, Astrid Scholz e Jennifer Brandel do movimento Zebras Unite, que encoraja diversidade no venture capital - Adrian Hallauer/The New York Times
Erin Griffith
Nova York | The New York Times

Era uma manhã de domingo em Nova York, alguns meses atrás, e um grupo de 50 fundadores de startups estava reunido num bar. Um a um, expressaram suas críticas a algo de quase sagrado no setor de tecnologia: o venture capital (capital de risco, aplicado em empresas novatas que querem crescer).

Josh Haas, fundador da Bubble, uma startup de desenvolvimento de software, disse que ele e o pessoal de venture capital estavam “em frequência totalmente diferentes quase o tempo todo” quanto à trajetória de seu negócio.

O evento havia sido organizado por Frank Denbow, 33, fundador da startup de camisetas Inka.io, para reunir empresários que começaram a questionar a superestrutura de investimento que serviu para acelerar muito o crescimento do setor. 

Ao encorajar empresas a se expandirem rápido demais, disse Denbow, o venture capital pode “fazer com que acelerem até a destruição”.

O modelo de negócios de venture capital, sobre o qual boa parte do setor de tecnologia moderno foi construído, é simples: empresas iniciantes arrecadam capital de investidores e usam o dinheiro para crescer agressivamente.

O objetivo final é vender a companhia ou abrir seu capital, produzindo retornos espantosos para os investidores iniciais. Essa estrutura gerou nomes conhecidos de todos, como Facebook, Google e Uber, bem como centenas de outras empresas definidas como unicórnios, com avaliações de mercado superiores a US$ 1 bilhão.

Mas, para cada unicórnio, há incontáveis startups que cresceram rápido demais, queimaram o capital investido e morreram.

Agora, um movimento oposto, liderado por empreendedores que rejeitam as regras tradicionais, está refutando esse modelo. Embora essa parte da comunidade das empresas iniciantes ainda seja pequena, no ano passado os fundadores de startups participantes do movimento começaram a expressar sua oposição de maneira mais firme.

“A ferramenta do venture capital é muito específica de uma minúscula, minúscula fração das companhias. Não podemos nos deixar iludir e acreditar que ela represente o futuro do empreendedorismo americano”, diz Mara Zepeda, 38, que ajudou a criar uma organização chamada Zebras Unite. 

Seus membros incluem fundadores de startups, investidores e fundações cujo foco é encorajar um setor mais ético e com maior diversidade racial e de gênero. A organização tem 40 filiais e 1.200 membros em todo o mundo.

Algumas das organizações que estão rejeitando o venture capital o fazem por terem sido excluídas das redes tradicionais desse setor.  Aniyia Williams, que criou a Black & Brown Founders, uma organização sem fins lucrativos, diz que um sistema bancado pelo venture capital, que encoraja muitos fracassos para cada sucesso, é especialmente injusto para com os fundadores negros, latinos e mulheres, "que raramente recebem a oportunidade de fracassar, ponto". 

Outros fundadores de startups decidiram que as expectativas que acompanham a obtenção de capital fazem com que o processo não valha a pena. É um jogo de apostas pesadas, no qual as empresas tipicamente são ou sucessos enormes ou fracassos quase completos.

No momento, o combustível do setor de venture capital parece ilimitado. Seus investimentos em empresas sediadas nos Estados Unidos dispararam para US$ 99,5 bilhões em 2018, o maior valor desde 2000, de acordo com a empresa de pesquisa CB Insights. E se expandiram para além do software e hardware e rumo a áreas adjacentes à tecnologia.

Mas pessoas como Sandra Oh Lin, presidente-executiva da KiwiCo, que vende kits de atividades para crianças, dizem que mais dinheiro não é necessário. Oh Lin arrecadou pouco mais de US$ 10 milhões do setor entre 2012 e 2014, mas vem rejeitando novas rodadas de capitalização, agora que sua empresa tem um produto de sucesso.

“Somos agressivos quanto ao crescimento, mas não somos uma companhia que busque o crescimento a todo custo”, ela afirmou. “Queremos uma empresa duradoura.”

Os empreendedores estão até encontrando maneiras de restituir dinheiro recebido de fundos de venture capital. A Wistia, uma empresa de software para vídeo, emitiu títulos de dívida para comprar participações de investidores, declarando seu desejo de buscar crescimento sustentável.

Em setembro, Tyler Tringas, 33, um empreendedor radicado no Rio de Janeiro, anunciou planos para oferecer um tipo diferente de financiamento a empresas iniciantes, em forma de investimentos de capital que a empresa pode amortizar com uma porcentagem de seus lucros. 

Ele recebeu centenas de emails desde o anúncio, disse Tringas. “As mensagens vêm quase todas de pessoas que presumiam que não existe uma forma de capital que atenda a qualquer versão de suas expectativas”, disse.

A Earnest Capital se soma a uma lista crescente de empresas que oferecem aos fundadores de startups maneiras diferentes de obter dinheiro. Muitas usam variações de um modelo que vincula empréstimos às receitas ou lucros da empresa beneficiária. 

Alguns profissionais de venture capital aplaudem a mudança; seu estilo de investimento de alto risco não é o certo para muitas empresas. 

Em um post recente, a Founder Collective, administradora de venture capital, alertou fundadores de empresas sobre os perigos do modelo tradicional de capitalização. “O venture capital não é ruim, mas é perigoso”, o post diz. A empresa criou brochuras com informações cautelares para as empresas em que investe.

Tradução de Paulo Migliacci

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