Empresários criam padaria, oficina sensorial e academia para bebês

Serviços de aprendizagem voltados para crianças se expandem com divulgação entre os pais

Crianças sentadas no chão mexendo em pote com lentilhas
Crianças em aula de exploração sensorial no espaço Cadê Bebê, no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo - Karime Xavier/Folhapress
Ana Luiza Tieghi
São Paulo

Nunca é tarde para aprender. Empresas, hoje, querem mostrar que também nunca é cedo demais. 

De olho e um público de pais com recursos e medo de não conseguir oferecer o aprendizado adequado para seus filhos, crescem negócios voltados ao desenvolvimento motor e intelectual de bebês

Criado há cinco anos no Itaim Bibi (zona oeste de São Paulo), o espaço Cadê Bebê oferece oficinas para crianças do nascimento aos seis anos. A cada dia, entre 20 e 30 pequenos alunos fazem aulas de exploração sensorial —nas quais tocam objetos, se sujam e experimentam legumes— de musicalização e até de capoeira.

Não se trata, porém, de uma espécie de creche. "Até os três anos, a criança não fica sem a presença do cuidador, seja a mãe, o pai, a avó ou a babá", diz Ghislaine Dubrule, diretora de administração do espaço. "É uma escola de bebês."

A aula avulsa custa R$ 119, mas o valor cai com a compra de pacotes com várias sessões.

Proposta similar tem a Baby Gym, franquia que, apesar do nome, não promove aulas de musculação para crianças, e sim atividades para o seu desenvolvimento psicomotor. O público alvo vai de dois meses a quatro anos, sempre acompanhado pelos pais. 

A rede, de Porto Alegre, nasceu depois que o fisioterapeuta Lucas Silva, 37, e sua esposa, Laura, voltaram ao Brasil após dez anos fora e não acharam um local para o filho, de sete meses, fazer atividades que ajudassem em seu desenvolvimento. "O mercado deu essa brecha e nós aproveitamos." 

Silva conta que 80% dos clientes têm até dois anos, faixa etária de pouca concorrência com creches e escolas.

A primeira unidade da Baby Gym foi inaugurada em 2014 e, em março do ano passado, o negócio passou a ser franquia. O crescimento é rápido: serão 20 unidades no final deste mês e 30 até o fim do ano.

O valor das aulas muda conforme a unidade, mas o plano anual, que dá direito a quatro aulas mensais, sai por cerca de R$ 170 ao mês.

Para Adriano Campos, consultor do Sebrae-SP, dois fatores ajudam a explicar o sucesso de negócios do tipo. 

Como as pessoas hoje tendem a ter menos filhos, têm mais dinheiro para gastar com coisas que, anos atrás, não eram consideradas essenciais. "Elas aceitam pagar por aquilo que antes achavam que a criança aprenderia sozinha", diz Campos. 

A maior escolarização dos pais também influi. "Quanto mais informação você recebe, mais medo tem de não oferecer algo adequado para o desenvolvimento do bebê." 

Criado por três amigos em 2014, o clube de assinatura de livros infantis Leiturinha surgiu de uma demanda de seus criadores, pais que já gostavam de ler para os filhos. 

"Era um hábito que vai além da leitura, envolve vínculo e carinho", diz Rodolfo Reis, 37, diretor de negócios e um dos fundadores da empresa, que atende de recém-nascidos a crianças de 10 anos. 

As crianças que não sabem ler recebem livros com texturas, cores e sons. "Temos mães que assinam e o filho ainda nem nasceu. Fazem isso porque sabem que a relação começa antes do nascimento", diz Reis. Hoje, o serviço tem 150 mil assinantes.

Para os pais, a alimentação também é cada vez mais fonte de cuidados. Foi nesse ramo que a administradora Gabriela Suleiman, 31, viu uma oportunidade para empreender.

Ela parou de trabalhar quando seu filho nasceu, mas sentiu falta de ter uma atividade profissional. Como já fazia pequenos pães de legumes, teve a ideia de anunciar o produto em um grupo de mães em uma rede social. Deu certo.

"Uma mãe falava para a outra e começaram a vir mais pedidos. Ficamos três meses em casa, até que não dava mais e fomos para uma cozinha profissional", conta. 

Há quase dois anos ela comanda a Padaria dos Bebês, com uma sócia e dois funcionários. As receitas utilizam vegetais orgânicos "sempre que possível", não têm açúcar e algumas levam polvilho no lugar da farinha de trigo. 

"Colocamos muitos legumes, então o bebê sente a textura, o sabor e o cheiro do alimento, o que ajuda na formação do paladar", diz. 

A empresária vende os pães congelados em sua loja na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, e pela internet. Por mês, são comercializados cerca de 580 quilos de pães e bolos. 

A administradora diz que grandes empresas começaram a fazer algo parecido, mas ainda há pouca concorrência.

Homem de camisa social e jeans sentado
Rodolfo Reis, em escritório em São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

Na opinião do pediatra Francisco Frederico Neto, do hospital Sírio Libanês, é preciso ter cuidado com modismos. Uma alimentação saudável na infância ajuda a prevenir doenças crônicas, mas, se a criança não tiver restrições alimentares, não é preciso cortar o glúten, por exemplo.

Negócios que promovem o desenvolvimento motor e intelectual de bebês são positivos, afirma, mas têm efeito limitado em seu avanço. 

"Se os pais têm oportunidade de participar de uma atividade de estimulação, ótimo. Se não podem, a criança vai se desenvolver normalmente."

Para quem quer empreender na área, Adriano Campos, do Sebrae, alerta que há mais cuidados necessários do que em negócios de outras áreas. Antes de abrir a empresa, é essencial se consultar com especialistas em bebês, como pediatras e pedagogos.

Saber lidar com pais é ponto primordial para o sucesso da empresa. A Leiturinha, por exemplo, tem uma equipe que atenta às reclamações sobre o conteúdo dos livros. Cada título selecionado também recebe um parecer que explica a razão da escolha e o propósito da leitura.

"Os profissionais precisam ser capacitados e qualificados porque, com esse público, não pode haver erros", diz Campos.

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