Materiais descartados ganham vida nova por meio de negócios criativos

Empresas de moda e decoração transformam resíduos em produtos de maior valor agregado

Ana Luiza Tieghi
São Paulo

Dar um novo uso para materiais condenados ao lixo é o mote de empresas que fazem upcycling. 

Diferente da reciclagem tradicional, que transforma o resíduo em algo com valor menor do que tinha antes, o upcycling faz com aquilo que é descartado um produto que pode ser vendido por um preço mais alto.

O conceito é mais comum na moda, setor que joga fora, a cada segundo, pelo mundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de tecidos, segundo dados de 2017 da fundação Ellen MacArthur. 

"São toneladas de sobras. Entre 7 e 15% do tecido cortado para fazer uma roupa vai para o lixo, isso se o corte for bem feito", afirma a estilista uruguaia Agustina Comas, que vive há 15 anos em São Paulo e é dona de uma marca com seu sobrenome. 

Mulher com roupa jeans sentada sobre mesa
A estilista uruguaia Agustina Comas, no ateliê da marca que leva seu sobrenome, na Vila Indiana, zona oeste de São Paulo - Adriano Vizoni/Folhapres

Na empresa, ela cria peças novas a partir de camisas masculinas descartadas por defeitos de fabricação e de sobras da produção têxtil. 

Trabalho parecido faz a Re-Roupa, marca paulistana que produz itens a partir de roupas de segunda mão compradas em bazares e brechós. 

Nas mãos da empresária Gabriela Mazepa e de sua equipe, uma camisa usada vira, por exemplo, uma saia ou uma camiseta. Essa produção é vendida na loja da marca, no centro de São Paulo. Neste mês será aberta outra unidade, em Pinheiros, na zona oeste. 

Prolongar a vida útil de um material não acaba com o problema da geração de resíduos, porque o produto irá para o lixo em algum momento, mas é importante para diminuir a compra de peças novas, afirma Maria Augusta Miglino, consultora do Sebrae. 

Ela ressalta que é mais fácil utilizar o upcycling em negócios menores, que não precisam alimentar uma grande linha de produção e se adaptam mais facilmente a mudanças no fornecimento.

Uma solução para trabalhar em escala maior é fazer parcerias com negócios grandes, o que dá acesso aos materiais que essas companhias, de outra forma, descartaria. A Re-Roupa, por exemplo, utiliza lotes com sobras de coleções antigas de marcas maiores, como a carioca Farm, e as converte em peças que são depois vendidas por essas empresas.

Trabalhar com resíduos de consumidores dificulta a produção em grande escala e a padronização dos materiais, necessária para produzir um objeto em série.

Esse desafio de fazer upcycling pós-consumo e em grande quantidade, porém, foi encarado pela Rivesti, empresa que produz pastilhas para revestimento de paredes a partir de garrafas pet recicladas. 

A cada mês a fábrica utiliza cerca de 200 mil garrafas, que chegam das cooperativas de reciclagem em flocos. Esse plástico corresponde a 85% da composição das pastilhas. 

A empresa nasceu em 2010, mas começou a operar em 2014. Foram necessários quatro anos para criar o produto e desenvolver uma linha de produção capaz de fabricá-lo. 

Apesar de ter uma matéria-prima mais barata do que o vidro e a cerâmica, geralmente usados na produção de pastilhas, o custo de produzir com o plástico reciclado é mais alto. Isso ocorre porque a produção exige maquinário mais avançado e a composição das pastilhas conta com pigmentos e aditivos importados.

O custo também é maior para as marcas de roupas, que precisam ter pessoal especializado para costurar as peças. 

"A decisão de trabalhar com material reaproveitado não deve ser motivada pela redução de custos, mas pelo impacto ambiental", afirma Rafael Sorano, fundador da Rivesti.

Segundo o empresário, a empresa consegue ter um preço competitivo porque não desperdiça matéria-prima e tem produtividade alta, o que compensa os custos elevados. "Competimos com uma indústria que produz da mesma forma há cem anos", afirma.

Quando começou a fábrica, ele tentou vender seus produtos para varejistas de materiais de construção, mas encontrou resistência, por se tratar de um produto de plástico reciclado. O jeito foi investir na venda direta ao consumidor, por ecommerce e lojas de fábrica. A empresa tem crescido 50% ao ano, segundo Rafael, e começou neste ano a exportar para a Europa. 

A venda por ecommerce era também o plano da arquiteta curitibana Ligia Ferreira, que lançou em abril de 2018 a marca de acessórios Pablita. 

Ela faz colares, brincos e anéis com pastilhas de vidro usadas em revestimentos, que ou sobram de catálogos de fabricantes e obras, ou são vendidas a preços baixos por lojas de material de construção por terem algum defeito.

Esse modelo de negócio, no entanto, dificulta a venda pela internet: como Ligia não consegue obter várias pastilhas iguais, faz poucas peças de cada modelo.

"Eu comecei a marca pensando em fazer só um ecommerce. Mas mudei o foco porque às vezes faço só duas peças do mesmo modelo, não compensa o trabalho de fotografar e cadastrar no site", diz.

Por isso, ela só comercializa algumas bijouterias pela internet. A maior parte das vendas acontece em pontos físicos, como nas lojas de souvenir do Museu Oscar Niemeyer e da Ópera de Arame, em Curitiba, onde ela expõe seus produtos. 

A Pablita produz cerca de 200 peças por mês e já é o trabalho principal de Ligia. Ela, que antes fazia sozinha todas as peças, tem hoje três funcionárias dedicadas a fabricar os acessórios. 

Em comum com os outros empresários que fazem upcycling, Ligia tem o objetivo de que suas peças sejam atraentes não por usar materiais reaproveitados, mas pelo visual e pela qualidade.

Segundo os empresários, o público que consome roupas e acessórios feitos com material reaproveitado ainda é aquele ligado a moda e sustentabilidade, mas isso está mudando. "Hoje as pessoas estão muito mais abertas a essas peças", diz Agustina. 

Para ela, o principal desafio das marcas que fazem upcycling é a sua popularização. A natureza do produto impede a ampliação do ecommerce, e as vendas presenciais são feitas ou em lojas de outras marcas ou em feiras de produtos artesanais.

"Pelo visual, essas coisas poderiam ser consumidas por qualquer público", diz Maria Augusta, do Sebrae. 

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