Oficinas mecânicas crescem com crise na indústria automotiva

Donos tiram a mão da graxa e começam a investir na gestão do negócio

Eduardo Sodré
São Paulo

A venda de carros novos no Brasil registrou um de seus piores momentos no período de 2014 a 2016. Houve uma queda de 30,7% nos emplacamentos entre esses anos, segundo a Fenabrave (associação das concessionárias). Por outro lado, a crise gerou oportunidades para oficinas mecânicas, que viram seu público crescer.

Segundo o Sindirepa, entidade que representa os reparadores, o movimento cresceu entre 10% e 15% na comparação entre 2016 e 2017, e a tendência de alta vem sendo mantida. Contudo, o faturamento bruto do setor não aumentou nesse período.

“As oficinas passaram a receber um cliente não muito habitual, que quer gastar menos, fazer apenas os reparos indispensáveis. Não tem preocupação com a manutenção preventiva”, diz Antonio Fiola, presidente do Sindirepa.

Bruno Tinoco, dono da oficina Motorfast, que fica no Brooklin, zona sul de São Paulo
Bruno Tinoco, dono da oficina Motorfast, que fica no Brooklin, zona sul de São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress

Para transformar o movimento em lucro, empresários do setor deixaram as ferramentas de lado, se tornaram gestores e modernizaram suas lojas.

Marcelo Navega enxergou que o mercado estava prestes a mudar no fim dos anos 1990, quando os sistemas de injeção eletrônica de combustível se popularizaram. Foi nessa época que comandou a primeira grande virada da oficina que leva seu sobrenome e foi fundada pelo pai em 1968.

Sua loja fica em Moema (zona sul de São Paulo) e preserva ares de mecânica de bairro. “Estão começando a surgir algumas oficinas com padrão maior, com cara de concessionária, mas o investimento é alto”, diz Navega. Seu foco está nas redondezas, com um atendimento mais personalizado.

Com o aumento da procura pelos serviços de reparo nos últimos quatro anos, Navega se dedicou à área estratégica e começou a se especializar no atendimento de automóveis mais caros e luxuosos.

“Com as alternativas de transporte por aplicativo, muitos deixaram de usar carros. Por isso focamos hoje em um padrão mais elevado, em modelos que são usados por pessoas que não utilizam o transporte público.”

Fiel a seu plano de negócio, a oficina de Marcelo Navega tem faturamento anual na faixa de R$ 1,8 milhão e emprega 12 funcionários. Ele afirma que só foi possível manter a lucratividade devido ao cuidado na administração.

“Ainda há um bom mercado para reparadores, mas muitos querem abrir uma oficininha sem um administrador dedicado, não funciona. Se estiver preocupado com outras coisas, não tem tempo de administrar e a empresa vai pro vinagre”, afirma.

Bruno Tinoco também assumiu a oficina aberta por seu pai, a Motorfast, que fica no Brooklin (zona sul de São Paulo). O negócio começou no fim da década de 1990 e ganhou estrutura de empresa em 2011. De lá para cá, o faturamento triplicou.

“Resolvemos mudar porque o mercado de manutenção não ia bem, as vendas de carros novos estavam bombando. Aí começamos a cativar o cliente, fidelizá-lo”, diz Tinoco.

Além dos serviços de manutenção e revisão, o dono da Motorfast oferece assessoria para compra e venda de carros. Os clientes são variados: em um mesmo dia, havia um popular Renault Clio fazendo manutenção básica e uma rara limusine BMW 750iL 1996 com problemas na suspensão traseira.

Tinoco afirma que a oficina vinha trabalhando no limite desde 2015, o que o motivou a expandir o negócio. Ele alugou o terreno ao lado e está construindo uma expansão da Motorfast, que vai dobrar de tamanho. Com a ajuda de uma linha de crédito do BNDES, investe R$ 170 mil em obras e maquinário.

A empresa tem nove funcionários e Tinoco planeja mais quatro contratações, mas a dificuldade maior é encontrar mão de obra qualificada —inclusive a necessária para tocar a ampliação do estabelecimento.

“Fiz alguns orçamentos para a obra, optei pelo mais barato e isso levou a muitos problemas. Tive que mudar, hoje está ok, mas já havia perdido tempo e dinheiro.”

Tanto Tinoco como Navega dizem acreditar que os negócios devem continuar a crescer nos próximos anos devido ao grande número de carros em circulação. A meta de ambos é fidelizar o maior número possível de clientes por meio de um atendimento transparente.

A estratégia é acertada. De acordo com o Sebrae-SP, 80% dos proprietários de veículos recorrem a oficinas com as quais desenvolveram uma relação de confiança na hora de realizar a manutenção. 

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