Ideia só pode virar negócio se for aprovada por consumidor real

Processo, chamado de validação, serve para adaptar produto ou serviço

São Paulo

Antes de investir tempo e dinheiro num novo negócio, o empreendedor precisa saber se sua ideia é viável. Para isso existe o processo de validação, no qual o empresário testa seu futuro produto, prospecta fornecedores, avalia custos e leva em consideração a resposta dos clientes

“A validação serve para minimizar riscos. O maior deles é se dedicar meses a construir um projeto e no fim descobrir que não há mercado consumidor”, diz Maurício Benvenutti, fundador da Startse, empresa de educação executiva com foco na nova economia.

Durante o período, o empreendedor deve identificar suas incertezas —ou seja, o que não sabe sobre o mercado—, priorizá-las, testar suas hipóteses, avaliar os resultados e, se esses forem insatisfatórios, fazer ajustes ou mesmo redefinir sua ideia. A recomendação é de Maximiliano Carlomagno, sócio-fundador da consultoria Innoscience.

Outro ponto importante da validação, segundo Victor Lino, analista do Sebrae-SP, é evitar testar o produto com familiares ou amigos. “Essas pessoas tendem a achar que tudo está bom, querem te ajudar. Não vão ser depoimentos sinceros sobre sua ideia porque são enviesadas”, afirma. 

Flávia Piza de Araújo, 26, dona do ecommerce Maria Carmosa, em seu apartamento em SP 
Flávia Piza de Araújo, 26, dona do ecommerce Maria Carmosa, em seu apartamento em SP  - Lucas Seixas/Folhapress

A empresária Flávia Piza de Araújo, 26, sempre quis ter uma marca de roupas. Sua ideia inicial era desenhar, fabricar e vender as peças no varejo, com uma loja física.

Logo no início do processo de validação, procurou parceiros para a produção própria e percebeu que ainda não tinha o capital disponível para que o negócio seguisse esse rumo. 

Pensou em comprar roupas em atacado e só revendê-las. “Percebi que assim cortaria muitos gastos, mas competiria com pessoas que já estão no mercado sem entregar nada novo”, conta. Ela redesenhou então o modelo pela segunda vez. Nesta, mudou inclusive o que venderia.

“Surgiu a ideia de começar com acessórios. Conhecia fornecedores e também era algo de que sempre gostei. Vi que era viável para o primeiro negócio, principalmente se fosse ecommerce”, diz. 

Após a remodelagem, a empresária abriu em agosto a Maria Carmosa, loja online de colares, brincos e outros acessórios. Para tal, investiu cerca de R$ 5.000. No começo, vendeu em média 70 peças por mês. 

“A ideia de ter minha própria marca de roupas não morreu, mas aprendi que você não pode se jogar de cabeça. Tem de ir aos poucos, fazer testes, ver o mundo real. Se eu fosse um pouco mais teimosa, provavelmente teria quebrado a cara”, afirma. 

A oncologista Alessandra Morelle, 46, passa por um processo de adaptação do seu produto, o aplicativo Tummi. 

A plataforma serve para pacientes com câncer monitorarem seu tratamento quimioterápico. Eles apontam o que estão sentindo e recebem um feedback sobre quão grave é determinado sintoma. Tudo pode ser acompanhado pelo médico da pessoa em questão.

“Quando o paciente é acompanhado remotamente, as idas à emergência caem em média 30%”, diz Morelle.

O projeto começou há um ano e meio e foi divulgado primeiro entre pacientes. Teve mais de 2.000 downloads espontâneos. Na evolução do aplicativo, esse público contribuiu para melhorar a plataforma, tornando sua linguagem mais simples e seu design mais amigável. 

A modificação maior veio na hora de vender a ideia, quando Morelle buscou clínicas e hospitais, responsáveis por monetizar o negócio. 

A oncologista percebeu que não bastava firmar parcerias. Para que a ideia funcionasse, foi necessário fazer um projeto junto com as instituições, delegando funções dentre a equipe médica. “A gente achava que eles entenderiam facilmente, mas percebemos que teríamos de ensinar absolutamente tudo sobre como operar a plataforma.”

Outra mudança importante  feita durante o processo de validação foi deixar de oferecer a plataforma de graça pelos primeiros três meses. 

“Por não ter que pagar, víamos que eles não se comprometiam. O sistema estava lá, mas ninguém dava muita bola”, relembra a empresária. Para instituições de saúde, o Tummi custa R$ 12 por paciente mensalmente.

No futuro, Morelle quer expandir a atuação da plataforma para outras doenças. A empresa, que atualmente emprega seis pessoas e segue no seu processo de validação, projeta crescer 50% nos próximos dois anos. Ainda não há previsão de faturamento. 

Segundo Rubens Massa, professor e coordenador no centro de empreendedorismo e novos negócios da FGV, os empresários têm pouca chance de sucesso se não conseguirem fazer o que a validação lhes proporciona na prática: unir o que é viável e desejável para o empreendedor a o que seu público-alvo precisa.

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