Consumidor paga mensalidade para ter acesso a guarda-roupa coletivo

Compartilhamento de peças atrai quem busca renovar o estilo sem prejudicar o ambiente

São Paulo

Impulsionadas pelo consumo sustentável, lojas físicas e virtuais apostam em um modelo de negócio que trata o vestuário como serviço, não como mercadoria.

A proposta desses negócios é funcionar como um grande guarda-roupa compartilhado. Ao pagar uma assinatura mensal, o cliente leva para casa peças do acervo por um período estabelecido.

Essas empresas buscam atender a um público que quer sempre renovar o estilo, sem que isso pese tanto no bolso —ou na consciência.

Flávia Nestrovski, uma das sócias da Roupateca, em Pinheiros, na zona oeste de SP
Flávia Nestrovski, uma das sócias da Roupateca, em Pinheiros, na zona oeste de SP - Bruno Santos/Folhapress

Pioneira no setor, a Roupateca foi criada em 2015 pela dupla Flávia Nestrovski e Daniela Ribeiro. O acervo da marca, no bairro de Pinheiros (zona oeste de São Paulo), reúne 1.500 peças, entre roupa e acessórios. Neste ano, passou a oferecer uma linha plus size.

A assinatura mensal mais barata custa R$ 100 e dá direito a retirar um item por vez, que deve ser devolvido na loja em até 15 dias. Mas, durante esse mês, a cliente pode trocar de peça quantas vezes quiser.

No plano mais caro, de R$ 450, é possível alugar até sete produtos ao mesmo tempo. Há ainda as modalidades feitas em parceria com estilistas, caso de Flavia Aranha e de Thais Farage.

Neste ano, o número de assinantes dobrou em relação a 2018. Com o crescimento do negócio, as sócias pretendem lançar uma plataforma digital, com entrega em domicílio, até o fim de 2020.

“Quando começamos, falar em compartilhamento de roupa gerava estranhamento. Hoje, a gente sente que esse tema está sendo cada vez mais discutido e que as pessoas estão aceitando melhor a ideia”, afirma Flavia. 

Para ter sucesso nesse tipo de empreendimento, é importante investir em um acervo diversificado, que seja renovado sempre. O conjunto de peças deve ser bem pensado para atingir o público-alvo, afirma a empresária.

Também nesse segmento, a HOTD surgiu em 2018 para atender jovens das classes C e D que vivem na Grande São Paulo. 

As mensalidades custam a partir de R$ 59,90 —valor que permite receber em casa três peças por semana. Os assinantes escolhem as roupas pelo site da marca, que tem 1.200 itens disponíveis, tanto femininos quanto masculinos.

Todos foram comprados em outlets. Periodicamente, o acervo ganha novas peças —a partir de janeiro, serão mais de cem por mês.

A empresa recebeu um investimento inicial de R$ 60 mil, dividido entre os três sócios. Eles optaram também por captar recursos em programas de aceleração e prêmios.

A marca deve fechar o ano com cerca de cem assinantes, segundo Carlos Alberto, diretor-executivo. A meta para 2020 é chegar a 2.000 clientes e expandir o serviço para as regiões metropolitanas do Sudeste e do Sul do país, mantendo-se no ambiente digital.

Criada neste ano, a Ustyle também funciona em uma plataforma online, mas aposta em marcas conceituadas da moda brasileira, como Lilly Sarti e Wymann Rio. 

Para abrir a empresa, as três sócias fizeram investimento de R$ 200 mil. Os planos, que variam de R$ 299 a R$ 499, dão um crédito mensal aos assinantes. 

Cada peça é avaliada com um preço. O consumidor pode escolher os itens pelo site ou receber uma caixa surpresa, com uma seleção feita por uma personal stylist. Ao fim da locação, de 20 dias, a empresa faz a retirada na casa do cliente.

Hoje, a Ustyle atua na Grande São Paulo e em São José do Rio Preto. O próximo passo é ampliar a operação para mais cidades do estado, afirma Elisa Melo, uma das sócias. 

Outro projeto é abrir uma loja física para atender à demanda dos consumidores. Muitos deles dizem que gostariam de poder ver e experimentar as peças, ainda mais por serem usadas.

Essa, aliás, é a maior resistência a esse tipo de negócio. Um terço dos brasileiros rejeita o uso de roupas compartilhadas, segundo uma pesquisa realizada neste ano pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas.

Para 39% desses entrevistados, o que mais incomoda é a sensação de dividir com alguém um objeto pessoal. 

No entanto, o estudo, que ouviu 837 pessoas nas 27 capitais, também aponta que 33% dos respondentes afirmam alugar ou compartilhar itens de vestuário.

Mauricio Salvador, presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm), acredita que o setor de compartilhamento de bens deve expandir nos próximos anos no país. 

Como motivos, ele ressalta o apelo socioambiental desse modelo e a possibilidade de baratear o acesso a diferentes produtos, o que deve atrair uma parcela crescente dos consumidores.


33%
dos brasileiros afirmam alugar e compartilhar roupas

33%
rejeitam essa prática

39%
dos que desaprovam a ideia apontam como principal motivo a sensação de dividir com alguém um objeto pessoal

Fonte: SPC Brasil e CNDL

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