Lojas abrem mão de embalagens para conquistar o consumidor

Venda a granel, sacos de tecido e isopor de milho são alternativas para reduzir o descarte de plástico

Cristiane Teixeira
São Paulo

Não é só a origem dos produtos que tem interessado o consumidor brasileiro. O destino dos resíduos é cada vez mais importante para quem compra. 

O Indicador de Consumo Consciente de 2019, índice calculado anualmente pelo SPC Brasil, mostra que 83% dos brasileiros preferem itens em embalagens recicláveis. 

A mesma pesquisa revela também que, para 75% dos entrevistados, o compromisso do fornecedor com ações ambientais e sociais faz diferença na hora da compra.

Esse é o público-alvo da  Simple Organic, marca de maquiagem e cosméticos de Santa Catarina que utiliza somente matéria-prima orgânica e vegana em suas formulações. Os produtos são vendidos em embalagens simples de vidro ou de plástico, pensadas para facilitar a reciclagem.

Por fora dos potinhos, não há caixas. “Temos apenas um saquinho de tecido, que inclui a bula. Para mim, custa R$ 2 por unidade, contra alguns centavos da caixa de papel, mas pode ser reutilizado”, explica

Patrícia Lima, 40, que fundou a Simple Organic em 2017. A empresária diz não repassar o valor adicional para seus clientes.

“Nosso consumidor está de acordo com o propósito ambiental da marca e nos cobra coerência o tempo todo.”

Quem compra pela internet recebe o pedido em uma caixa de papelão fechada com fita adesiva de papel.

Dentro, em vez das habituais bolinhas de isopor, vão flocos de milho extrusados, biodegradáveis.

Esse produto, que se decompõe na natureza em até 180 dias, está entre as alternativas de bioplástico que a indústria desenvolve, afirma Vinícius Picanço, professor de operações e design sustentável do Insper. 

Ele conta que substituir o plástico por materiais mais sustentáveis é um dos pilares da reinvenção da embalagem, ao lado de desenhos inteligentes (com QR Code e realidade aumentada) e da reutilização dos resíduos como insumo para a produção.

A Simple Organic oferece desconto de 10% em nova compra para os clientes que devolvam a embalagem vazia na loja. O material é destinado à reciclagem.

Lima não revela o faturamento. Ela diz ter planos de abrir dez franquias neste ano.
As embalagens descartáveis também não são bem-vindas na cervejaria Tap Station Beer, em Moema, na zona sul. 

O endereço funciona como uma estação de recarga da bebida, onde garrafas e “growlers”, recipientes próprios para cerveja, são abastecidos.

“O cliente vem com o recipiente dele, abastece e leva para beber em casa nos próximos dias. Não precisa ficar pagando pela garrafa”, afirma Raphael Barbosa, o proprietário do espaço. 

Também é possível degustar as opções ali mesmo, na quantidade que se desejar —em copos de vidro, não de plástico. 

A Tap Sation vende a bebida por litro, em esquema de autosserviço. O litro de uma lager sai por volta de R$ 18, o de uma IPA, R$ 30.

“Isso permite às pessoas experimentar novos sabores sem medo de não gostar”, afirma Barbosa, que investiu R$ 250 mil no espaço, junto a quatro amigos. 

O pagamento é feito via cartões pré-pagos, emitidos pela própria cervejaria. O cliente registra quantos mililitros quer e aproxima o cartão da torneira para debitar o valor correspondente. A torneira libera e interrompe o fluxo automaticamente. 

Há somente cinco opções de cerveja nas torneiras. A variedade limitada garante o giro rápido e o frescor das bebidas. Quando acabam, novos sabores entram em cena, escolhidos exclusivamente entre produtores nacionais. 

Barbosa planeja para março a inauguração de uma segunda loja em São Paulo.

Na marca de chocolates Dengo, os itens a granel concentram mais de 50% das vendas. São as amêndoas de cacau, os quadradinhos de gianduia e o quebra-quebra, grandes placas de chocolate com frutas e castanhas partidas na frente do consumidor. O quilo dos chocolates custa a partir de R$ 200.

O cacau da Dengo vem do sul da Bahia e é plantado por mais de 150 produtores orientados para práticas de cultivo eficientes. 

Nas lojas, as guloseimas são pesadas na hora e colocadas em saquinhos de celofane (à base de celulose, não de plástico) ou embrulhadas em papel acoplado, que junta uma película de papel e outra de polietileno, indispensável como barreira antigordura. 

“O comércio a granel é coerente com os atributos da marca, que não usa gordura hidrogenada nem aromatizantes e prega a redução do consumo de açúcar”, diz Estevan Sartoreli, 38, presidente da marca fundada por Guilherme Leal, um dos acionistas da Natura. 

“O granel é a forma mais eficiente de reduzir o descarte, porque não gera descarte”, afirma Sartoreli, que não seu revela faturamento.

Nem todos os consumidores, contudo, aprovam o modelo. “Há clientes que não entendem, que reclamam que o saquinho de papel kraft é vagabundo ou que deixam de adquirir uma caixa de bombons porque acham a embalagem simples demais para um presente.”

De acordo com o professor Vinícius Picanço, é importante saber comunicar bem as estratégias de sustentabilidade da marca e suas motivações.

“É assim que os empreendimentos vão acessar outros públicos e explorar novos hábitos de consumo”, afirma Picanço. “Quem melhor fizer isso vai nadar de braçada na nova economia.”

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