Crédito para capital de giro ajuda empresário a enfrentar crise do coronavírus

Empreendedores devem cortar custos, negociar prazos de pagamento com fornecedores e adiar investimentos

Cristiane Teixeira
São Paulo

Nos últimos dias, o governo federal e alguns estados vêm anunciando a liberação de bilhões de reais para incentivar a economia e socorrer empresas impactadas pela diminuição dos negócios causada pela Covid-19, principalmente as de micro e pequeno porte.

“É esperada uma redução geral da atividade econômica, em especial nos setores de comércio e serviços”, afirma Carlos Melles, presidente do Sebrae. Entre os segmentos mais prejudicados no Brasil, estão, segundo ele, os negócios ligados a eventos, turismo, entretenimento e gastronomia. “Já agronegócios, imobiliárias, setor de veterinária e pet shop tendem a ter menor impacto”, continua.

O maior volume de dinheiro será disponibilizado para capital de giro, em linhas de crédito oferecidas pela Caixa Econômica Federal (R$ 150 bilhões no ano), Banco do Brasil, BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Banco de Brasília, Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e Desenvolve SP, instituição financeira do governo paulista.

“É um dinheiro para a empresa subsistir, pagar seus funcionários e fornecedores e manter um mínimo de estoque”, explica o doutor em finanças José Renato Jardim, professor da escola de negócios Saint Paul.

Para ele, medidas assim são bem-vindas, pois trazem liquidez e pretendem não deixar o pânico se instalar entre comerciantes, fabricantes e prestadores de serviço. “O governo entende que estamos vivendo uma situação inesperada, uma crise causada pelo coronavírus, e não quer que as empresas quebrem por falta de demanda”, avalia Jardim.

A Desenvolve SP vai disponibilizar R$ 200 milhões para capital de giro, com taxa de juros reduzida de 1,43% para 1,20% ao mês. O prazo de financiamento cresce de 36 para 42 meses, com carência de nove meses, contra os três meses praticados antes da pandemia.

Entidade de apoio a 6,5 milhões de micro e pequenas empresas, além de 10 milhões de MEI (microempreendedores individuais), o Sebrae considera que as medidas apresentadas pela Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional darão maior tranquilidade ao sistema financeiro. Entre elas, destacam-se a postergação de parcelas de dívidas e a renegociação de valores devidos.

Além de crédito para capital de giro, os bancos oficiais também aumentaram o dinheiro disponível para investimento, ampliaram o prazo de pagamento e, no caso de microcrédito, reduziram os juros. Especialistas em finanças alertam, porém, que ter cautela é fundamental.

O presidente do Sebrae concorda com a recomendação geral. “Se forem grandes as chances de o negócio ser impactado negativamente pela crise gerada pelo coronavírus, o empresário deve reavaliar sua decisão de investimento, aguardando um cenário mais claro.”

Na opinião de Jardim, é preferível que os empreendedores resistam à tentação das facilidades de crédito atuais e deixem para o próximo ano o investimento em projetos mais convencionais.

A exceção à regra cabe apenas em uma situação muito específica, segundo o professor da Saint Paul. “Só deve investir quem perceber a oportunidade para um negócio inovador, que resolva problemas que estamos vivendo devido ao coronavírus”, afirma.

Caso a questão seja pegar capital para alimentar o fluxo de caixa de uma empresa em funcionamento, aí é outra coisa. “É uma necessidade de capital de giro para manter as operações [...] e honrar os compromissos financeiros. Se não houver alternativa para corte de custos e despesas, acionar uma linha de crédito de capital de giro em condições favoráveis pode ser uma saída”, afirma Melles.

Apesar de concordar com as medidas tomadas pelo governo, ele sugere ações ainda mais contundentes: “Nesse período de postergação de pagamentos e alongamento das dívidas, defendemos que as taxas de juros deverão ser zero. Além de haver prazos suficientes para a retomada de cada atividade, entre seis meses e um ano”.

O Sebrae, por meio de parcerias firmadas com instituições financeiras públicas e privadas, promete ajudar as micro e pequenas a obter crédito, segundo Melles. “Nosso Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas, o Fampe, está buscando entendimento com acordos já feitos antes do coronavírus com o Banco do Brasil e a Caixa”, acrescenta.

Melles enfatiza que está em contato, ainda, com o BNDES, que tem parceria com bancos particulares como Bradesco e Santander. “Estamos discutindo diversas medidas para simplificar, instruir e facilitar o acesso ao crédito por parte dos nossos clientes.”

No desespero ou por falta de informação, há empresários que recorrem ao cheque especial, a crédito pessoal e ao rotativo do cartão de crédito para resolver necessidades urgentes. “Mas as taxas são elevadas e isso pode ter impacto significativo sobre o fluxo de caixa das empresas”, alerta o presidente do Sebrae.

“Em geral, o crédito do governo é o mais barato. O empresário não vai encontrar outras modalidades melhores que as do Banco do Brasil e da Caixa”, afirma Jardim. Para obtê-las, a empresa e seus sócios não podem estar endividados, é preciso ter um negócio sólido, manter boa relação com o banco e demonstrar como usará o capital de giro solicitado.

Melles completa: “O Sebrae pode auxiliar micro e pequenas empresas no trabalho de avaliação financeira, seja para a obtenção de crédito novo ou mesmo para a renegociação de dívidas existentes”. ​

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