Guga, Tande e outros atletas contam como experiência no esporte ajuda nos negócios

Esportistas empreendedores mostram como ampliam suas vitórias no universo das empresas

Fernanda Lacerda
São Paulo

Não é por acaso que ídolos esportivos fazem sucesso também como empreendedores e palestrantes em eventos corporativos. O atleta é uma empresa, um empreendedor do próprio corpo, como dizem a esgrimista Beatriz Bulcão e o nadador Gustavo Borges.

Assim como um empresário, quem se aventura no esporte de alta performance precisa de planejamento, metas, inovação, capacitação e colaboradores.

Quatro grandes nomes do esporte que também atuam no setor dos negócios mostram aqui que as experiências de um mundo podem ser úteis no outro.

Gustavo Borges

Ex-nadador segue caminho consistente fora das águas

Um dos principais nomes da natação brasileira, Gustavo Borges, 47, participou de quatro Jogos Olímpicos entre 1992 e 2001. Nesse período, acumulou medalhas de prata e bronze e se formou em economia pela Universidade de Michigan.

Em 2005, logo após se aposentar das piscinas, Borges começou o que é seu principal negócio até hoje: a Metodologia Gustavo Borges, referência na gestão e ensino de natação no Brasil. De acordo com a empresa, o método está presente hoje em mais de 400 estabelecimentos, entre academias, escolas, clubes, órgãos governamentais e ONGs. Tem ainda uma rede de academias que leva seu nome e é presidente da Associação Brasileira de Academias, além de dar palestras para empresas.

Borges aponta a consistência no longo prazo como um dos fatores fundamentais para alcançar um patamar acima da média, seja no esporte, seja nos negócios.

“Você tem que fazer um, dois, três anos, ou quatro ciclos olímpicos, como foi o meu caso. Quando você faz isso, no mínimo você vai ficar muito bom nessas coisas, seja marketing, gestão de pessoas ou técnicas de nado”, afirma.

O ex-atleta também tira da experiência com o esporte sua relação com a competição. “Competição faz parte do nosso DNA como atleta. Uma competição saudável, ética, que te leve para frente. Às vezes, a gente é tão competitivo que assusta algumas pessoas. Mas como isso vem muito naturalmente para nós, atletas, se você olhar a competição pelo lado virtuoso, não tem problema”, afirma.

Gustavo Kuerten

Na quadra e na empresa, propósito é fundamental

O ex-tenista Gustavo Kuerten, 43, fez história ao ocupar o topo do ranking da modalidade em 2000. A atuação empresarial, contudo, já havia começado cinco anos antes, quando seu irmão, Rafael, criou a Guga Kuerten Eventos Esportivos, negócio que ia desde o encordoamento de raquetes até a administração dos contratos do atleta.

Hoje, Guga empresta o nome a um conglomerado, o Grupo Guga Kuerten (GGK). A holding possui uma unidade de negócios para cuidar da imagem do ex-atleta (a Guga Kuerten Company), uma rede de franquias de escolas de tênis (a Guga Kuerten Franquias), um braço de investimentos voltado para o mercado imobiliário (a RGK Investimentos) e outro de participações em sociedades nos setores tecnológico e fitness (a Guga Kuerten Participações).

Na experiência do ex-tenista, propósito é um fator fundamental no esporte e nos negócios. “É graças ao propósito que você terá energia para buscar aquela bola no fundo da quadra ou aquela deixadinha.

Graças a ele você sempre retornará à disputa, não importam as dificuldades. E retornará para vencê-la”, diz.

Guga também destaca o papel da autoconfiança para encarar as dificuldades que aparecem pelo caminho.

“Passei por inúmeros desafios na minha carreira, mas essas dificuldades me deram confiança. Enfrentar o Sampras [Pete Sampras, ícone do tênis] foi um deles. Tive que me convencer: ‘eu vou ganhar desse cara’. O meu maior ídolo, o maior tenista de todos os tempos, mas, naquela hora, tinha que ser eu”, afirma.

Tande

Campeão está sempre de olho na concorrência

O ex-jogador de vôlei Tande, 49, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992), tem atuação destacada como empresário e palestrante. É dono de uma franquia da rede de restaurantes Spoleto, no Shopping Rio Sul (Rio de Janeiro), e tem participação na rede de academias Bodytech.

Uma das lições do esporte que aplica hoje é não relaxar diante do sucesso, permanecendo atento à concorrência. Quem relaxa será ultrapassado.

“Ganhávamos campeonatos, estávamos voando, mas, de repente, vinha uma equipe e engolia a gente. ‘O que que houve? Qual é o nosso problema?’ O problema é que deixamos de evoluir, achamos que tudo que tínhamos feito seria suficiente para mais dois anos. Não foi”, afirma Tande.

O ex-atleta também destaca o treinamento personalizado de talentos como uma experiência que carrega do esporte. “As pessoas têm que ver onde são melhores para entregar alta performance”, afirma.

É nesse ponto que entra o papel do empreendedor como líder. “O Bernardinho e o José Roberto Guimarães [ex-técnicos da seleção de vôlei] viam as melhores características de cada um para cada posição”, conta.

Tande tira da sua experiência com os técnicos seus modelos de liderança corporativa.

Independentemente do estilo, o fundamental, ao seu ver, é ter sensibilidade para identificar o que funciona com a sua equipe.

“Pode ser a forma de liderança de um Bernardinho, que cobra, que passa sua liderança pelas atitudes”, diz. Outro estilo é o de José Roberto Guimarães, “mais paizão, passional, que gosta de conversar”, diz Tande.

Beatriz Bulcão

Esgrimista planeja sua carreira com base em ciclos

A esgrimista Bia Bulcão, 26, já concilia sua carreira no esporte com uma atuação empresarial. Ao mesmo tempo em que busca se classificar para os Jogos Olímpicos de Tóquio, a atleta, a primeira brasileira a estar entre as seis melhores do mundo no ranking mundial da modalidade (2012/2013), dá palestras para empresas.

Bia diz que conta com uma equipe na qual estão distribuídos profissionais que cuidam de funções como marketing, assessoria de imprensa e busca de patrocínios, além do seu técnico e do preparador físico.

“O atleta tem que funcionar como uma empresa. Na hora da competição, é ele quem aparece, mas existe toda uma estrutura por trás”, afirma.

A carreira da esgrimista é administrada como se fosse uma companhia. Ela organiza seu planejamento seguindo micros e macrociclos: os primeiros englobariam os planos de curto prazo, e, os últimos, os objetivos de longo prazo. Ambos, no entanto, precisam ser pensados de uma maneira integrada.

“Os Jogos Olímpicos, o ciclo de quatro anos, é o ciclo principal, mas existem outras etapas competitivas dentro dele que são importantes”, diz ela. “Você tem que estar focado em cada dia, pensar no seu objetivo em cada treinamento, em cada competição, para você chegar na sua meta principal no final”, diz.

A atleta trabalha ainda com relatórios semanais, que ela mesma escreve.

Ela utiliza o método para avaliar seus treinamentos e identificar os pontos que precisa reavaliar e aperfeiçoar.

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