Demitir funcionário durante a crise do coronavírus pode resultar em mais gastos depois

Alternativas como antecipar as férias dos empregados devem ser cogitadas antes

Gabriela Zocchi
São Paulo

Demitir funcionários parece ser a única saída para muitos empreendedores em momentos de crise. A medida, porém, pode trazer prejuízos a médio prazo.

André Makoto (à dir.), sócio do Malibu Park, com o chef da casa Marcio Garcia, 38, (ao centro) 
e Eduardo Evaristo, 26, gerente, no salão do restaurante na Aclimação, em SP
André Makoto (à dir.), sócio do Malibu Park, com o chef da casa Marcio Garcia, 38, (ao centro) e Eduardo Evaristo, 26, gerente, no salão do restaurante na Aclimação, em SP - Keiny Andrade/Folhapress

“Se o empregado não tem alto nível de qualificação e não ganha um salário alto, demiti-lo pode ser uma opção para manter a sustentabilidade da empresa”, diz Denise Delboni, advogada e professora da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Já em setores que exigem mão de obra superqualificada, difícil de ser treinada, o ideal é pensar em alternativas para não demitir. “Quando a crise passar, o empreendedor vai precisar da competência de seus funcionários”, explica a especialista.

Essa regra vale principalmente para o comércio, que teve seu funcionamento afetado pelo avanço do coronavírus. “Muitos negócios poderão retornar à normalidade quando tudo isso passar. Outros setores, porém, vão demorar mais para voltar, como é o caso do turismo”, afirma.

Para a professora, empresas que fazem parte desse último grupo terão dificuldades de se manter sem demitir.

“A companhia não sabe se vai estar viva amanhã, como vai fazer algum acordo com seus empregados?”

Mesmo assim, antes de dispensar funcionários é possível recorrer a outras alternativas, diz Sandra Fiorentini, consultora do Sebrae-SP. “A primeira possibilidade é antecipar as férias dos empregados.”

O empresário tem esse direito e, pela medida provisória 927, que estabeleceu mudanças nas leis trabalhistas durante a pandemia, o adicional correspondente a 1/3 das férias pago pela empresa poderá ser depositado até 20 de dezembro. “Além disso, também é sugerido antecipar banco de horas e feriados.”

Outra saída é reduzir de 25% a 70% jornadas e salários, como o previso pela MP 936, ou ainda suspender o contrato de trabalho neste período.

“Uma última alternativa pode ser buscar auxílio nas linhas de crédito para financiamento da folha de pagamento”, afirma Fiorentini.

Se, mesmo depois de tudo isso, o empresário ainda precisar demitir, alguns critérios podem ser seguidos para ajudar na decisão de quem cortar.

A qualificação do profissional e o custo que a demissão pode causar à empresa são pontos a serem analisados. Outra forma de selecionar quem fica é escolher aqueles que são mais dependentes financeiramente do trabalho.

O empresário André Makoto, 42, sócio do restaurante Malibu Park, no bairro da Aclimação, em São Paulo, precisou demitir dois garçons e dispensar outros dois funcionários que estavam em fase de experiência.

Ele optou por manter apenas a equipe da cozinha e do bar.

“Tivemos uma queda de 50% de clientes já na semana que antecedeu a quarentena”, diz.

André também reduziu o consumo de energia e renegociou o valor do aluguel e de contratos com seus fornecedores.

Ele ainda aumentou a oferta de pratos em aplicativos de entrega. Mesmo assim, o faturamento, que antes estava na casa dos R$ 150 mil por mês, foi reduzido para cerca de um sexto do valor.

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