Salões de beleza ensinam cliente a arrumar o próprio cabelo

Empresários temem baixa procura após reabertura e criam serviços remotos

Cristiane Teixeira
São Paulo

Tingir os cabelos e fazer penteados em casa, seguindo as orientações online de profissionais, são novos hábitos que devem perdurar no Brasil após a reabertura de salões e barbearias.

Na rede Studio W., funcionários têm oferecido cursos e consultorias gratuitas sobre coloração e maquiagem. Foi implementado também um sistema de venda e entrega rápida de produtos para uso profissional, afirma a diretora, Rosangela Barchetta.

É importante que essas práticas sejam mantidas pelos estabelecimentos após a flexibilização do isolamento social, segundo Andrezza Torres, coordenadora nacional do Sebrae na área de beleza.
"No Brasil, a venda da chamada linha de home care representava entre 5% e 8% do faturamento dos salões antes da quarentena. Em outros países chega a 20%", diz.

Ao continuar investindo nos serviços remotos, os donos dos negócios ficarão menos dependentes da presença física do cliente. "Existe uma demanda reprimida por serviços que será atendida logo nas duas primeiras semanas de funcionamento. Depois, prevemos que haverá uma queda na procura", alerta Andrezza.

Para Richard Klevenhusen, consultor da ABSB (associação do setor), é provável que num primeiro momento a clientela retorne ao salão para fazer serviços rápidos, pensando em reduzir o risco de exposição ao vírus.

Por isso, além de cumprir os procedimentos de segurança, proprietários devem comunicá-los com clareza aos fregueses —será exigido agendamento prévio, uso de máscara, distanciamento das cadeiras e desinfecção dos utensílios.

Cresce procura por cosméticos para a pele e os olhos

Além do aumento significativo na procura por coloração de cabelo neste período, a L'Oréal Brasil detectou ainda um avanço da categoria de produtos para cuidados faciais.

As vendas de rótulos da La Roche-Posay e da Vichy cresceram 395% por meio do Dermaclub, plataforma que beneficia assinantes com descontos em dermocosméticos, diz Patricia Borges, executiva de marketing da companhia.

"Os consumidores passaram a dar mais valor a produtos para cuidados com a pele, seja para protegê-la da luz emitida por smartphones e computadores, seja para ter um momento de bem-estar", afirma Amanda Caridad, analista sênior de beleza e cuidados pessoais da Mintel.

Na Simple Organic, marca catarinense de cosméticos orgânicos aberta em 2017, a participação dos produtos de "skin care" na receita pulou de 50% para 70%. Nunca foram vendidas tantas loções de limpeza e fórmulas para reduzir manchas, segundo a fundadora, Patrícia Lima, 40.

A empresária Patrícia Lima, fundadora da Simple Organic, marca de cosméticos e maquiagem que reduziu as embalagens
A empresária Patrícia Lima, fundadora da marca de cosméticos orgânicos e veganos Simple Organic - Divulgação

"A doença e os efeitos da quarentena sobre o meio ambiente reforçaram tendências já encampadas por nós, como a preocupação com o que se coloca no próprio corpo e com o impacto da ação humana sobre o clima", diz ela.

A marca só utiliza matérias-primas veganas em sua linha de produção e embalagens recicláveis ou reutilizáveis.

Enquanto os cremes ganharam lugar na sacola de compras, a maquiagem ficou na gaveta, resultado da queda do movimento nas ruas e do uso de máscaras de proteção.

O batom, que sempre foi o carro-chefe das coleções, está cedendo a dianteira a tudo o que realça o olhar.
Na China, no final de fevereiro, as vendas de sombras, lápis de olhos e máscaras para cílios cresceram 150% na plataforma Alibaba em comparação ao mesmo período do ano anterior.

No Brasil, com a reabertura do comércio, os mostruários de maquiagem desapareceram das lojas. Para evitar que esse seja mais um empecilho às vendas, marcas já usam aplicativos que simulam o efeito de produtos no rosto — O Boticário, por exemplo, disponibiliza a ferramenta.

Para um segmento que sempre foi tão ligado ao sensorial, o mercado da beleza nunca precisou tanto da tecnologia para se manter acessível.

Com as 19 lojas da rede fechadas em São Paulo e nos outros seis estados em que atua, a Simple Organic cresceu 150% nos últimos três meses graças à implantação de um software que permitiu formar um time de vendas digital. O projeto, previsto para agosto, foi antecipado para abril.

A estratégia se baseia na ideia de que qualquer um pode ser um influenciador digital. Os interessados podem se cadastrar na plataforma da marca como representantes. Ao convencerem pessoas a comprar, dão a elas um cupom de desconto de 10% e levam 20% de comissão.

Quando existe uma loja franqueada na cidade, o vendedor digital vira um representante dela, e é o franqueado quem realiza a entrega e recebe sua parte no lucro.

"Dessa forma, as franquias não fecharam, não demitiram e ainda viram sua força de venda aumentar", diz a empresária. Na inexistência de uma loja próxima, as vendas geradas pelos influenciadores vão para o ecommerce, que triplicou o faturamento nos últimos três meses.

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