Bares entregam em casa drinques engarrafados e degustações de uísque

Para reproduzir experiência do balcão, negócios enviam a cliente guia de preparo e ingredientes para finalizar bebida

São Paulo

Até pouco tempo atrás, muitos bares consideravam impensável enviar por delivery um coquetel envasado ao freguês.

Agora, para continuar faturando, esses negócios têm o desafio de reproduzir em casa a experiência de tomar um drinque no balcão.

O bartender Jean Ponce, 39, pesquisou muito para entender como funcionaria a entrega em domicílio de seu bar, o Guarita, que fica em Pinheiros, em São Paulo.

“A gente não queria vender drinques sem que o cliente pudesse sentir um pouco do bar na sua casa. Nosso diferencial são coquetéis autorais”, diz.

Quem faz o pedido no Guarita recebe o drinque em embalagens de 100 ml ou 1 litro e, à parte, os ingredientes para finalizar a bebida, como folhas de limão e cascas de frutas.

A casa também envia o gelo, cuja quantidade, formato e tamanho variam de acordo com as características do coquetel. Um cartão explica como consumi-lo da forma ideal.

Na receita chamada breu (R$ 29), por exemplo, o freguês deve despejar o conteúdo da garrafa em um copo baixo com gelo e comer, enquanto bebe o líquido, uma fatia de figo desidratado com mel e pimenta.

O cardápio de delivery também inclui petiscos e pizzas. Segundo Jean, o serviço tem atendido uma média de 45 clientes por noite —ante um público de até 250 pessoas que passava pelo salão.

Drinque paper plane, uma das opções do Sip Lovers, plataforma que vende drinques clássicos e assinados por bartenders
Drinque paper plane, uma das opções do Sip Lovers, plataforma que vende drinques clássicos e assinados por bartenders - Divulgação

Mesmo que não cubra todos os custos da estrutura da casa, a operação é relevante para o negócio, segundo o empresário. “Com o bar vendendo o mínimo, a gente se mantém vivo, respirando, na lembrança do cliente”, diz.

Ele afirma que a entrega, feita por aplicativos e motoboys próprios, vai continuar mesmo depois do fim do distanciamento social.

Desde o fim de março, o bar Caledonia Whisky & Co., no Baixo Pinheiros, estruturou um menu especialmente para atender por delivery, que inclui sanduíches e sobremesas.

São entregues garrafas inteiras de uísque, coquetéis à base do destilado, doses individuais e réguas —degustações que permitem experimentar três rótulos da bebida. Os pedidos podem ser feitos por aplicativo ou WhatsApp.

Há uma oferta de 120 marcas entre as doses, que custam de R$ 11 a R$ 1.000 cada uma e são enviadas ao freguês em garrafinhas de 30 ml.

Um QR Code na embalagem leva o consumidor a acessar o blog especializado O Cão Engarrafado, que reúne informações sobre todos os uísques da carta.

“Como não estou ao lado do cliente para falar sobre o uísque que ele pediu, demos a opção de ele saber mais sobre a bebida escaneando o código”, conta Maurício Porto, 35, sócio da casa.

Por ora, os pedidos que mais saem são de garrafas inteiras de uísque —e, por isso, os sócios vão acelerar o projeto de inaugurar sua loja virtual. Eles também estudam vender kits que incluam copos.

“Neste momento, é possível abrir as oportunidades e vender itens como gelo ou apetrechos para o preparo de bebidas”, diz Marcus Salusse, professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas.


“O empresário vai ter que se transformar para aproveitar as novas tendências de consumo”, completa.
A plataforma Sip Lovers nasceu da iniciativa de um grupo de amigos para ajudar bares durante a crise. Eles já doaram 4.200 garrafas para serem usadas em delivery.

Com a percepção de que o mercado poderia se expandir, o grupo decidiu criar uma loja virtual própria, que há duas semanas começou a vender desde drinques clássicos a coquetéis assinados por bartenders, como Marcelo Serrano, do Venuto, em São Paulo.

Para iniciar a operação, os sócios investiram R$ 20 mil e negociaram um patrocínio com a fabricante de uísque Jim Beam, usado na divulgação e na logística. Na primeira semana de funcionamento, a empresa faturou R$ 2.000.

Os coquetéis têm valor entre R$ 30 e R$ 38 —um kit com três custa R$ 79,50. As bebidas são preparadas em uma cozinha em São Paulo, montada para atender o delivery.

“Nas nossas receitas, evitamos usar insumos com uma validade muito curta, para que os drinques tenham uma duração maior. Assim, o cliente pode ter várias opções na geladeira e não precisa tomar tudo de uma vez”, diz Michel Berndt, 45, sócio.

Ele afirma que o processo de engarrafamento é simples, mas que ainda existe uma barreira de aceitação entre os consumidores. “Aos poucos, eles estão começando a entender que é possível ter a experiência de um grande bar em casa”, diz.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.