Hostel cria delivery de açaí e oferece moradia privativa para driblar a crise

Hospedagens compartilhadas apostam em estadias longas durante a quarentena

Cristiane Teixeira
São Paulo

O distanciamento social imposto pelo novo coronavírus vem corroendo a economia compartilhada, uma tendência que levou duas décadas ganhar corpo. No turismo, hostels e imóveis para locação temporária esvaziaram com as restrições de eventos, viagens e o funcionamento de serviços não essenciais.

Ao buscar meios de atenuar os prejuízos, alguns empresários estão descobrindo brechas para novos negócios.

O hostel Joy, em Brasília, se preparava para ocupar seus 40 leitos com pessoas que prestariam um concurso na cidade, quando, em 11 de março, veio o primeiro decreto proibindo eventos no Distrito Federal.

“Nos dez primeiros dias de março, já tínhamos faturado o mesmo que em todo esse mês do ano passado”, conta Gustavo Leal, 34, dono do albergue em parceria com Pedro Pereira, 31, e Wagner Cabral, 34.

De um dia para o outro, as atividades foram interrompidas, e a receita zerou. Os sócios decidiram, então, usar a cozinha do hostel para montar um serviço de delivery de açaí, o Açaí de Verdade.

“Precisava ser um negócio de baixíssimo custo, fácil de montar, que não demandasse muito treinamento dos funcionários e que pudesse começar a operar de imediato", afirma Gustavo, que tem MBA em gestão empresarial.

De forma ágil, eles mudaram o letreiro na fachada, colocaram um site no ar, firmaram parceria com o iFood e dispararam mensagens para familiares e amigos pedindo que divulgassem a loja entre conhecidos. Nos primeiros 30 dias, o açaí rendeu 10% do que faturavam antes, porcentual que subiu para 35% nos 60 dias seguintes.

Depois disso, eles tiveram a ideia de transformar o empreendimento em um coliving e os oito quartos coletivos em habitações privativas.

Os três empresários prospectaram o mercado e notaram a carência de moradias coletivas para profissionais entre 30 e 40 anos, com renda estável —em geral, funcionários públicos. .

Os contratos são trimestrais, com aluguéis entre R$ 1.500 e R$ 2.000 por mês. Segundo os sócios, já há fila de espera.

Procurados pelos donos do maior hostel da cidade, que fechou pela falta de clientes, os três amigos decidiram assumir o ponto e reabrir o hostel Joy ali, um prédio com 24 quartos, em agosto.

Os empresários também transferiram a produção e a venda do açaí para o novo endereço.

“Analisamos muita coisa para encarar esse risco, fizemos um plano de negócio para cada ideia e estamos trabalhando 15 horas por dia, mas o retorno até agora é proporcional ao nosso empenho”, diz Gustavo.

Em São Paulo, um dos albergues mais antigos da cidade reabriu as portas em junho após ficar fechado por três meses. Nos primeiros 30 dias, o Ô de Casa atingiu apenas 6% de sua receita normal, hospedando brasileiros entre 50 e 60 anos em quartos privativos, reservados por mês.

O novo público é bem diferente daquele que fez a fama do endereço, que conta com um bar e fica no agitado bairro da Vila Madalena, zona oeste da cidade.

“Nosso público era composto por turistas de 18 a 35 anos, 75% deles estrangeiros”, diz Marina Moretti, 37, sócia-fundadora do hostel. “Agora, só vem quem tem questões para resolver na cidade.”

Com a recente reabertura dos restaurantes e bares na capital, a empresária acredita que o movimento vai voltar, e não pretende mudar seu modelo de negócio. “Nosso produto é feito para alta rotatividade, não se sustenta de outra forma.”

Mas nem tudo ficará exatamente igual. Moretti pretende possibilitar experiências de lazer a brasileiros que queiram fazer turismo em São Paulo. “Planejamos incentivar as viagens de fim de semana, acrescentando um tour local ou passeios de um dia a lugares próximos, como Boituva, para voar de balão”, afirma.

Alteração parecida no perfil do público foi sentida pela administradora de empresas Jéssica Cicuto Salusse, 36. Ela é sócia da Oba Brasil, plataforma que administra mais de cem imóveis para locação temporária, 70% deles na capital paulista.

“Antes, tínhamos 30% de pessoas que estavam aqui a turismo, mas agora recebemos quem está em tratamento médico ou acompanhando um paciente e, ainda, profissionais de saúde e engenharia”, diz.

O tempo de permanência dos hóspedes também mudou: de dois ou três dias para um mínimo de cinco dias. Perceber essas variações foi determinante para buscar estratégias que interrompessem a queda de até 90% na receita.

“Quando entendemos quais fatores haviam mudado, passamos a anunciar nossas ofertas em plataformas de estadia prolongada e em sites específicos para médicos e enfermeiros”, afirma.

Em junho, o negócio tinha R$ 70 mil em caixa, cerca de 35% do faturamento dos tempos normais. A empresária espera que julho seja melhor, com o aumento do fluxo de médicos que vêm a São Paulo para cursos de atualização.

Além das hospedagens longas, outra novidade detectada nos últimos meses pela Oba é o interesse de empresas em alugar imóveis por apenas um dia, para reuniões de trabalho com segurança sanitária.

“Cerca de 10% da receita está vindo daí”, afirma a empresária, que intensificou a limpeza dos espaços e equipou-os com álcool em gel.

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