Sem feiras, produtores de orgânicos recorrem a cestas e lojas virtuais

Serviço atrai consumidor que está atrás de praticidade e comida saudável durante a quarentena

Cristiane Teixeira
São Paulo

A busca do consumidor pela praticidade e por uma alimentação mais saudável tem impulsionado a venda de cestas de vegetais orgânicos e mudado a forma como os produtores rurais comercializam seus produtos.

“Mais gente está interessada em pular etapas da distribuição e reduzir o risco de contaminação pelo novo coronavírus”, diz Rafael Coimbra, 35, dono da Santa Julieta Bio.

Duas vezes por semana, ele sai da sua fazenda, em Santa Cruz da Conceição (cerca de 200 km de São Paulo), para entregar cestas de vegetais frescos na capital paulista.

Mão feminina mexe em cesta de papelão com verduras
Cestas de alimentos orgânicos da Santa Adelaide Bio - Jardiel Carvalho/Folhapress

Até fevereiro, eram cerca de 195 kits mensais. De março em diante, esse número mais que dobrou, chegando a 445 no mês passado.

Os clientes, que Rafael chama de apoiadores, pagam uma assinatura mensal —que vai de R$ 160 a R$ 240. Esse valor dá direito a uma cota semanal de hortaliças, frutas e legumes. Ninguém escolhe o que vai receber: o produtor manda o que está no ponto.

“Como sei com antecedência o que vou entregar, só planto e colho o que for necessário, então não há desperdício”, explica o agricultor.

A distribuição dos produtos acontece em pontos de retirada. Durante a pandemia, a empresa passou a entregar em casa para quem integra o grupo de risco da Covid-19.

Somando a renda obtida com as cestas e o fornecimento intermitente para indústrias e restaurantes, a receita chegou a R$ 118 mil em junho, contra R$ 43 mil no mesmo período do ano passado.

Rafael, vestindo máscara de proteção, está sentado em meio a caixas de papelão
O empresário Rafael Coimbra, da Santa Julieta Bio, com caixas de vegetais orgânicos na escola Quintal do João Menino, na Vila Madalena, um dos pontos de retirada dos itens em SP - Jardiel Carvalho/Folhapress

Assim como Rafael, outros agricultores estão escoando sua produção por meio de kits, já que várias feiras livres tiveram o funcionamento interrompido ou alterado durante a pandemia.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com quem participava da feira do Parque da Água Branca, na zona oeste da capital. Como o local permaneceu fechado até o último dia 12, o evento vinha acontecendo em uma rua próxima. Mas o movimento caiu tanto que muitos feirantes estavam vendendo mais produtos por aplicativos de mensagens do que em suas bancas.

Além de mudar o modo de venda dos orgânicos, a pandemia teve impacto no campo.

“No grupo de oito agricultores orgânicos que oriento em Lins (interior de São Paulo), as vendas cresceram 50% em média neste período”, diz engenheiro agrônomo Marcelo Rondon Bezerra, consultor de agronegócios do Sebrae.

A procura por vegetais livres de agrotóxicos aumentou tanto que ele conseguiu convencer outros 15 produtores da região a trocar a lavoura convencional pela orgânica. “Eles perceberam que os sítios de orgânicos só não estão vendendo mais porque não têm o que entregar.”

O grupo quer oferecer itens certificados por SGP (Sistema Participativo de Garantia), método pelo qual grupos formados por produtores se autocertificam. Esse tipo de garantia não é aceito por redes de supermercados, mas permite ao agricultor vender para o consumidor final. A SGP é gratuita, ao contrário de certificações por auditoria, que custam cerca de R$ 1.500.

Produtora e maior distribuidora de frutas e legumes sem agrotóxicos do país, a Rio Bonito Orgânicos cresceu 51% entre janeiro e março, abastecendo apenas supermercados. A empresa segue normas de certificação auditada.

Em abril, foram 35% de alta na receita, seguidos de 25% em maio. “Em junho veio o baque e retroagimos aos níveis de 2019”, diz Alex Lee, 45, diretor comercial da empresa que leva o nome de sua fazenda.

A redução nas vendas é, para o empresário, reflexo da retração do poder aquisitivo do brasileiro. Ele acredita que parte do consumo pode ter migrado para outros canais. Em geral, os vegetais orgânicos vendidos em supermercados são mais caros que os oferecidos por feirantes, cesteiros e lojas especializadas.

Um desses pontos de venda, o Instituto Feira Livre, na região central da capital paulista, lançou às pressas uma loja online para atender os clientes do grupo de risco que pararam de frequentar o espaço.

A decisão foi tomada depois que a equipe responsável pelo Feira Livre, uma associação sem fins lucrativos, viu o faturamento cair de uma semana para a outra, reflexo da redução do horário de funcionamento do espaço.

“Pela curva de crescimento dos dois últimos anos, teríamos vendido R$ 300 mil em junho, mas ficamos em R$ 275 mil”, diz Fabrício Muriana, 35, membro da associação.

Há cerca de três meses no ar, o ecommerce já cumpre de 25% a 30% da receita. “Isso significa que nosso desempenho seria ainda pior se não tivéssemos feito o site”, afirma.

A associação, que antes descartava o comércio eletrônico, se empolgou com o projeto e acabou inscrevendo-o em um edital de inovação da Adesampa (Agência São Paulo de Desenvolvimento), ligada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento.

Selecionada entre 70 inscrições, a iniciativa recebeu R$ 100 mil, que estão sendo investidos em uma plataforma online mais funcional. “Ela será aberta para que outras associações semelhantes à nossa ofereçam os seus produtos. Isso vai difundir ainda mais os alimentos orgânicos.”

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