Aplicativos substituem boca a boca na hora de conquistar vizinhança

Plataformas de comércio local permitem que pequenos empreendedores anunciem seus produtos gratuitamente

São Paulo

O consumo local, que já vinha sendo apontado como tendência, se fortaleceu durante a pandemia.

De acordo com Laura Kroeff, vice-presidente de digital e inovação da empresa de pesquisa Box 1824, o consumidor compreende que os pequenos empreendedores são os mais atingidos pela crise e tem se mobilizado para ajudar.

A bordadeira Ingrid Carrera, que trabalha em casa, na Penha, em SP 
A bordadeira Ingrid Carrera, que trabalha em casa, na Penha, em SP  - Bruno Santos/Folhapress


“Essa consciência só reforça a solidariedade e o senso de comunidade”, afirmou durante palestra no evento Varejotech Conference 2020, realizado pela escola de negócios StartSe neste mês.

A diferença é que, no passado, panfletos e propaganda boca a boca davam conta da divulgação entre vizinhos. Hoje, aplicativos conectam negociantes e clientela.

Lançada no dia 22 de maio, por enquanto só para acesso pela web, a ferramenta MeuVizinho.me já tem 12 mil usuários, sendo 4.000 no estado de São Paulo, e está presente em 470 cidades brasileiras.

Idealizado pelo publicitário Carlos Ávila, 45, que investiu R$ 500 mil na empreitada, o aplicativo ainda é 100% gratuito, tanto para quem anuncia quanto para aqueles que buscam produtos e serviços.

Segundo Ávila, seu público-alvo é formado por microempreendedores, que muitas vezes iniciam o empreendimento em casa e não têm verba para pagar pelos anúncios.

Quando chegar a 500 mil usuários, porém, meta que pretende atingir até o fim do ano, Ávila vai oferecer ferramentas para incrementar os negócios dos anunciantes. E essas, sim, serão cobradas.

“O bairrismo está se fortalecendo na pandemia e vai permanecer em alta. Quando analisamos um raio de 12 quilômetros ao redor de casa, descobrimos um mundo de possibilidades de fazer bons negócios”, afirma.

A bordadeira Ingrid Carrera, 50, do Senhora Carrera Ateliê, mora no bairro da Penha, zona leste de São Paulo, e foi atraída pela possibilidade de oferecer seus produtos no MeuVizinho.me.

Ela já postava anúncios no Instagram, mas diz que as curtidas nem sempre se convertiam em compras. E distribuir panfletos na vizinhança não lhe pareceu uma boa ideia.

“Já morei em Manaus, onde as pessoas me recebiam e ainda me convidavam para um café. Em São Paulo é diferente, ninguém vai ao portão para pegar o panfleto”, compara.

Pela plataforma, Carrera vende kits com três máscaras bordadas à mão, a R$ 50, e bolsas de compras, também bordadas, a R$ 15. Por mês, fatura cerca de R$ 2.000.

“Quando entrei no aplicativo, em junho, havia poucos usuários na minha região, mas vejo que, aos poucos, o número está aumentando.”

Formado em gestão financeira, Paulo Chrispim Sobrinho, 40, descobriu esse tipo de plataforma em 2017, quando perdeu o emprego e fundou a Chez Vous Belisketes.

Ele e a mulher, Rosane Chrispim, 35, vendiam suas porções de petiscos em feiras e eventos gastronômicos e usavam o aplicativo carioca Vizinhança, exclusivo para venda de produtos alimentícios, como reforço na divulgação.

Quando veio a pandemia, a ferramenta passou a ser o principal canal de vendas.

O casal, que vive no bairro do Andaraí, zona norte do Rio, pode delimitar a região de atuação —somente usuários dentro do perímetro estabelecido enxergam o anúncio.

“Por enquanto, ampliamos a área para que mais pessoas conheçam nosso trabalho. Quando o cliente está perto, porém, é fácil negociar e até suspender a taxa de frete, porque o chat do serviço permite que a gente faça contato direto”, afirma Paulo.

Porções de dadinhos de tapioca ou de bolinhos de linguiça com provolone custam R$ 30 cada uma.
O aplicativo retém uma taxa de 15% do valor dos pedidos, mas não há cobrança pelo cadastro nem mensalidade.


Segundo o geólogo Jean Penatti, 50, cofundador do Vizinhança, o serviço não se envolve na logística. A entrega é combinada entre as partes, mas o pagamento é intermediado. “O cliente paga com cartão de crédito, registrado no ato do cadastro, e eu faço o repasse ao fornecedor 30 dias depois”, explica.

Penatti planeja expandir a área de atuação. Quer estar em toda a região metropolitana do Rio até o fim do ano, chegar ao restante do estado até meados de 2021 e desembarcar em São Paulo no primeiro trimestre de 2022.

Até a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), com apoio do Senar-SP e do Sebrae, lançou seu aplicativo em abril: o Pertinho de Casa, presente em 585 cidades de 27 estados. Até o fim de agosto, foram realizados 13.689 cadastros gratuitos na plataforma.

A diferença é que o serviço também conecta o comércio de bairro e os clientes aos pequenos produtores rurais que estão no entorno —basta acessar o site e dar o CEP.

De acordo com Bruno Quick, diretor técnico do Sebrae, a tecnologia ajuda o empreendedor a romper o isolamento e se tornar mais acessível. Mas há outra vantagem ainda mais importante.

“Como essas ferramentas permitem a comunicação entre quem vende e quem compra, o empreendedor consegue formar uma base de clientes consistente e, em cima dela, estabelecer uma dinâmica de relacionamento”, diz Quick.

Na opinião dele, investir na conquista da clientela que está na vizinhança é uma estratégia certeira para pequenos negócios, mas que depende basicamente de uma interação genuinamente próxima.

“O movimento excessivo de globalização tem levado a uma mudança de foco em todo o mundo. As pessoas querem resgatar sua identidade, formar vínculos e recuperar a sensação de pertencimento. Um negócio que começa assim, bem pequeno e na vizinhança, tem potencial para crescer e se transportar para outros lugares, desde que esse valor seja sempre presente.”

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.