Empresas lucram com spray que tira vírus de roupa e desinfetante para pet

Startups de higiene e saúde adaptam seus produtos e criam novas soluções durante a pandemia

Iara Biderman
São Paulo

Quando a quarentena fechou as portas de lojas e derrubou o faturamento de empresas, a saída para alguns empreendedores foi se voltar justamente para o novo coronavírus e criar produtos que ajudam a combater a doença.

Antes da pandemia, Renan Serrano, 32, desenvolveu um higienizador de roupas em spray voltado para pessoas que viajam com frequência. Ele tinha acabado de colocar o item no mercado quando veio a quarentena.

Pedidos foram cancelados, e as vendas derreteram. Mas a empresa já estava fazendo testes para adaptar a fórmula e garantir uma composição que elimina o coronavírus das roupas e do corpo.

O Visto.Bio Antisséptico foi lançado no final de março. O frasco, de 45 ml, rende 200 aplicações e custa R$ 150.

De lá para cá, as vendas não só foram recuperadas como dobraram a cada mês: entre abril e junho, a empresa cresceu 600%, segundo Serrano. O time inicial de seis pessoas quase triplicou, e hoje a startup tem 17 funcionários.

O produto ainda foi considerado uma das cinco melhores soluções no combate à Covid-19 pela Singularity University, plataforma internacional de aprendizado e inovação.

Os lucros têm sido investidos em tecnologia e na contratação de mais funcionários. Também estão sendo aplicados em ações sociais e ambientais, como o Projeto Lavanderia, de doação de roupas para moradores de rua, e o Jari Pará Forest Conservation, de proteção de florestas na região amazônica.

“Nossa proposta não é lucrar com o vírus, mas pensar em como contribuir com a vida no planeta”, diz Renan.

Assim como ele, a empresária Agnes Cristina, 36, criou seu atual best-seller para ajudar no combate à pandemia.

Autointitulada “a doida dos gatos” (ela tem sete em casa e sempre os leva à sede da sua empresa, a CatMyPet, de produtos para felinos), criou o Alcat, um germicida não alcoólico para patas que não causa intoxicação ao ser lambido.

Agnes Cristina, dona da empresa CatMyPet, e seu sócio Diogo Petri, na empresa, na zona leste de SP - Jardiel Carvalho - 18.ago.2020/Folhapress

A ideia veio após ela ouvir relatos de veterinários sobre animais que passaram mal ao ingerir álcool em gel.

“Desde o lançamento, no começo de maio, o produto já higienizou com segurança mais de um milhão de patinhas”, diz Agnes.

Os rendimentos da marca dispararam: os números de maio foram o dobro do faturado em abril. Em junho, as vendas cresceram 250%.

Além do higienizador de patas, surgiram novas soluções. “Percebemos que os animais também podiam se intoxicar com produtos usados na limpeza da casa ou com o álcool usado nas mãos dos donos.”

A empresa então lançou o Alcat Casa e um álcool em gel “pet friendly” para mãos. Os três produtos são comercializados em kit promocional ou isoladamente (R$ 109,90 o kit ou R$ 39,90 cada).

Os incômodos causados pelos desinfetantes, como ressecamento da pele e alergias, também foram o estímulo para a Aya Tech criar antissépticos sem álcool, antialérgicos e hidrantes.

A empresa aberta em julho do ano passado já distribuía um produto antibacteriano, para roupas e superfícies, e repelentes para insetos.

Com a chegada do novo coronavírus, a Aya registrou na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) o spray antisséptico para mãos sem álcool etílico e dermatologicamente testado. As vendas aumentaram 140%, diz Fernanda Checchinato, 45, fundadora da Aya Tech.

O spray, que custa entre R$ 30 e R$ 45, faz farte da linha Gy, composta ainda por sabonete antisséptico para mãos e corpo. “Com os novos produtos, estamos faturando entre R$ 150 mil e 200 mil mensais.”

A healthtech Testfy também teve que correr para criar novas soluções na quarentena.

Fundada por Gustavo Janaudis, 39, em janeiro, a startup surgiu para oferecer coleta domiciliar e intermediação de serviços laboratoriais.

Os testes oferecidos inicialmente eram relacionados a intolerâncias alimentares, microbioma intestinal e nutrigenética. Quando começou a quarentena, em março, clínicas de endocrinologia ou de nutrição pararam de receber pacientes e a demanda por esses testes caiu.

A Testify rapidamente se preparou para incluir os exames para Covid-19 (RT-PCR e teste rápido) e, ainda em março, obteve as certificações do Instituto Adolfo Lutz para realizar o serviço.

Inicialmente, a capacidade de entrega era de 25 mil testes por mês. Com a automação de processos e a chegada de mais insumos laboratoriais, a Testfy pode, atualmente, realizar 54 mil testes mensais.

O cliente individual representa 50% dos consumidores. Ele faz o cadastro no site e marca a coleta em domicílio. A Testfy também oferece seus serviços para empresas (20% da clientela).

Com 65 mil testes realizados em cerca de quatro meses, a empresa recebeu mais investimento e aumentou os rendimentos. Em abril e maio, o faturamento cresceu 40%; nos últimos dois meses, 25%.

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