Para reduzir lixo do delivery, restaurantes usam estratégias como resgatar embalagens de vidro

Em junho, empresas de coleta registraram aumento de 30% de resíduos recicláveis em comparação com o mesmo período de 2019

São Paulo

Além de desafios econômicos, a pandemia trouxe um questionamento extra a empresas que vendem pela internet: o que fazer para reduzir o número de embalagens usadas em entregas?

Os potes de vidro retornáveis usados no delivery do restaurante em São Paulo 
Os potes de vidro retornáveis usados no delivery do restaurante em São Paulo  - Fotos Danilo Verpa/Folhapress


Em junho, o comércio virtual provocou um aumento de 30% na coleta de materiais recicláveis por serviços de limpeza em relação ao mesmo mês do ano passado. O número da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) é um termômetro para o avanço da produção de lixo no país.

Para lidar com a situação, uma das estratégias do Purana, restaurante na zona oeste de São Paulo, foi lançar no fim de julho um programa de retornáveis que incentiva o reúso de embalagens de vidro.

Funciona assim: depois do pedido, o cliente limpa e guarda os potes e, ao devolvê-los, recebe pontos que podem ser trocados por itens do menu.

Os recipientes, que passam por esterilização ao serem recebidos no Purana, respondem por 50% das embalagens usadas na entrega da casa —a outra metade é compostável e biodegradável.

Depois da reabertura de restaurantes em São Paulo, houve consumidores que levaram ao estabelecimento sacolas com até 30 potes para serem reaproveitados, diz Thiago de Carvalho, 36, sócio do Purana.

“Quem faz o retorno ajuda o restaurante a investir no projeto. Temos um papel na redução do lixo, mas o consumidor tem o poder de escolha”, diz. Por ora, a taxa de devolução dos vasilhames é de 20%, mas o empresário espera uma melhora à medida que o fluxo de clientes no salão aumente.

A devolução é importante porque ajuda a diminuir gastos, já que a opção de vidro é quase três vezes mais cara do que a não reciclável. Segundo Thiago, o custo com embalagem representa 10% do faturamento da empresa. “A gente tenta a todo momento fazer o consumidor entender nosso propósito”, diz.

O debate sobre a redução de lixo envolve a sensibilização de parte dos clientes para que eles façam escolhas mais sustentáveis, diz Edson Barbero, coordenador do Centro de Empreendedorismo da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).


Para que deliveries possam reduzir seu impacto, existem custos de matéria-prima, reposição (no caso do vidro), manuseio e logística que precisam ser adicionados à operação. “Se o cliente não estiver aberto a entender essa precificação, em alguns casos a conta não fecha”, diz Barbero.

Para Suenia Sousa, gerente do centro Sebrae de Sustentabilidade, a pandemia criou uma ocasião propícia para que consumidores reconheçam negócios que apoiam uma causa. “É um momento favorável para agir e estabelecer um diálogo”, diz ela.

A procura por saídas para redução de lixo é bem recebida pelos clientes do Mocotó, restaurante na zona norte de São Paulo, conta o chef Rodrigo Oliveira, 40.

Depois do sucesso em uma ação pontual, ele decidiu adotar de forma fixa o uso de vidro para o delivery de algumas receitas (peixada, moqueca e sobremesas).

Nesse caso, o cliente fica com a embalagem entregue com o prato, que é semelhante a outras já usadas em casa para armazenar comida.

Para que o uso dos potes fosse viável, foi preciso negociar com a fábrica dos recipientes e fazer pedidos maiores —a redução obtida fica entre 5% e 10% do valor da compra.

A intenção do chef é também oferecer ao cliente a possibilidade de devolver o item, caso ele queira. O Mocotó já faz isso com o escondidinho, enviado por delivery em uma cumbuca de cerâmica.

Quem devolve o utensílio ganha R$ 5 de desconto na conta. Por enquanto, Rodrigo ainda procura um tipo de vidro resistente e com custo compatível com a operação.

Além do material, também é importante pensar no tamanho da embalagem, diz Suenia Sousa, do Sebrae. Se ela for maior do que o necessário, vai desperdiçar matéria-prima e produzir mais lixo.

O empresário Fernando Martins, 37, da Torteria, com três unidades em São Paulo, começou, durante a pandemia, a revisar o tamanho de suas embalagens de papel kraft. Ao mesmo tempo, está minimizando o uso de plástico para gerar menos lixo.

Receitas do restaurante Mocotó entregues em potes de vidro no delivery
Receitas do restaurante Mocotó entregues em potes de vidro no delivery - Divulgação

Também preocupada com os resíduos gerados na própria cozinha, a marca começou um programa de reciclagem de papelão e vidro, que são separados pela equipe, limpos e coletados semanalmente pela Green Mining, empresa de logística reversa. Para obter o serviço, Fernando afirma que foi preciso apenas fazer um cadastro.

Com a falta de incentivo público, parcerias são formas eficientes de colocar a reciclagem em prática, diz Barbero, da Fecap. Se a empresa for pequena, ela pode se associar a outras para buscar melhores preços na compra de embalagens sustentáveis.


Mas também é possível contratar serviços. Com um sistema de assinatura oferecido a restaurantes, a Re.Pote vai fornecer vasilhas para restaurantes de São Paulo que podem ser usadas pelos clientes ou retiradas e encaminhadas para uma nova entrega. A marca quer testar a ideia até o fim do ano para avaliar o comportamento do consumidor.

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