Na pandemia, empreendedor enxuga estoque para ter mais dinheiro na mão

Negócios conseguem reduzir custos com produção sob demanda, mas podem perder vendas por impulso

São Paulo

A pandemia mudou a forma como algumas empresas pensam seus estoques. Para não deixar capital parado, elas têm reduzido sua oferta de mercadorias, com restruturações na produção e vendas sob demanda.

“Antes da crise, o empreendedor muitas vezes não fazia bem o cálculo para a compra de matéria-prima e abastecia o estoque achando que poderia vender mais tarde”, diz César Rissete, gerente de competitividade do Sebrae.“Hoje, esse comportamento pode ser nocivo porque ele pode precisar do dinheiro para outras coisas, como contas.”

Juliana Fregonesi no ateliê da Made with Soul, em São Paulo
Juliana Fregonesi no ateliê da Made with Soul, em São Paulo - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Muitos negócios aproveitaram a pandemia para queimar o estoque que tinham, e, agora, estão voltando a comprar matéria-prima de forma mais criteriosa e planejando melhor a produção, diz Rissete.

É o caso da empresária Juliana Fregonesi, 45, dona da marca de roupas Made with Soul, de São Paulo. Em maio, ela fez uma liquidação de 24 horas com a intenção de baixar o estoque, equilibrar o fluxo de caixa e investir em uma coleção adaptada à quarentena. “Não costumo fazer promoção, então coloquei a cara no Instagram e expliquei a situação. Deu certo.”

Na sequência, ela preparou uma coleção de tricô disponível em pré-venda. Com isso, só foram confeccionadas peças pagas antecipadamente —e o recurso obtido foi usado para custear a matéria-prima.

“Fiquei insegura porque o consumidor não está acostumado com isso, quer comprar e usar na hora. E tem uma questão de confiança em pagar antes também”, diz Juliana.“Mas esse formato ajuda empresas pequenas a serem saudáveis. Nossos clientes abraçaram sem questionar.”

Agora, a empresária vai testar outro caminho: para lançamentos em novembro, adotou o que chama de lista de desejo. A ideia é produzir poucas peças de cada modelo e avisar as clientes, que serão convidadas a fazer a reserva do produto pelo WhatsApp ou ecommerce.

“Isso vai me ajudar a ter um diagnóstico das cores e modelos que mais agradam e ajustar a produção conforme esse retorno”, afirma.


As redes sociais são fundamentais na hora de transmitir esse tipo de mudança. O ideal é traduzir a situação de forma realista e transparente, mas positiva, diz Rissete.

A empresária Luiza Pannunzio, 41, dona do Atelier Luiza Pannunzio, explicou no Instagram que a marca encontrou uma nova forma de trabalhar: peças que não estão em estoque são feitas sob encomenda. Quem quiser, pode experimentar cores e tamanhos na loja nos Jardins, em São Paulo.

“A gente produzia mais do que precisava e, ao mesmo tempo, não conseguia ter reservas. Nunca tinha achado isso um problema, mas, depois de avaliar, fiz essa campanha para inverter o processo de compra e produção”, diz.

No novo sistema, o cliente espera 15 dias para a peça ficar pronta, mas paga 30% a menos do que no início da pandemia. O valor representa a economia que a empresária teve ao investir em matéria-prima de forma mais pontual.

Por ora, a resposta tem sido positiva e foi suficiente para evitar demissões na crise. “Eu dependo de uma mudança de comportamento do consumidor. Não sei se vou conseguir, mas vou continuar batendo nessa tecla”, diz.

Ao adotar esse modelo, o negócio pode acabar perdendo as compras por impulso, feitas sem planejamento pelo consumidor, diz Helio Fonseca, professor da FIA (Fundação Instituto de Administração). E aí o empresário precisa entender o que tem mais peso: esse tipo de venda ou a economia feita com o estoque baixo.

“Cada negócio tem uma regra. Não há certo ou errado, e sim o que mais se adapta à realidade daquela empresa”, diz.

A redução de estoque para diminuir custos também foi uma estratégia adotada por restaurantes. O Tordesilhas, em São Paulo, enxugou entre 15% e 20% de itens no menu e teve uma redução ainda maior na carta de bebidas.

A empresária Ana Carolina Bonometti, da Casa Bonometti
A empresária Ana Carolina Bonometti, da Casa Bonometti - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Como exemplo, se antes a casa oferecia três marcas de gim para o cliente escolher, agora tem uma. “Preciso de um produto mais básico para diminuir a compra e o investimento. Com a pandemia, todo mundo está com recursos limitados”, diz Ivo Ribeiro, 58, sócio do restaurante.

Na Casa Bonometti, uma mistura de confeitaria e empório em Higienópolis, centro de São Paulo, itens como sanduíches e ovos mexidos deixaram de ser vendidos para adequar o cardápio à nova realidade, com menos clientes presenciais e mais delivery.

Produtos que permitem o congelamento se adaptaram bem à venda por entrega ou encomenda, mas alguns ingredientes frescos, como caponata, tiveram de ser cortados.

“O estoque não pode ficar parado porque é dinheiro. Além disso, na gastronomia, precisamos ter atenção porque os produtos são perecíveis”, diz Ana Carolina Bonometti, 30, dona da confeitaria.

A redução de matéria-prima é uma estratégia para se adaptar à crise. Para colocá-la em prática, o empresário pode tirar itens que têm menor saída, diz Helio Fonseca, da FIA.

A exceção é quando o insumo é usado em um produto que tem margem de lucro maior —nesse caso, vale considerar ter um estoque mínimo.

Outra sugestão de Fonseca é desenvolver um trabalho com uma matéria-prima versátil, que possa ser usada em diferentes composições.

“Um exemplo simples: batata pode virar batata frita, batata assada e purê. Eu consigo ter uma gama de produtos diferentes com o mesmo insumo. Com isso, a perda é baixa.”

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