Aluguel mais barato atrai novos negócios para lojas físicas

Com mais imóveis comerciais vagos, proprietários estão abertos a negociações e oferecem carência para começar pagamento

São Paulo

A pandemia fez aumentar a taxa de imóveis comerciais vagos, que atingiu a marca de 30% no estado de São Paulo. Com isso, os valores dos aluguéis estão cerca de 20% mais baratos do que antes, segundo dados da AABIC (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo).

Os proprietários também estão mais abertos a negociações, inclusive dando carência de alguns meses para o início do pagamento, afirma José Roberto Graiche Júnior, presidente da entidade.

O aposentado Wanderley Pedroso, 70, viu na redução do valor de aluguel uma oportunidade de realizar seu sonho antigo de empreender. Para montar a rotisseria Gran Sabor, ele alugou um ponto de 100 metros quadrados no bairro do Tatuapé, na zona leste da capital paulista, por R$ 2.400 ao mês.

"Já tinha pesquisado alguns imóveis, mas os valores estavam muito altos. Então, surgiu este em uma região atrativa e com um preço que cabia dentro do planejamento", diz.

Wanderley também conseguiu uma carência de um mês para que fizesse obras na rotisseria, que abriu as portas no último sábado (12).

Os sócios Lucas Soares, 29, e Bruno Henrique, 28, aproveitaram o momento para diversificar os negócios. Eles, que trabalham com consultoria financeira, resolveram abrir duas unidades da clínica Mais Top Estética no interior de São Paulo, uma em Bauru e outra em Jaú.

"O valor mais acessível do aluguel, que ficou em média 25% mais barato do que antes da pandemia, foi um fator decisivo para montarmos a empresa", diz Lucas.

Especialistas alertam que o preço do aluguel é apenas um dos muitos aspectos que devem ser levados em conta na hora de abrir um negócio.

"Pontos que até pouco tempo eram inviáveis financeiramente para muitos empreendedores hoje estão acessíveis", diz Davi Jeronimo, consultor do Sebrae-SP. "Mas é preciso cuidado porque, se o negócio que estava ali foi afetado, o seu também pode ser", afirma.

O empreendedor deve analisar o quanto a loja que ele quer abrir pode ser impactada pelo distanciamento social, afirma Haroldo Matsumoto, sócio-diretor da Prosphera, consultoria especializada em gestão de negócios.

Jeronimo aconselha que o empresário faça um planejamento que leve em consideração uma operação reduzida. Ele deve fazer os cálculos das suas despesas e verificar se conseguiria manter o negócio mesmo que fosse impedido de funcionar em capacidade total por algum tempo.

Se a empresa de fato exigir um ponto físico, é preciso avaliar qual é o melhor local para o seu funcionamento. Um serviço de entrega de comida, por exemplo, pode optar por um imóvel mais afastado de grandes avenidas e conseguir melhores valores de aluguel.

"Já no varejo o ponto é realmente a principal motivação para uma loja física", diz o consultor de negócios Fernando Moulin. Antes de decidir a localização, ele recomenda fazer uma análise do fluxo de pessoas, em tempos normais e de restrição, da vizinhança e de questões ligadas a segurança, mobilidade, infraestrutura, internet e telefonia.

Outro fator que também precisa ser observado é que movimento em regiões de tradição comercial pode se manter reduzido no pós-pandemia, já que muitas companhias devem manter o trabalho em home office.

"Em São Paulo, nas regiões do Itaim, da Berrini e da Paulista, vários restaurantes fecharam. Se a empresa for depender dos trabalhadores da região, é necessário avaliar bem antes de abrir", afirma o consultor do Sebrae.

Na opinião de José Carlos Semenzato, fundador da consultoria SMZTO, os critérios para escolher um ponto comercial foram ampliados com a pandemia. "Todos os negócios com perfis para loja física viraram suas chaves para o virtual. Com isso, é preciso levar em conta vários outros aspectos, como armazenamento e distribuição, principalmente se for um negócio de alimentação", diz.

Um restaurante que tenha serviço de delivery, por exemplo, exige um projeto arquitetônico ajustado para receber os entregadores.

"Vários negócios cresceram no digital e hoje estão repensando seus espaços. Isso está provocando essa troca de pontos comerciais —cada um está se adaptando aos novos hábitos do consumidor", afirma o consultor.

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