Saiba como investir no mercado de alimentos para dietas restritivas

Produtos sem proteína animal, glúten, açúcar e lactose estão em alta, mas setor exige especialização do empreendedor

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São Paulo

Não é de hoje que o mercado de comidas saudáveis é um dos mais promissores do setor da alimentação —segundo a consultoria Euromonitor, o segmento cresceu 33% entre 2015 e 2020.

Entre os muitos nichos que cabem sob esse guarda-chuva, um em especial tem se destacado: o de produtos para quem segue dietas restritivas.

De acordo com estudo da empresa de tecnologia MindMiners, 32% das pessoas que se declaram vegetarianas ou veganas têm dificuldade para fazer compras. Problema similar encontram os consumidores que procuram produtos sem açúcar, glúten, ovos ou lactose.

Marmitas da Beleaf, empresa que produz refeições saudáveis congeladas
Marmitas da Beleaf, empresa que produz refeições saudáveis congeladas - Divulgação

Foi de olho nesse mercado que a nutricionista Renata Baldin, 33, fundou, em 2014, a confeitaria Cacau Vanilla.

“No consultório, sempre que eu receitava uma dieta restritiva, os pacientes diziam como era difícil compra-los”, conta.

Para abarcar o maior número de restrições alimentares, Baldin optou por reproduzir receitas veganas, que eliminam 100% dos ingredientes de origem animal.

No início, a nutricionista substituía o açúcar por adoçantes, mas depois passou a usar também açúcares não refinados, considerados mais saudáveis, como o demerara orgânico.

Sua torta de cookies, por exemplo, vendida a R$ 215 no tamanho grande, com 12 fatias, leva biscoitos de farinha de amêndoas, açúcar de coco, chocolate 54% cacau e biomassa de banana verde, entre outros ingredientes. O brigadeiro da cobertura é feito com leite de coco artesanal.

Com mais de 50 itens no cardápio, a Cacau Vanilla vendeu 4.300 itens em junho. Restaurantes e confeitarias são o principal mercado consumidor, responsável por 80% do faturamento. Mas a pandemia fez com que Baldin mirasse em outra direção.

“Com os estabelecimentos fechados, fui obrigada a investir no meu ecommerce e vi que, apesar das vendas irregulares, consigo uma margem de lucro de até 40%.”

Os pedidos chegam pelo site e através de aplicativos de delivery. Como a cozinha central fica na Freguesia do Ó (zona norte de São Paulo), Baldin alugou um espaço na Kitchen Central, na Lapa (zona oeste), que funciona como um pequeno centro de distribuição.

“Boa parte da minha clientela fica na zona oeste, assim posso atender mais pedidos”, diz.

A logística das entregas também é um desafio para a Beleaf, empresa especializada em marmitas saudáveis fundada em 2016 pelos amigos de faculdade Jonatas Mesquita, 29, Fernando Bardusco, 30, e Fabio Biasi, 27.

Jonatas Mesquita, 29, Fernando Bardusco, 30, e Fabio Biasi, 27, fundadores da Beleaf, de marmitas saudáveis
Jonatas Mesquita, 29, Fernando Bardusco, 30, e Fabio Biasi, 27, fundadores da Beleaf, de marmitas saudáveis - Divulgação

O negócio, que começou em uma cozinha doméstica, já entrega 40 mil marmitas por mês em São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói (RJ), Campinas (SP), Valinhos (SP), Jundiaí (SP) e Vinhedo (SP). Em agosto, chega a Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR).

As refeições completas, prontas e congeladas, saem da cozinha central, localizada na zona sul da capital paulista, em caminhões refrigerados, para os centros de distribuição de cada região. A partir deles, são entregues por motoboys próprios. Uma equipe de 58 pessoas faz a engrenagem girar, sendo 32 no administrativo e 26 na operação.

No cardápio, 100% à base de vegetais e livre de lactose, há opções como a moqueca de pupunha e castanha-de-caju com arroz e farofa de cenoura, a R$ 24,90 a porção individual.

As composições equilibram nutrientes e são embaladas em caixinhas de papel cartão reciclável, com os selos FSC e EuReciclo.

Segundo Jonatas Mesquita, responsável pelo marketing da Beleaf, só 12% dos clientes são de fato veganos.

“Nosso público é composto basicamente por pessoas que querem reduzir o consumo de carne, por motivos que vão da saúde à preocupação com o ambiente”, afirma.

Atender às expectativas desse perfil de cliente é um desafio diário, na opinião de Karyna Muniz, consultora de negócios do Sebrae-SP.

São pessoas com alto grau de escolaridade, bem informadas, que se preocupam com a rastreabilidade do que estão comprando e demandam informações precisas.

O nível de exigência e os riscos para o empreendedor podem ser ainda maiores no caso de pessoas alérgicas ou portadoras de patologias sérias, como hipertensos e diabéticos.

Renata Baldin, por exemplo, pede laudos dos fornecedores para garantir que sua cozinha permaneça livre de qualquer contaminação.

No site da Beleaf, lê-se que a maioria dos pratos não contém glúten, mas que eles não são recomendados para quem sofre de doença celíaca, pois os fornecedores estocam os produtos em armazéns que podem sofrer contaminação cruzada pelo ar.

“É um setor que não admite adaptações. Você não pode, por exemplo, dizer que seu pão não tem glúten se prepara massas com farinha de trigo convencional no mesmo espaço”, explica.

Adotar ações que valorizem a sustentabilidade, na opinião da consultora do Sebrae, também é fundamental —para um público antenado em questões ambientais, as embalagens devem causar o mínimo de impacto.

Baldin sentiu isso na pele. “Estava envolvendo alguns doces em papel celofane, mas um cliente já me escreveu sugerindo que eu substitua por papel. Não posso só pensar na praticidade.”

Veja dicas da consultora do Sebrae-SP Karyna Muniz para entrar no ramo:

  • Faça um curso de boas práticas para serviços de alimentação. A Anvisa disponibiliza gratuitamente uma cartilha sobre o tema e o Sebrae tem curso online grátis;
  • Comece vendendo alimentos congelados, produtos mais fáceis de garantir a segurança alimentar;
  • Estude, se informe sobre o setor, sobre os hábitos dos consumidores e esteja preparado para fornecer informações detalhadas sobre a origem de cada ingrediente;
  • Seja inovador nos produtos e na forma de abordar a clientela —os jovens são o maior mercado consumidor para produtos saudáveis.
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