Para analistas, morte da RCTV "asfixia" oposição na Venezuela
Nesta segunda-feira, a Venezuela amanheceu sem sua rede de TV de maior audiência, que pela primeira vez em 53 anos deixou de transmitir sinal. Em uma morte anunciada, a Rádio Caracas de Televisión (RCTV) acabou às 23h59 deste domingo, depois que o presidente do país, Hugo Chávez, se negou a renovar sua concessão de funcionamento.
| Howard Yanes/AP |
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| Estudantes erguem as mãos em direção à polícia durante ato pró-RCTV em Caracas |
A RCTV era a única emissora com alcance nacional que fazia oposição ao governo. Sua principal concorrente, a Venevisión --que em 2002 participou ativamente de uma tentativa de derrubar Chávez do poder-- mudou de lado e hoje faz uma cobertura alinhada com a visão governista.
"O fechamento da RCTV é mais um passo em direção à destruição da democracia na Venezuela. Chávez quer criar uma cultura em que vigore o pensamento único, e nem a oposição política nem a oposição social têm forças para resistir a esse ataque", diz Trino Márquez, 56, doutor em sociologia e professor da Universidade Central da Venezuela.
Segundo Márquez, que conversou por telefone com a Folha Online de Caracas, a Venevisión não transmite mais "nenhum tipo de juízo crítico sobre o governo". "Os problemas do país não são examinados em profundidade", avalia. A estação Televén, que tem cerca de 12% da audiência total do país, também se aliou ao governo.
Para a oposição, resta apenas a rede Globovisión, que é transmitida somente em Caracas e em seus arredores, e alguns poucos jornais impressos, que não têm nem o alcance nem a penetração da TV.
Incapacidade de ação
Apesar dos protestos contra o fim da concessão da RCTV, analistas ouvidos pela Folha Online não têm esperanças de que a oposição possa reverter a medida.
Para Cristina Soreanu Pecequilo, doutora em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo e membro do Nerint (Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), 'a questão principal da oposição venezuelana diante de Chávez, com ou sem RCTV, é a incapacidade em promover uma política mais sistemática e unificada de ação'.
Pecequilo, que falou à Folha Online por e-mail, afirma que "mesmo com a RCTV, a oposição não conseguira agir unificadamente; é preciso oferecer uma alternativa concreta, e não só protestos".
Oposição enfraquecida
Segundo Tullo Vegevani, coordenador de estudos da América Latina do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP, e professor da Unesp, a oposição venezuelana está "debilitada" desde a eleição de Chávez, e perdeu ainda mais força após a tentativa de golpe, em 2002. "A oposição que agregava setores empresariais, sobretudo da classe média, está sem força", diz o estudioso.
| Edwin Montilva/Reuters |
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| Manifestante pró-Chávez celebra fim da RCTV em Caracas |
Para ele, as manifestações contra o fechamento da RCTV foram "pequenas", apesar de terem "certa simbologia". "A sociedade venezuelana não pode ser classificada como polarizada. Há um movimento forte de apoio ao presidente, e certamente há algum descontentamento, mas ele não constitui uma força política relevante".
De acordo com o especialista, a curto prazo, os protestos não terão repercussões importantes, pois para isso seriam necessários uma "base social relevante e núcleos políticos organizados".
Ele discorda daqueles que acusam Chávez de se aproximar do totalitarismo. "A manutenção das liberdades democráticas, da permissão para se expressar e se organizar, permanecem. Há partidos de oposição, inclusive os velhos partidos venezuelanos, como a AD (Acción Democrática) e o COPEI (Partido Democrata Cristão), que foram considerados corruptos e derrubados nas eleições em 1999. São forças políticas pequenas, mas que existem.
Com relação à imprensa, Vegevani afirma que há alguns jornais importantes que continuam a "opinar e a se manifestar livremente". "Mas é claro que o fechamento de uma emissora importante, como a RCTV, aumenta o peso da imprensa que é favorável a Chávez", afirma.
Jornais impressos
Para a imprensa escrita na Venezuela, a situação é um pouco diferente. Márquez afirma que os dois maiores jornais do país, "El Universal" e "El Nacional", exercem uma linha crítica a Chávez. Para ele, os periódicos ainda não sofreram grande interferência do presidente porque sua leitura na Venezuela não é muito expressiva.
| AP |
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| Tropa de choque lança gás lacrimogêneo contra manifestantes anti-Chávez em Caracas |
Tanto o "Universal" quanto o "Nacional" dedicaram a primeira página e coberturas exclusivas ao fim do sinal da RCTV hoje.
No "Nacional", além da repercussão internacional do fechamento da TV, a manchete alerta que o ministro das Comunicações e Informação venezuelano apresentou hoje uma denúncia contra outro canal: o Globovisión, que supostamente usou mensagens subliminares para "prejudicar a imagem de Chávez".
Outro jornal importante na Venezuela, o "Ultimas Noticias", é partidário de Chávez, de acordo com o Márquez. Para ele, o governo atua cada vez mais no setor de mídia impressa no país.
Chávez adquire jornais locais endividados e os publica gratuitamente com conteúdo renovado, diz o professor. Além disso, os grandes jornais seriam "pressionados a mudar sua linha editorial".
Ilegalidade
O diretor da Escola de Comunicação Social da Universidade Central de Caracas, Adolfo Herrera, 60, que também rechaça o fim da RCTV, questiona a legalidade da medida. Ele afirma que, na Venezuela, se uma estação não cometeu delitos que podem ser provados em tribunais, tradicionalmente, sua concessão é renovada.
"Chávez tomou uma decisão pessoal, e como aqui na Venezuela não há independência dos poderes, não renovou a concessão da RCTV", afirma. "Toda a Escola de Comunicação está comovida com esta decisão, que praticamente corta a história da televisão venezuelana", completa.
Para Herrera, a medida busca amedrontar outros meios de comunicação. "É um terrorismo disfarçado. Com certeza, os outros meios terão que ter mais cuidado agora. E no canal do governo a oposição não fala."
Novas ações
O fechamento da TV gerou uma grande oposição por parte do público. Chega a 80% a rejeição à medida entre a população, segundo a última pesquisa do Instituto Hinterlaces.
| Eduardo Morales/Efe |
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| Funcionária da RCTV chora após fechamento do canal em Caracas |
Para os especialistas, o alto custo político da decisão deve servir para evitar uma nova investida contra meios de comunicação no curto prazo.
Márquez afirma que esse custo é também pesado no exterior. "Chávez não conseguiu convencer a comunidade internacional que o fim da concessão era uma medida que o Estado venezuelano tinha o direito de adotar", diz. A União Européia e vários países da América Latina, como México, Honduras, Uruguai e Colômbia, expressaram sua contrariedade ao fim da RCTV.
Herrera não se diz surpreso com o fim da RCTV. "Todos os países socialistas que conheci aplicavam a mesma fórmula de controle da comunicação", afirma.
Ameaçar as transmissões da Globovisión, no entanto, parece fora de cogitação. "Além de a Globovisión ter um alcance pequeno, Chávez precisa manter uma fachada de democracia. A Globovisión é uma pequena janela para a oposição, e não creio que sua transmissão está ameaçada por enquanto."
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