Comentário: Fim da RCTV foi "sem querer querendo"
Hugo Chávez, como se diz na linguagem popular hoje em dia, "é o cara". Ele fala o que quer, de quem quiser e quando bem entende. Muitos apóiam sua atitude pelo simples fato de ele, supostamente, ser o único líder [depois que o ditador Fidel Castro afastou-se dos microfones, e sem contar o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad] a provocar o chefe do governo dos Estados Unidos, George W. Bush. Chama-o de ignorante e acusa-o de planejar um golpe contra a Venezuela.
É verdade que o fiasco da Guerra do Iraque faz do presidente dos EUA uma figura não muito querida pela sociedade internacional e derruba sua popularidade em seu próprio país, mas as preocupações atuais de Bush não parecem se concentrar na América do Sul.
Difícil é engolir o fato de Chávez ter levado a cabo a eliminação da RCTV, única rede de TV crítica a seu governo com alcance nacional. Ele insiste em dizer que não fechou a emissora, apenas não renovou o contrato de permissão de funcionamento. Ou seja, para explicar a censura imposta à mídia opositora, parodia seu xará Chaves [personagem de programa humorístico mexicano], que justifica suas atitudes dizendo: "Foi sem querer querendo!".
Chávez acusa a RCTV de envolvimento em um golpe que o tirou do poder por 48 horas, em abril de 2002. Cinco anos depois, o presidente venezuelano dá um golpe na população e tira do ar a rede de TV de maior audiência do país. E fez mais, confiscou as instalações da RCTV para uso do novo canal governista, Tves.
A RCTV também cometeu abusos e erros, passou a fazer oposição direta a Chávez, nos últimos anos. Agiu quase como um partido político --o que, afirmam os chavistas [com razão], não é papel de uma rede de TV. Após o golpe de 2002, a emissora omitiu-se no serviço de prestar informações públicas e, em vez de divulgar o que acontecia no país de forma apartidária, optou por exibir programas sem teor político.
Se quisesse mesmo dar o troco aos que acusa de traição, Chávez poderia ter cancelado as transmissões originais da RCTV por 48 horas, aproveitando o período para exibir programas em seu favor, mostrar benfeitorias de seu governo, suas visitas a Cuba e cenas de seus partidários segurando bandeiras da Venezuela. Mas não foi o que fez.
Aparentemente, a resposta de Chávez foi inflacionada pelos cinco anos de espera e o preço vai ser pago pela população venezuelana, que além da perda da informação crítica e de oposição ao governo, perdeu o final da novela "Mi Prima Ciela", interrompida com o fim da RCTV.
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