Ex-repressor acusa goleiro de laço com ditadura argentina
Conhecido por ter tomado o milésimo gol de Pelé, o ex-goleiro argentino Edgardo Andrada, 69, foi citado em julgamento pelo ex-repressor Eduardo Constanzo como um agente do serviço de inteligência da ditadura militar argentina (1976-83). Andrada, que serviu no Exército, deve ser chamado a depor nos próximos dias.
Segundo o depoimento de Constanzo --que cumpre prisão domiciliar--na última sexta-feira ao juiz de San Nicolás (240 km de Buenos Aires), Carlos Villafuerte Ruzo, Andrada faria parte de um grupo que seqüestrava militantes de oposição em Rosário (300 km da capital argentina) e teria integrado uma operação que resultou no assassinato de dois peronistas em 1983, Osvaldo Cambiaso e Eduardo Pereira Rossi.
Argentino de Rosário, Andrada jogou no time Rosario Central entre 1960 e 1969, quando foi contratado para atuar no Brasil, pelo Vasco da Gama, no qual ganhou o campeonato carioca de 1970 e o brasileiro de 1974. Por sua elasticidade, ganhou também o apelido de "gato".
Mas foi uma falha, em 1969, que o levou a entrar para a história. Dizem que até hoje seu cartão de visitas traz o epíteto: "o goleiro que tomou o milésimo gol de Pelé".
Andrada voltou à Argentina em 1976, ano em que começou a última ditadura, um dos períodos mais violentos da história do país. Hoje, ele é o coordenador das divisões inferiores do Rosario Central, time pelo qual se tornou conhecido.
À Folha o assessor da presidência do Rosario Central, José Grimolizzi, disse que o time "não tem conhecimento da acusação". "O clube não tomará nenhuma medida até que se saiba de uma decisão oficial da Justiça", afirmou Grimolizzi.
Segundo o depoimento de Constanzo, o ex-goleiro teria participado da operação de seqüestro dos militantes peronistas Cambiaso e Rossi no dia 14 de maio de 1983, pouco antes do fim da ditadura. Os corpos dos dois, assassinados com tiros à queima-roupa, foram encontrados dias depois. Segundo a versão oficial, teriam morrido em um confronto armado.
Constanzo já havia acusado Andrada em declaração a uma rádio, mas entidades de direitos humanos pediram que ele fosse convocado como testemunha no caso Cambiaso-Rossi para que o depoimento se tornasse oficial e o ex-jogador também pudesse ser intimado.
O governo de Néstor Kirchner (2003-2007) fez do acerto de contas com o regime militar uma das bandeiras de seu governo, dando início a uma série de julgamentos de ex-repressores, aos quais sua mulher, a atual presidente Cristina Kirchner, prometeu em sua posse dar continuidade.
Outro lado
A Folha ligou diversas vezes ontem para a casa de Andrada, em Rosário, mas o argentino passou o dia fora, trabalhando. A mulher do ex-goleiro, Alicia, afirmou que ele não tem celular e que não há telefones nas quadras de futebol onde trabalha. À noite, o filho do goleiro informou que "ele teve que viajar de emergência", mas não disse para onde.
Indagada sobre o que o marido afirma sobre a acusação de ter colaborado com a ditadura, Alicia disse que não tinha nada a dizer. Ao diário "Clarín", Andrada disse, anteontem, que era uma "invenção". "Eu não tenho nada a ver com o que estão me acusando. Este senhor Constanzo desvaria, fala sem saber, e não sei por que me envolveu."
Andrada afirmou que as acusações prejudicam o seu trabalho. "Servi no Exército, mas não é pecado tomar parte dessa força. Não significa que seja um delinqüente. Estava no Exército e jogava futebol, nada mais", disse.
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