Filha de desaparecidos políticos processa pais adotivos na Argentina
María Eugenia Barragán fez nesta quinta-feira um relato de sua vida no primeiro julgamento promovido por uma filha de desaparecidos políticos contra seus pais adotivos e o homem que a entregou para adoção durante a última ditadura na Argentina (1976-83).
Barragán, 30, abriu processo contra o casal Osvaldo Rivas e María Cristina Gómez Pinto, e contra o ex-capitão do Exército Enrique Berthier, acusado de tê-la entregue para adoção ainda bebê, em 1977, enquanto sua verdadeira mãe estava presa.
"Eles me disseram que eu não era sua filha, mas quando eu perguntava sobre minhas origens eles mudavam toda vez a história. Já fui a filha de um casal de acidentados, de uma empregada doméstica e de uma aeromoça, e minha confusão só aumentava", declarou Barragán.
O depoimento, que durou duas horas e meia, foi acompanhado em silêncio na sala de audiências do Tribunal Oral Federal 5 de Buenos Aires. María Eugenia disse que durante anos foi maltratada pelo casal, e que a situação a obrigou a sair de casa ainda na adolescência.
"Tinha uma relação espantosa com Gómez", afirmou, referindo-se a sua mãe adotiva.
Dezenas de jovens do grupo Hijos (filhos) de desaparecidos, presentes na sala, aplaudiram María Eugenia após o fim do depoimento.
Também compareceu à sessão Estela Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, que exaltou a "valentia" de María Eugenia e fez um apelo a todos os jovens que têm dúvidas sobre sua identidade para que procurem a organização.
Azucena Martín de Barragán, mãe de Mirta Barragán, a mãe biológica desaparecida de María Eugenia, também falou na audiência.
Mirta, 80, chegou ao tribunal em uma cadeira de rodas e, falando em voz baixa, disse que foi ela quem denunciou o caso de sua filha às Avós da Praça de Maio. A organização humanitária já recuperou 88 netos perdidos.
María Eugenia recuperou sua verdadeira identidade em 2001, após a realização de um exame de DNA.
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