Museu de Mossul está em ruínas após 2 anos dominado pelo Estado Islâmico

Crédito: Khalid Mohammed/Associated Press Parte dos fragmentos de escrita cuneiforme da Mesopotâmia foram destruídos no museu de Mossul
Parte dos fragmentos de escrita cuneiforme da Mesopotâmia foram destruídos no museu de Mossul

SUSANNAH GEORGE
DA ASSOCIATED PRESS, EM MOSSUL

O museu de antiguidades na cidade iraquiana de Mossul está em ruínas, seus salões de exposição abrigam pilhas de entulhos e o porão está recoberto de cinzas até a altura dos tornozelos.

Repórteres da Associated Press tiveram a rara oportunidade de visitar o museu na quarta-feira (8), depois que forças iraquianas o retomaram da milícia terrorista Estado Islâmico, no começo da semana.

Eles viram os restos destruídos do que parecia ser uma antiga estátua assíria de um touro, e fragmentos de tabletes cuneiformes. O museu abrigava artefatos mesopotâmios de milhares de anos de idade.

O Estado Islâmico capturou Mossul em 2014 e divulgou um vídeo no ano seguinte que mostrava seus combatentes destruindo peças do acervo do museu com martelos pneumáticos e furadeiras. Os extremistas consideram que os artefatos da antiguidade são falsos ídolos.

As autoridades iraquianas afirmaram, naquele momento, que a maioria das peças destruídas pelos extremistas eram réplicas, já que boa parte do acervo do museu havia sido transferida a Bagdá em busca de segurança.

O cabo Abbas Muhammad, da polícia federal iraquiana, diz ter sido uma das primeiras pessoas a entrar no museu depois de sua reconquista. "O Daesh [acrônimo em árabe para o Estado Islâmico] veio ao Iraque para destruir nossa herança, porque eles não têm herança alguma", ele disse, usando a sigla árabe do grupo.

O território que o Estado Islâmico capturou na Síria e Iraque abriga alguns dos mais importantes sítios e monumentos históricos da região.

Nos últimos dois anos e meio, os militantes destruíram sistematicamente palácios, templos e igrejas construídos na antiguidade.

Chegaram até a demolir algumas mesquitas, afirmando que elas eram usadas para venerar santos, o que o Estado Islâmico considera como uma forma de politeísmo.

Acredita-se também que a organização extremista tenha saqueado artefatos antigos a fim de vendê-los no mercado negro e financiar suas operações.

Alguns livros de história resistiam no saguão de entrada principal do museu, em companhia de um saco contendo cartazes de antigas exposições.

Os cartazes descrevem objetos de sílex encontrados em Nineveh e datando do ano 4000 a.C., lâmpadas a óleo de cobre datando de 2500 a.C. e estátuas sumérias datando de 2050 a.C..

"Mossul é o coração da civilização iraquiana", disse o major Muhammad al-Jabouri, da polícia federal iraquiana, natural de Mossul e de um bairro próximo ao museu.

"Quando ouvi sobre a destruição deste lugar pelo Daesh", ele disse, com os olhos marejados de lágrimas, "a morte teria sido uma solução mais misericordiosa para mim".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.