DA ASSOCIATED PRESS, EM DUBAI (EMIRADOS ÁRABES UNIDOS)

Estão em curso no Irã os maiores protestos antigoverno desde a eleição presidencial turbulenta de 2009. Milhares de pessoas saíram às ruas em várias cidades nos últimos dias.

O governo impôs restrições aos deslocamentos e tomou medidas para bloquear o funcionamento de redes sociais, limitando a capacidade de jornalistas cobrirem a turbulência, que, segundo a televisão estatal iraniana, já provocou 12 mortes. O que sabemos até agora:

Como os protestos começaram?

As manifestações começaram na quinta-feira (28) em Mashhad, a segunda maior cidade iraniana e sede de um famoso santuário xiita. A cidade é um reduto conservador do clérigo Ebrahim Raisi, derrotado pelo presidente Hassan Rowhani na eleição do ano passado. Analistas sugerem que conservadores iniciaram os protestos nessa cidade para colocar pressão sobre Rowhani, clérigo relativamente moderado no governo teocrático iraniano. Então os protestos se alastraram rapidamente pelo resto do país de 80 milhões de habitantes.

O que querem os manifestantes?

Os manifestantes enfocaram inicialmente a economia enfraquecida do país. Apesar de poder vender petróleo no mercado internacional desde o acordo nuclear de 2015, o Irã enfrenta inflação crescente e alto índice de desemprego. O fator que desencadeou os protestos parece ter sido o aumento recente de até 40% nos preços de ovos e frangos, atribuídos por um porta-voz governamental ao sacrifício de aves devido a receios de gripe aviária. Os manifestantes criticam tanto Rowhani quanto o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Alguns criticam o apoio militar dado pelo Irã ao presidente sírio, Bashar Assad, enquanto outros vêm elogiando o xá, apoiado pelos EUA, que fugiu para o exílio pouco antes da Revolução Islâmica de 1979 e morreu de câncer no ano seguinte.

Quem está à frente dos protestos?

Ainda não emergiu nenhuma liderança central. É diferente do que se viu nas manifestações do Movimento Verde de 2009, que protestaram contra a reeleição do presidente de linha dura Mahmoud Ahmadinejad em meio a amplas acusações de fraude eleitoral. Aqueles protestos, os maiores vistos no país desde 1979, desencadearam uma onda de repressão da paramilitar Guarda Revolucionária e grupos filiados a ela, levando à detenção de milhares de pessoas, enquanto dezenas de outras foram mortas e torturadas. Os líderes dos protestos de 2009 continuam sob prisão domiciliar até hoje. Os novos protestos não têm liderança, mas foram alimentados em parte por um jornalista exilado, Roohallah Zam, usando um aplicativo de mensagens por celular chamado Telegram.

Como o governo vem reagindo?

O Irã diz que fechou temporariamente o acesso ao Telegram e ao aplicativo de partilha de fotos Instagram, para "manter a paz", limitando a capacidade dos manifestantes de compartilhar imagens e divulgar os protestos. Facebook e Twitter já estão proibidos. Policiais uniformizados e à paisana estão nas ruas, além de membros da força voluntária Basij, subordinada à Guarda Revolucionária, que ajudou a implementar a repressão em 2009. O próprio Rowhani disse que o Irã autoriza a realização de protestos, e as autoridades frequentemente toleram manifestações e greves menores, mais restritas. Mas o presidente e outros líderes avisaram que o governo não hesitará em reprimir aqueles que considerar que estão infringindo a lei.

Houve violência?

Pelo menos 13 mortes foram informadas até agora. A televisão pública iraniana disse na segunda-feira que as forças de segurança impediram "manifestantes armados" de invadir delegacias de polícia e bases militares, mas não deu maiores informações. Imagens divulgadas por agências de notícias semioficiais iranianas mostram jatos d'água sendo usados contra manifestantes em Teerã. Também mostraram instalações públicas depredadas por manifestantes. Várias centenas de pessoas já teriam sido detidas, mas a polícia diz que já soltou muitas delas. Alguns vídeos circularam online mostrando manifestantes recebendo policiais de braços abertos e fazendo protestos pacíficos.

Como o mundo está reagindo?

O presidente americano, Donald Trump, já publicou vários tuites em apoio aos protestos. O Departamento de Estado acusou os líderes iranianos de "transformar um país rico, dotado de história e cultura férteis, em um Estado irresponsável e economicamente depauperado cujos principais produtos de exportação são violência, sangue e caos". Rowhani rejeitou as críticas de Trump, e muitos iranianos estão furiosos com o presidente americano por suas ordens executivas que os impedem de conseguir vistos de entrada nos Estados Unidos e sua recusa em recertificar o acordo nuclear.

O Irã é uma democracia?

O Irã se descreve como uma república islâmica. Representantes eleitos aprovam leis e governam em nome de seus eleitores. Mas o líder supremo tem a palavra final sobre todas as questões de Estado. Todas as leis precisam ser aprovadas pelo Conselho de Guardiões, metade de cujos 12 membros são selecionados pelo líder supremo, enquanto a outra metade é indicada pelo Judiciário e precisa ser aprovada pelo Parlamento. O conselho também aprova todos os candidatos presidenciais e parlamentares, barrando qualquer candidato que questione o sistema político ou proponha reformas radicais. As forças de segurança que se reportam unicamente ao líder supremo, como a Guarda Revolucionária, frequentemente prendem estrangeiros e cidadãos com dupla nacionalidade, usando-os como peões em negociações internacionais.

O que vai acontecer a seguir?

Os manifestantes convocaram mais protestos para os próximos dias. Embora Rowhani tenha dito que o governo permite manifestações, todas até agora foram realizadas sem autorização policial, o que é ilegal. Em última análise, é o líder supremo quem vai decidir como reagir. Como escreveu Cliff Kupchan, do Eurasia Group, em uma análise no domingo: "Quando o assunto é a sobrevivência do regime, o poder de decisão é de Khanemei. E ele tem muitas tropas leais e implacáveis à sua disposição.

Tradução de Clara Allain

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